Há algo bem mais gra­ve do que falar-​se e escrever-​se mal o Português, tal como assis­ti­mos dia­ri­a­men­te nos mei­os de comu­ni­ca­ção soci­al, e envol­ven­do tan­to polí­ti­cos e gover­nan­tes como os pró­pri­os jor­na­lis­tas.

Sim, jor­na­lis­tas – as cali­na­das des­tes pro­fis­si­o­nais do ver­bo nas tele­vi­sões e nos jor­nais cons­ti­tu­em algo que, se se tra­tas­se de Inglês no Reino Unido, aca­ba­ria em escân­da­lo públi­co. Por cá, vamos seguin­do.

Claro que o tal acor­do orto­grá­fi­co que só Portugal faz ques­tão de apli­car veio aju­dar à con­fu­são, e cla­ro que prá­ti­cas de comu­ni­ca­ção como o SMS pio­ra­ram as coi­sas, mas como dis­se aci­ma, há algo bem mais gra­ve do que falar-​se e escrever-​se mal o Português…

Se nos Censos de 2011 ficou apu­ra­do que a nos­sa taxa de anal­fa­be­tis­mo des­ceu para os 5,2%, o que, de qual­quer modo, ain­da é um índi­ce dema­si­a­do ele­va­do, impos­sí­vel é veri­fi­car em que per­cen­ta­gem está o nível de ili­te­ra­cia ou ile­tris­mo, tam­bém cha­ma­do de «anal­fa­be­tis­mo fun­ci­o­nal».

Iliteracia, explique-​se, é a inca­pa­ci­da­de que mui­tos por­tu­gue­ses, incluin­do indi­ví­du­os com for­ma­ção supe­ri­or, têm de inter­pre­tar devi­da­men­te um tex­to.

Sabe-​se que esse nível é mui­tís­si­mo ele­va­do, mas a deli­ca­de­za da ques­tão – quem não assi­mi­la o que lê, ape­sar de saber des­co­di­fi­car as pala­vras, nem às pare­des o con­fes­sa – impe­de qual­quer veri­fi­ca­ção.

Quem não com­pre­en­de o que lê ten­de a não con­si­de­rar esse pro­ble­ma como uma insu­fi­ci­ên­cia sua e sim como uma falha de quem escre­ve, que acu­sa de ser ambí­guo ou de não ir dire­ta­men­te ao assun­to.

Disse o cien­tis­ta Ricardo Jorge que «o mai­or mal não é o anal­fa­be­tis­mo, é o ile­tris­mo das clas­ses diri­gen­tes». Referia-​se ele, con­cre­ta­men­te, aos dis­pa­ra­tes (cons­tru­ções frá­si­cas incor­re­tas, erros orto­grá­fi­cos e gra­ma­ti­cais) que sur­gem nas leis do Estado ou em con­tra­tos empre­sa­ri­ais.

Em 1995 fez-​se o estu­do pos­sí­vel sobre a ques­tão, por enco­men­da do então minis­tro da Educação, Marçal Grilo. Tendo como hori­zon­te o ano de 2020, Roberto Carneiro defi­niu em «O Futuro da Educação em Portugal – Tendências e Oportunidades» as medi­das indis­pen­sá­veis para com­ba­ter a ili­te­ra­cia.

De pou­co tem vali­do…

Segundo a OCDE, Portugal é um dos paí­ses do âmbi­to de ação des­te orga­nis­mo com mai­or grau de ili­te­ra­cia, estan­do na cau­da de 41 nações no que res­pei­ta à efe­ti­va com­pre­en­são de um tex­to. Na Comunidade Europeia é mes­mo o penúl­ti­mo.

Não sur­pre­en­de, ten­do em con­ta que os por­tu­gue­ses adqui­rem cada vez menos livros e dei­xa­ram de ter a con­sul­ta de jor­nais e revis­tas como um hábi­to. Substituíram-​nos pela tele­vi­são e pela Internet, cam­peãs do super­fi­ci­a­lis­mo e do faci­li­tis­mo da men­sa­gem no tra­ta­men­to da infor­ma­ção.

As con­sequên­ci­as estão à vis­ta. Se uma deter­mi­na­da pro­sa con­tém metá­fo­ras, figu­ras de esti­lo, raci­o­cí­ni­os abs­tra­tos, sim­bo­lis­mos ou cari­ca­tu­ras, uma boa quan­ti­da­de de pes­so­as não con­se­gue tirar-​lhe sen­ti­do e sig­ni­fi­ca­do.

Ou seja, há escri­to­res que bem pode­ri­am estar a uti­li­zar carac­te­res chi­ne­ses com resul­ta­dos iguais e há lei­to­res que se con­fun­dem. Saímos todos frus­tra­dos: uns por­que não se con­se­guem fazer enten­der, outros por­que não enten­dem. E todos nos vamos calan­do…

E desis­tin­do de escre­ver e de ler. O tal futu­ro, tudo infe­liz­men­te o indi­ca, é o regres­so ao anal­fa­be­tis­mo ipsis ver­bis. Vem aí uma nova Idade Média, com a úni­ca dife­ren­ça de que temos com­pu­ta­do­res, iPhones e mui­tas opi­niões sobre maté­ri­as que igno­ra­mos.

Na ver­da­de bem menos impor­tan­tes do que saber se vem aí chu­va, que era o que pre­o­cu­pa­va os cam­po­ne­ses e os nobres há uns sécu­los atrás. Uns por­que pre­ci­sa­vam de plan­tar umas cou­ves e os outros por­que não que­ri­am molhar as peru­cas.

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt.