Um vídeo apre­sen­ta­do pela atriz por­no espa­nho­la Amarna Miller pro­mo­ven­do o Salão Erótico de Barcelona dei­xou mui­ta gen­te a matra­que­ar nos tecla­dos com o obje­ti­vo de atin­gir o clí­max de um argu­men­to — ou insul­to — e car­re­gar na tecla Enter.

Chama-​se «Patria» e associa-​se ao fac­to de Espanha atra­ves­sar uma das mai­o­res cri­ses polí­ti­cas de que há memó­ria: pri­mei­ro a tem­pes­ta­de eco­nó­mi­ca que asso­lou a Europa, depois a troi­ka, o res­gas­te aos ban­cos, ago­ra sem gover­no há qua­se nove meses, com a Catalunha cla­man­do por inde­pen­dên­cia e o Partido Socialista em ris­co de implo­são.

Às con­vul­sões polí­ti­cas, tra­fu­lhi­ces par­la­men­ta­res e víti­mas do cos­tu­me, o vídeo acres­cen­ta a denún­cia à hipo­cri­sia dos bea­tos da bri­ga­da dos bons cos­tu­mes, tão céle­res a des­cul­par os peca­dos dos seus como a con­de­nar as poucas-​vergonhas da indús­tria por­no­grá­fi­ca.

Começa assim: «Chamo-​me Amarna Miller, sou atriz por­no e nas­ci num país hipó­cri­ta, pois as pes­so­as que me cha­mam puta são as mes­mas que se mas­tur­bam com os meus víde­os» — e ergue uma sobran­ce­lha ao dizer esta últi­ma par­te, um tique ner­vo­so a que achei pia­da.

Amarna Miller

Amarna Miller

E, já ago­ra, pos­so escre­ver um apar­te só para dizer que o nome artís­ti­co des­ta espa­nho­la está reple­to de sig­ni­fi­ca­do?

«Amarna» é o nome atu­al da loca­li­da­de que outro­ra fun­ci­o­nou como capi­tal de um faraó here­ge, pací­fi­co, poé­ti­co e revo­lu­ci­o­ná­rio, Akhenaton — o sobe­ra­no dis­for­me que ousou rom­per com o pan­teão dos deu­ses egíp­ci­os em favor de um úni­co deus, o deus-​sol Aton.

Miller é o ape­li­do de um dos gran­des mes­tres da lite­ra­tu­ra eró­ti­ca, Henry Miller, cujos roman­ces foram bani­dos dos EUA por serem obs­ce­nos.

«Um país que ama a vida, mas que per­mi­te que se mate em nome da arte» — con­ti­nua Amarna Miller, referindo-​se às tou­ra­das. — «Um país indig­na­do pela cor­rup­ção mas que con­ti­nua a votar em ladrões, um país onde se sal­vam os mes­mos ban­cos que des­pe­ja­ram milha­res de famí­li­as» — e por aí adi­an­te. Vejam o vídeo, se ain­da não o conhe­cem.

Amarna Miller

Impressionante, de fac­to. Usar o «Requiem» do Mozart tam­bém aju­da bas­tan­te e mais ain­da quan­do é a par­te do Lacrimosa.

Aquela sequên­cia é tão vis­ce­ral­men­te emo­ci­o­nan­te que dis­tor­ce todas as ima­gens só com o poder das suas lágri­mas — o Mozart seria até capaz de nos como­ver com um vídeo de Durão Barroso a sen­tar as náde­gas esca­mo­sas no cadei­rão da Goldman Sachs:

«Sigamos o cher­ne, minha Amiga! Desçamos ao fun­do do desejo/​Atrás de mui­to mais que a fantasia/​E acei­te­mos, até, do cher­ne um beijo,/Senão já com amor, com ale­gria» (do poe­ta Alexandre O’Neill, que não tem cul­pa nenhu­ma).

