O que escre­vi em Junho de 2008 con­ti­nua a ser a minha opi­nião, qua­se dois anos depois. O acor­do orto­grá­fi­co não me cau­sa taqui­car­dia lite­rá­ria. Mais tar­de ou mais cedo, aca­ba­rei por adaptar-​me à nova gra­fia e escre­ver exac­ta­men­te como tenho escri­to até hoje. Também não me sen­ti­rei menos por­tu­guês por cau­sa dis­so.

Chateia-​me ouvir por­tu­gue­ses dizer que estão con­tra o acor­do orto­grá­fi­co por­que não que­rem escre­ver como os bra­si­lei­ros. Eu fica­va mais des­can­sa­do se essas toma­das de posi­ção fos­sem em defe­sa da lín­gua por­tu­gue­sa bem escri­ta, com ou sem acor­do. E acho notá­vel que se fale de uma revi­são orto­grá­fi­ca como se esta impli­cas­se uma mudan­ça na estru­tu­ra do nos­so idi­o­ma.

Sempre me ensi­na­ram na esco­la que orto­gra­fia é uma coi­sa, gra­má­ti­ca é outra. Talvez um pro­fes­sor de Português tenha a ama­bi­li­da­de de expli­car ao pes­so­al qual delas é mais impor­tan­te para a con­sis­tên­cia da nos­sa lín­gua, a orto­gra­fia ou a gra­má­ti­ca.

Estejam des­can­sa­dos: mes­mo depois des­se detes­tá­vel acor­do orto­grá­fi­co entrar em vigor à séria, uma por­tu­gue­sa con­ti­nu­a­rá a ter um cu e uma bra­si­lei­ra uma bun­da.

Mas a pro­pó­si­to de não que­rer escre­ver como os bra­si­lei­ros, expe­ri­men­tem dizer bun­da e cu em voz alta e depois digam-​me lá qual das pala­vras vos pare­ce mais rechon­chu­da. Cu têm as mães de Bragança. E quem tem cu tem medo. Medo de mudar.

Vivemos dema­si­a­dos anos sob uma dita­du­ra que incen­ti­va­va a igno­rân­cia. Fizeram-​nos uma lava­gem ao cére­bro de tal manei­ra que con­ti­nu­a­mos a sen­tir o «orgu­lho­sa­men­te sós» do Salazar como a mani­fes­ta­ção de um sen­ti­men­to patrió­ti­co – o que essa expres­são real­men­te reve­la é estu­pi­dez e uma men­ta­li­da­de bota-​de-​elástico. Desejo que o meu país acom­pa­nhe a evo­lu­ção dos tem­pos, não o que­ro ver refu­gi­a­do numa redo­ma lin­guís­ti­ca à con­ta do orgu­lho. E digam-​me, qual orgu­lho? O orgu­lho de ser um país pres­ta­dor de ser­vi­ços em vez de ser um país pro­du­tor?

Há outro por­me­nor que esca­pa­rá a algu­mas pes­so­as: des­de a Revolução de Abril que dei­xá­mos de ser donos da Razão e, por con­se­guin­te, desculpem-​me os detrac­to­res do acor­do, é uma enor­me pre­ten­são da nos­sa par­te afir­mar que ocu­pa­mos o incon­tes­tá­vel tro­no da lín­gua por­tu­gue­sa quan­do não somos a úni­ca nação a escrevê-​la e falá-​la. Soberba Universalidade! Se pen­sás­se­mos sem­pre des­ta for­ma, ain­da esta­ría­mos todos a pedir dinhei­ro empres­ta­do em Latim. Este não mudou, real­men­te, e se calhar é por isso que se diz que é uma lín­gua mor­ta.

Portanto a ques­tão aqui é dei­xar de nos ver­mos como os reis da mora­li­da­de lin­guís­ti­ca e acei­tar que a nos­sa mara­vi­lho­sa lín­gua está viva e é para par­ti­lhar, não para se dei­xar segre­gar nes­te peque­no rec­tân­gu­lo.

Por últi­mo, essa his­tó­ria do fac­to que pas­sa a fato é a mai­or tre­ta de todas. Em pri­mei­ro lugar, por­que o «c» só cai quan­do é mudo – não é o nos­so caso, pois dize­mos facto e não fato. Ainda assim, quem ouve este pes­so­al falar em «ves­tir fac­tos» jul­ga que foi este acor­do orto­grá­fi­co a intro­du­zir na nos­sa lín­gua as pala­vras homó­ni­mas, ou seja, pala­vras que se escre­vem e pro­nun­ci­am da mes­ma manei­ra, mas têm sig­ni­fi­ca­dos dife­ren­tes.

Que vamos fazer então ao rio, que tan­to pode ser ver­bo como nome comum? Vamos drená-​lo? O rio atra­ves­sa a cida­de, eu rio com faci­li­da­de. Não cau­sa estra­nhe­za por­que já esta­mos habi­tu­a­dos, não é? E que vamos fazer nós ao ser, valha-​nos Deus? Vocês são gajos por­rei­ros, mas aque­le ali não é um indi­ví­duo são da cabe­ça. E a pobre rapa­ri­ga que se cha­mar São? Já devia ter muda­do de nome! E os nos­sos pobres san­ti­nhos? Isto é um escân­da­lo!

Marco Santos

­ Marco Santos

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