Há mui­tas for­mas popu­la­res de desig­nar o órgão sexu­al femi­ni­no: cona, pipi, pito, piro­na, rata, vagi­na, ninho, par­re­co, racha, febra, entre­fo­lhos, mexi­lhão, ostra, gre­ta, pacha­cha, pata­re­ca, cri­ca e ara­nha são algu­mas das mais conhe­ci­das.

A minha pre­fe­ri­da, em ter­mos de sono­ri­da­de, é pata­re­ca. Patareca. Patareca. Ó minha lin­da pata­re­ca. Experimentem dizê-​la em voz alta: nun­ca mais que­rem outra coi­sa.

Patareca está para vagi­na como sara­pi­to­la está para mas­tur­ba­ção. Têm o mes­mo sig­ni­fi­ca­do que os seus equi­va­len­tes poli­ti­ca­men­te cor­rec­tos, mas o calão é mais pro­fun­do e reú­ne, numa úni­ca pala­vra, inti­mi­da­de e sen­ti­do de humor – duas for­ças extre­ma­men­te pode­ro­sas, sobre­tu­do quan­do colo­ca­das fren­te a fren­te, de for­ma des­com­ple­xa­da, sem ten­ta­rem eliminar-​se uma à outra. Saber rir da nos­sa pró­pria inti­mi­da­de, dian­te do outro, é um subli­me acto de entre­ga.

Tenham em aten­ção, con­tu­do, pois pata­re­ca é uma pala­vra espe­ci­al que desig­na algo de sagra­do e por­tan­to não deve ser usa­da em vão. Podem pen­sar que é engra­ça­do bap­ti­zar a vos­sa cade­li­nha de Patareca só por­que é uma pala­vra sim­pá­ti­ca que vos soa bem; com­pre­en­do que seja ten­ta­dor que a Patareca venha a cor­rer na vos­sa direc­ção, abanando-​se toda con­ten­te e sal­ti­tan­te, sem­pre que a cha­ma­rem, e se vá embo­ra, já dis­pos­ta a perdoar-​vos, quan­do dela não pre­ci­sem. Mas só as vagi­nas se com­por­tam assim.

Não, não fumei nenhu­ma subs­tân­cia proi­bi­da – além das pata­re­cas, tam­bém gos­to de pala­vras. Como dizia o gran­de George Carlin, as pala­vras podem dizer-​nos mui­to mais do que o seu sig­ni­fi­ca­do mais res­tri­to. Por exem­plo, de acor­do com o dici­o­ná­rio da Priberam entre­fo­lhos são indi­ges­tões cró­ni­cas no folho­so dos rumi­nan­tes; con­tu­do, tenho a cer­te­za abso­lu­ta de que o génio que inven­tou a expres­são entre­fo­lhos do cu não esta­va a pen­sar em per­tur­ba­ções diges­ti­vas.

Há pala­vras que não ofen­dem os bons cos­tu­mes, mas pura e sim­ples­men­te não pres­tam jus­ti­ça ao acto. Masturbação, por exem­plo. Nenhum tipo sau­dá­vel se mas­tur­ba; mas­tur­ba­ção é acto soli­tá­rio, depri­men­te, tris­te, deses­pe­ra­do, ego­cên­tri­co; mas­tur­ba­ção é, na melhor das hipó­te­ses, pala­vra para con­sul­tó­rio médi­co ou salões pudi­cos.

Um tipo men­tal­men­te são esga­lha o pes­se­guei­ro, bate uma sara­pi­to­la por­que, para ele, a punhe­ta envol­ve sem­pre a pre­sen­ça de alguém, não é um acto soli­tá­rio. Para con­se­guir ima­gi­nar alguém quan­do na ver­da­de esse alguém não se encon­tra fisi­ca­men­te pre­sen­te, é neces­sá­rio atin­gir a sim­bi­o­se per­fei­ta entre inti­mi­da­de e sen­ti­do de humor para que a sara­pi­to­la não se trans­for­me em mas­tur­ba­ção.

O mes­mo prin­cí­pio se apli­ca à cri­ca dos nos­sos sonhos. Conseguem ima­gi­nar uma vagi­na aos sal­tos? Eu não. Vagina é está­ti­ca, fria, seca, está esten­di­da numa maca à espe­ra de ser obser­va­da atra­vés das len­tes de um micros­có­pio até mir­rar de des­con­for­to. A vagi­na não se ama, disseca-​se; só uma pata­re­ca se pode pôr aos sal­tos de ale­gria, dese­jo e emo­ção, e man­ter a inde­pen­dên­cia e per­so­na­li­da­de que a tor­nam úni­ca. Uma vagi­na até se cum­pri­men­ta com res­pei­to e defe­rên­cia; uma pata­re­ca é para se bei­jar calo­ro­sa­men­te.

Marco Santos

­ Marco Santos

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