Uma can­ção de Rui Veloso no prin­cí­pio da déca­da de 90 informava-​nos de que já não havia estre­las no céu. A letra de Carlos Tê fala­va dos dile­mas exis­ten­ci­ais da ado­les­cên­cia e lembro-​me sem­pre dela quan­do vejo o pre­si­den­te do Sporting na tele­vi­são ou oiço os ecos dos seus posts no Facebook.

Não há estre­las a dou­rar o cami­nho de Bruno de Carvalho na pre­si­dên­cia — e isso nota-​se. Compreendo que seja frus­tran­te. Que seja injus­to a pon­to de bater os pés com mui­ta for­ça no chão.

As estrelas erradas no céu

Foto: José Sena Goulão

Foto: José Sena Goulão

Os deu­ses da bola colo­ca­ram nos céus tro­féus que tei­mam em não iluminá-​lo. Temos uma estre­la gigan­te ver­me­lha e outra gigan­te azul, ambas de gran­de mag­ni­tu­de, bem visí­veis no fir­ma­men­to.

Por mais que Bruno de Carvalho pro­cu­re, não con­se­gue encon­trar estre­las de mag­ni­tu­de seme­lhan­te que sejam ver­des.

Os astró­no­mos da bola afi­nam os teles­có­pi­os à pro­cu­ra de sinais. Se calhar são mais raras. Talvez se tenham extin­gui­do. Talvez tenham de fac­to exis­ti­do. Há quem diga que sim, não é um mito: outro­ra, tais estre­las bri­lha­ram inten­sa­men­te. Só que estão tão dis­tan­tes que a sua luz tem demo­ra­do mais de 18 anos para che­gar até nós. E nin­guém con­se­gue pre­ver quan­do final­men­te nos alcan­ça­rá.

Natavidades desportivas

Muitos de nós já vive­ram a boni­ta pri­ma­ve­ra da vida de que fala a can­ção de Rui Veloso, mas para Bruno de Carvalho con­ti­nua tudo na mes­ma: «tão depres­sa o sol bri­lha como a seguir está a cho­ver». Tão depres­sa fes­te­jo um golo como sou der­ru­ba­do por uma der­ro­ta. Tão depres­sa abra­ço um joga­dor como a seguir o arra­so.

Estava des­ti­na­do a ser o Rei Mago do Sporting. Anafado mas divi­na­men­te deter­mi­na­do, seria ele a des­co­brir o cami­nho onde é visí­vel a luz de uma estre­la ver­de. O meni­no Jesus já tinha, só fal­ta­va a estre­li­nha para guiá-​lo ao pre­sé­pio onde nas­cem as taças de cam­peão.

O homem fez tudo o que pode. Desbravou cami­nho. Devolveu a cor ver­de à espe­ran­ça de sóci­os e adep­tos, que anda­va dema­si­a­do trans­lú­ci­da. Mas se o Rei Mago con­se­gue resis­tir ao Natal, é depois der­ru­ba­do pela Páscoa.

Sempre sonhou diri­gir o Sporting e não há dúvi­da que está lá por amor à cami­so­la. Quando anda­va mis­tu­ra­do na cla­que a ver os jogos, chamavam-​lhe «pre­si­den­te»; ago­ra que é de fac­to pre­si­den­te, chamam-​lhe outras coi­sas.

Bruno de Carvalho não é o con­jun­to de nomes fei­os que adver­sá­ri­os den­tro e fora do clu­be uti­li­zam. O pro­ble­ma é ter pas­sa­do dire­ta­men­te da ban­ca­da da cla­que para a tri­bu­na pre­si­den­ci­al.

Os trei­na­do­res estu­dam e tiram cur­sos, os joga­do­res trei­nam e rodam nas equi­pas, mas o pro­ces­so de pre­pa­ra­ção dos can­di­da­tos pre­si­den­ci­ais é pou­co rigo­ro­so.

É por isso que o fute­bol den­tro das qua­tro linhas é infi­ni­ta­men­te mais ele­va­do do que o que se joga fora delas, e já estou a con­tar com as sar­ra­fa­das oca­si­o­nais e a ten­dên­cia que alguns joga­do­res têm para per­gun­tar ao senhor árbi­tro se a mãe­zi­nha está bem de saú­de.

