Canais tele­vi­si­vos como a TVI ou a CMTV ficam eufó­ri­cos quan­do exis­tem tra­gé­di­as des­tas dimen­sões. A ener­gia his­trió­ni­ca das emis­sões é qua­se pal­pá­vel. Milhares de pes­so­as estão a ver. Muitas mais do que o nor­mal. É pre­ci­so dar tudo. Tirar tudo.

Uma tra­gé­dia des­tas é para ser apro­vei­ta­da até ao últi­mo segun­do. Canais como a TVI ou a CMTV lançam-​se ao acon­te­ci­men­to como ani­mais esfo­me­a­dos. Nunca se sabe quan­do vol­ta­rão a ter uma refei­ção assim. Não se dei­xa nada de fora. Aproveita-​se até à últi­ma gota de san­gue, suor e lágri­mas.

Depois dos incên­di­os, as cin­zas; depois das cin­zas, os fune­rais. Haverá mais inter­ven­ções em dire­to e repór­te­res a mas­sa­crar emo­ci­o­nal­men­te os sofre­do­res. Talvez se arran­jem uns heli­cóp­te­ros ou dro­nes para os pla­nos mais gerais dos cor­te­jos fúne­bres.

A tele­vi­são transforma-​nos em pás­sa­ros de Hitchcock a ver, cá de cima, um mun­do a arder. Somos deu­ses de sofá obser­van­do o desen­ro­lar da vida e da mor­te pro­te­gi­dos numa redo­ma de não-​existência crí­ti­ca.

Sim, é fácil cul­par TVI e CMTV pela mor­te da decên­cia na cober­tu­ra jor­na­lís­ti­ca das gran­des tra­gé­di­as. É fácil escandalizarmo-​nos quan­do vemos que, na cober­tu­ra de um incên­dio, um micro­fo­ne é tão pre­ci­o­so como uma man­guei­ra de água.

Por mais cul­pa­das que sejam, TVI e CMTV nun­ca o con­se­gui­ri­am sem a pre­ci­o­sa aju­da de milha­res de cúm­pli­ces. Aqueles que não mudam de canal ou des­li­gam o tele­vi­sor. Os que segu­ram a mão do repór­ter que apon­ta o micro­fo­ne. Para esses, o incên­dio segue sem­pre den­tro de momen­tos.

A gala da TVI

Pawel Kuczynski

Pawel Kuczynski

As tele­vi­sões têm a capa­ci­da­de de se apro­pri­ar de todos os sím­bo­los. Uma jor­na­lis­ta e diretora-​adjunta de infor­ma­ção da TVI faz um dire­to com um cadá­ver enqua­dra­do no pla­no. Ao lado, em cima, um sím­bo­lo de luto orna­men­ta o logó­ti­po da esta­ção como um laci­nho em fato de gala.

Sim, é uma noi­te de gala. A gala do sofri­men­to alheio. A gala dos espe­ci­a­lis­tas em gene­ra­li­da­des espe­cí­fi­cas. A gala das expli­ca­ções sem aná­li­se. Dos pedi­dos de demis­são. De todas as indig­na­ções e de todos os apro­vei­ta­men­tos.

A tele­vi­são é um abis­mo de con­tra­di­ções. Porque a tele­vi­são está de luto e explo­ra o luto. Porque res­pei­ta o sofri­men­to, mas pre­ci­sa de exibi-​lo. Porque lamen­ta o núme­ro de mor­tos, mas é escu­sa­do pre­ten­der enganar-​se a si pró­pria: quan­to mais, melhor.


Foto no cabe­ça­lho: Paulo Pimenta, foto­jor­na­lis­ta do Jornal Público

Marco Santos

­ Marco Santos

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