Li que o Dia Mundial do Orgasmo é cele­bra­do a 31 de julho. Sendo o sexo um tema tão ren­tá­vel, os media sal­ta­ram sobre o assun­to sem sequer tirar as mei­as.

Passei os olhos por alguns arti­gos sobre a efe­mé­ri­de e vi que todos fala­vam das mulhe­res. Não me admi­ra. O Dia Mundial do Orgasmo é sobre o orgas­mo femi­ni­no. O nos­so tam­bém é espe­ci­al e dig­no de men­ção, mas não temos gran­de coi­sa a dizer sobre o assun­to.

O que temos a afir­mar sobre o nos­so orgas­mo é mais ou menos o que Júlio César pro­cla­mou ao Senado quan­do che­gou vito­ri­o­so da Batalha de Zela: «Veni, vidi, vici». Ou seja, em cir­cuns­tân­ci­as nor­mais, che­ga­mos, vemos e vimo-​nos, nada de espe­ci­al.

Mas temos cons­ci­ên­cia das nos­sas limi­ta­ções e que­re­mos agra­dar à nos­sa par­cei­ra. Tentamos con­tra­ri­ar o que a nos­sa natu­re­za nos implo­ra para fazer, já. E quan­do con­se­gui­mos, sentimo-​nos espe­ci­ais como aque­le incan­sá­vel coe­lhi­nho que se tor­nou mas­co­te das pilhas Duracell.

O Dia Mundial da Pasmaceira

Enquanto a mai­o­ria de nós faz o que pode para se con­tro­lar, elas ansei­am por atin­gir o des­con­tro­lo con­nos­co. E mui­tas não con­se­guem. Um estu­do publi­ca­do esta sema­na pelo Projeto de Sexualidade na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo con­cluiu que meta­de das mulhe­res bra­si­lei­ras nun­ca atin­giu o orgas­mo duran­te o sexo.

Um outro estu­do patro­ci­na­do por uma rede de «sex shops» em Inglaterra — e foram estas lojas que cri­a­ram, em 1999, o Dia Mundial do Orgasmo — mos­trou que cer­ca de 80 por cen­to das ingle­sas tam­bém não che­gam lá.

Estes «dias mun­di­ais» são mar­ca­dos para nos recor­dar, de for­ma ceri­mo­ni­al, algo que deve­ria acon­te­cer sem­pre. Se a paz no mun­do exis­tis­se todos os dias de todos os anos, não have­ria neces­si­da­de de orga­ni­zar dias espe­ci­ais. Comemora-​se o Dia Mundial do Orgasmo por­que para mui­tas mulhe­res os res­tan­tes são Dias Mundiais da Pasmaceira.

O úni­co dia que faria sen­ti­do come­mo­rar fra­ter­nal­men­te seria o Dia Mundial da Mão por­que, há que reconhecê-​lo, qua­se todos come­çá­mos assim.

Quando Manuel Alegre escre­veu o céle­bre «Com mãos se faz a paz se faz a guer­ra, Com mãos tudo se faz e se des­faz», por aí fora, a mai­o­ria dos ado­les­cen­tes deve ter pen­sa­do que o nos­so poe­ta dei­xa­ra mui­ta coi­sa suben­ten­di­da.

Fazer ou não fazer, eis a questão

Dia Mundial do OrgasmoDia Mundial do Orgasmo

Claro que nós temos mui­ta cul­pa no car­tó­rio. Podíamos ser mais aten­ci­o­sos e cri­ar o Dia Mundial do Minete. Incentivava-​se a mal­ta a pra­ti­car. Se um mine­te mui­to bem ser­vi­do não pode mudar o mun­do, hones­ta­men­te não sei o que pode­rá.

Em vez dis­so, os estu­dos dizem que mui­tos homens têm com o cli­tó­ris a mes­ma rela­ção que um mío­pe tem com o Wally.

O orgas­mo femi­ni­no sem­pre foi tão extra­ter­res­tre que no sécu­lo XIX era con­si­de­ra­do pela soci­e­da­de patri­ar­cal e puri­ta­na uma mani­fes­ta­ção his­té­ri­ca. Esta «his­te­ria» já era conhe­ci­da há mui­to tem­po. Os gre­gos chamavam-​lhe a doen­ça do úte­ro arden­te, um mal tão incon­ve­ni­en­te como uma pra­ga de gafa­nho­tos.

O Dia do Orgasmo devia ser uma boa opor­tu­ni­da­de para os homens refe­ri­dos nes­ses estu­dos. Aprendam umas coi­sas sobre a mara­vi­lho­sa e com­ple­xa cri­a­tu­ra com que se dei­tam todos os dias. Não é difí­cil.

Com perseverança chega-​se lá

Dia Mundial do Orgasmo

Caramba, se somos capa­zes de seguir um manu­al de ins­tru­ções e mon­tar um armá­rio do IKEA qua­se sem pes­ta­ne­jar, por que raio não have­re­mos de apren­der a dar à mulher aque­la sen­sa­ção de não saber bem onde aca­ba o quar­to e come­çam as estre­las?

O orgas­mo femi­ni­no tem aces­so a mais dimen­sões, é ver­da­de. Se o pro­fes­sor Abbott tives­se escri­to um «Flatland» do orgas­mo, o nos­so seria repre­sen­ta­do por um qua­dra­do num mun­do bidi­men­si­o­nal; o delas, por uma esfe­ra a flu­tu­ar em três dimen­sões.

Mas com per­se­ve­ran­ça e mui­to estu­do, pode­mos che­gar lá.

Elas são mais sofis­ti­ca­das. As mulhe­res são um sis­te­ma ope­ra­ti­vo com­ple­xo, mul­ti­ta­re­fa, capaz de tra­ba­lhar com vári­os pro­gra­mas orgás­ti­cos ao mes­mo tem­po. Nós ain­da somos um Windows 98. Só não que­re­mos é crashar a meio de uma tare­fa impor­tan­te. A nos­sa ges­tão de memó­ria é pés­si­ma, dizem elas. E o ecrã azul da eja­cu­la­ção pre­co­ce? Ninguém apre­cia.

Senhores des­ses estu­dos que andam a dei­xar mal as mulhe­res: atualizem-​se, ins­ta­lem um Service Pack, mudem para Linux, mas façam qual­quer coi­sa.

Marco Santos

­Marco Santos

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