Os víde­os da Maria Leal multiplicam-​se nas redes soci­ais, tão nume­ro­sos como lar­vas de mos­ca. Só con­se­gui ver os pri­mei­ros trin­ta segun­dos do pri­mei­ro. Nunca fui o tipo de pes­soa com neces­si­da­de de abran­dar quan­do há um aci­den­te de trân­si­to. Não gos­to de desas­tres. Não con­si­go entreter-​me com desas­tres. Não con­si­go achar pia­da.

Mas há mal­ta que acha pia­da e se far­ta de rir e par­ti­lhar. Na enor­me cor­te do entre­te­ni­men­to exis­tem reis, rai­nhas, prín­ci­pes, barões, con­des e duques, mas tam­bém devem exis­tir bobos.

Maria Leal é o bobo favo­ri­to da cor­te, mas não vai durar mui­to. Nunca dura. Sai da fren­te, ó Guedes, vem aí o pró­xi­mo.

A mim não ale­gra nem dá von­ta­de de rir. Envergonha-​me. Vê-​la a can­tar e a dan­çar, a gra­var can­ções, a apa­re­cer nos canais de tele­vi­são, nas revis­tas e nas redes soci­ais faz-​me pen­sar que o mun­do se trans­for­mou num gigan­tes­co pro­gra­ma de apa­nha­dos.

Alguém mon­tou um cená­rio fic­tí­cio no qual os dotes de Maria Leal para o can­to e a dan­ça são apre­ci­a­dos. Ela cai na espar­re­la e põe-​se a can­tar e a dan­çar. Todos fin­gem inte­res­se no que ela jul­ga ter para dar, mas só estão a gozar a par­ti­da que lhe pre­ga­ram.

Não, a Maria Leal não tem assim tanta piada

Esta aldeia glo­bal tec­no­lo­gi­ca­men­te tão sofis­ti­ca­da aborrece-​me. Todos estes gozos. Todas estas gar­ga­lha­das. Estes likes e par­ti­lhas. Como se quem dis­se­mi­na estes víde­os fos­se isen­to de res­pon­sa­bi­li­da­des no fenó­me­no que cri­ti­ca. Como se não con­tri­buís­se para a sua lucra­ti­vi­da­de.

O que há tem­pos cha­má­va­mos de arte obe­de­ce ago­ra à mes­ma lógi­ca da publi­ci­da­de. Não inte­res­sa se é bom ou mau, se é ou não é, impor­ta é a capa­ci­da­de de gerar aten­ção.

O mun­do com­pe­te pela nos­sa aten­ção, não pela nos­sa inte­li­gên­cia, sen­si­bi­li­da­de ou sen­ti­do crí­ti­co. É aten­ção que se quer. Atenção gera dinhei­ro. Os media con­ti­nu­a­rão a falar de Maria Leal enquan­to as pes­so­as con­ti­nu­a­rem a abran­dar para ver o desas­tre.

Maria Leal

E sen­tir estas coi­sas enquan­to tan­tos se diver­tem faz-​me sen­tir des­lo­ca­do des­ta aldeia. É como estar sen­ta­do a um can­to, abor­re­ci­do, ven­do toda a gen­te a dan­çar ao som de má músi­ca.

A ver­go­nha que sin­to nem tem razão de ser. Afinal, nada dis­to é para ser leva­do a sério, tudo pas­sa num ápi­ce. Hoje um bobo, ama­nhã outro, bobo mor­to, bobo pos­to, não é?

Mas é assim que me sin­to e não há nada a fazer. A Maria Leal e as pes­so­as que gozam o pra­to à con­ta dela não são assim tão dife­ren­tes como acre­di­tam. Fazem todas par­te do mes­mo mun­do — um mun­do onde o entre­te­ni­men­to não é valo­ri­za­do pela qua­li­da­de e inte­li­gên­cia, mas pela aten­ção e dinhei­ro que gere.

Vivemos numa eco­no­mia de mer­ca­do. O mer­ca­do paga mais pelo entre­te­ni­men­to da Maria Leal do que pela Educação. Assim se cri­am gera­ções que pres­tam aten­ção ao fútil e igno­ram o impor­tan­te. E é por isto que não me con­si­go rir.

Marco Santos

­ Marco Santos

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