Do SAD do Trump à SAD do Sporting

Bruno de Carvalho

Na con­fe­rên­cia par­la­men­tar sobre Violência no Desporto, na Assembleia da República | Foto: Mário Cruz

Talvez por inex­pe­ri­ên­cia, Bruno de Carvalho mon­tou a tri­bu­na pre­si­den­ci­al no Facebook. O úni­co pre­si­den­te de qual­quer coi­sa que usa as redes soci­ais com a mes­ma impe­tu­o­si­da­de é Donald Trump.

Trump ganhou as elei­ções a pro­me­ter que faria a América gre­at again, mas Bruno de Carvalho nun­ca diria o mes­mo. Para ele, o Sporting nun­ca dei­xou de ser gre­at.

Têm a mes­ma ten­dên­cia para dis­pa­ra­tar nas redes soci­ais antes de pen­sar, como se viu nes­te recen­te caso da sus­pen­são dos joga­do­res que con­tes­ta­ram os seus quei­xu­mes públi­cos e pou­co pre­si­den­ci­ais.

Compreendo que seja difí­cil. Quando para ele «hoje é Janeiro, está um frio de rachar, pare­ce que o mun­do intei­ro se uniu para me tra­mar», é com­pli­ca­do resis­tir à ten­ta­ção de desa­ba­far. Também o fazia quan­do esta­va na cla­que a puxar pela equi­pa. Que inte­res­sa o car­go que ocu­pa? Ele diz as coi­sas como elas são.

Um mundinho a meus pés

Sempre que Bruno de Carvalho pos­ta no Facebook, o mun­do do jor­na­lis­mo des­por­ti­vo estre­me­ce de pra­zer e ante­ci­pa­ção. Os síti­os fazem man­che­tes. A mal­ta para e cli­ca para ver o aci­den­te. Os tele­jor­nais dão a notí­cia. Durante horas inter­mi­ná­veis, comen­ta­do­res em pro­gra­mas espe­ci­ais dis­se­cam cada pala­vra que escre­veu o pre­si­den­te — e não é para pro­cu­rar gra­lhas.

Os polí­ti­cos dão-​lhe pal­ma­di­nhas nas cos­tas. Um homem que pas­sou uma sema­na intei­ra em con­fron­tos ver­bais vio­len­tos com o pre­si­den­te de um clu­be rival foi pre­gar um ser­mão na Assembleia da República sobre vio­lên­cia no fute­bol. E nem um deputado-​abécula no Parlamento abriu a boca para denun­ci­ar a con­tra­di­ção.

Bruno de Carvalho

Imaginem ter um cora­ção ado­les­cen­te como na can­ção de Rui Veloso e usu­fruir des­te tipo de poder e influên­cia. O poder da pro­pa­ga­ção de uma fra­se. O poder da pro­pa­ga­ção de um sen­ti­men­to, trans­for­ma­do em notí­cia. Ser um deus dos reca­di­nhos. Ter um ego que influ­en­cia o que se pas­sa à sua vol­ta.

O pro­ble­ma de Bruno de Carvalho não é ser todos aque­les nomes fei­os que alguns lhe cha­mam. É não ter cres­ci­do des­de que ouviu o «Não há estre­las no céu» pela pri­mei­ra vez. Tal como um típi­co ado­les­cen­te, tudo gira à vol­ta dele, dos seus dese­jos, aspi­ra­ções, frus­tra­ções e demais sen­ti­men­tos pro­vo­ca­dos pela bola - incluin­do, ago­ra, o pró­prio clu­be.

Os seus man­da­tos podi­am ter sido dife­ren­tes. Bruno de Carvalho tem gar­ra e deter­mi­na­ção. Amor à cami­so­la. Conseguiu mobi­li­zar os sóci­os. É ambi­ci­o­so. E tem as carac­te­rís­ti­cas que fazem um bom adep­to, mas que nun­ca farão um bom pre­si­den­te.

O mun­do dos adul­tos não é fácil. Rui Veloso can­ta as angús­ti­as do ado­les­cen­te e ima­gi­no o Bruno na tri­bu­na pre­si­den­ci­al a can­tar «Não vês como isto é duro, ser jovem não é um pos­to. Ter de enca­rar o futu­ro com bor­bu­lhas no ros­to. Porque é que tudo é incer­to, não pode ser sem­pre assim. Se não fos­se o Sporting, o que seria de mim?»

Marco Santos

­Marco Santos

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