Também não é coisa para ficarmos tão arrebitados

Parece apro­pri­a­do que seja uma atriz por­no­grá­fi­ca e porta-​voz ofi­ci­al do prin­ci­pal even­to eró­ti­co em Espanha a dizer-​nos que os ban­cos nos anda­ram a fazer aqui­lo que mui­ta gen­te gos­ta­va de lhe fazer a ela, mas acon­te­ce que o vídeo é, aci­ma de tudo, uma pro­mo­ção a um negó­cio cha­ma­do Salão Erótico de Barcelona.

Vamos fazer con­tas? Um bilhe­te diá­rio cus­ta 17 euros e 98 cên­ti­mos (o Salão usa o tru­que dos super­mer­ca­dos, desar­re­don­da uns cên­ti­mos) e um bilhe­te para os qua­tro dias do even­to cus­ta 60 euros.

Quim Llenas

E vejam como nes­ta foto da edi­ção do ano pas­sa­do, o cava­lhei­ro da seta pro­cu­ra tão avi­da­men­te pelos sinais da hipo­cri­sia que o vídeo denun­cia — espe­ro que os encon­tre e dê o dinhei­ro por bem gas­to.

É publi­ci­da­de da boa, nada mais — a ideia que um publi­ci­tá­rio tem do Paraíso não é che­gar ao céu para ser rece­bi­do por um anji­nho com uma tabu­le­ta a dizer «fos­te absol­vi­do dos teus peca­dos», é ser rece­bi­do por um dia­bo de sor­ri­so matrei­ro que o cum­pri­men­ta com um «fartaste-​te de fazer gra­nel lá em bai­xo, meu saca­na».

Sim, a Publicidade e o Diabo têm em comum o mes­mo tru­que: convencer-​nos de que não exis­tem. É o que faz este anún­cio, convence-​nos de que não é um anún­cio — e fá-​lo de for­ma bri­lhan­te.

A ver­da­dei­ra men­sa­gem, o gran­de pro­pó­si­to — além de ser um óbvio fabri­can­te de hype — é-​nos reve­la­do por Amarna Miller na últi­ma e mais impor­tan­te fra­se do vídeo: «Sim, vive­mos num país asque­ro­sa­men­te hipó­cri­ta», refor­ça ela, já com a músi­ca do Mozart impreg­na­da nos nos­sos sen­ti­dos, as ver­da­des que ouvi­mos ain­da a soar-​nos den­tro da cabe­ça: «Mas alguns de nós… Não nos ren­de­mos».

E depois, cla­ro, o logo­ti­po do Salão Erótico de Barcelona sur­ge a fechar esta emo­ci­o­nan­te decla­ra­ção de prin­cí­pi­os.

Nós, eles. Eles, que tam­bém somos nós. Eles não se ren­dem. E nós tam­bém não. Estamos todos jun­tos nis­to. Um por todos e todos por uma. Eles ven­dem bilhe­tes. E nós pode­mos comprá-​los.

Por que razão have­re­mos de estig­ma­ti­zar repre­sen­tan­tes de uma indús­tria por­no se tam­bém eles estão a dizer as ver­da­des que qua­se todos nós gos­ta­mos de ouvir?

O pla­no final. O mag­ní­fi­co pla­no final. Enquadrada como uma figu­ra cen­tral do qua­dro «A Última Ceia», Amarna Miller torna-​se, de fac­to, no faraó here­ge de outro­ra, na revo­lu­ci­o­ná­ria e pro­fe­ta com cabe­los de fogo, na bela sobe­ra­na que ousou denun­ci­ar o pre­con­cei­to, as injus­ti­ças, as desi­gual­da­des, a cor­rup­ção.

E é esta a ver­da­dei­ra men­sa­gem: somos icó­ni­cos. Não tenham medo ou ver­go­nha de gos­tar de nós. Gostar de nós é fazer um man­gui­to a tudo o que vos revol­ta. Um dia, meus que­ri­dos, fare­mos a Marcha do Orgulho Porno. Arriba, Espanha. E são 60 euros por qua­tro dias, se faz favor. Divirtam-​se!

Marco Santos

­Marco Santos

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