A astro­lo­gia é uma pseu­do­ci­ên­cia que defen­de que as posi­ções rela­ti­vas dos cor­pos celes­tes podem influ­en­ci­ar ou for­ne­cer infor­ma­ção sobre o com­por­ta­men­to huma­no e fun­ci­o­nar como um búzio que nos sus­sur­ra pos­si­bi­li­da­des futu­ras e faz escu­tar as ondas do oce­a­no cós­mi­co.

Não se sabe mui­to bem que «for­ça» exer­ce uma tão pro­fun­da influên­cia sobre os seres huma­nos, mas não deve ser a for­ça de gra­vi­da­de: o cor­po da enfer­mei­ra que me deu um tau tau no rabo (numa ida­de em que eu ain­da não tinha con­di­ções de lhe pedir para repe­tir) deve ter tido mais influên­cia gra­vi­ta­ci­o­nal sobre mim do que todos cor­pos celes­tes no Universo.

Não negue à partida uma fonte que não conhece

Cartas da Maya

Felizmente para todos os jor­na­lis­tas que se ator­men­tam com este tipo de dúvi­das exis­ten­ci­ais, a astró­lo­ga e espe­ci­a­lis­ta em car­tas tarô Maya, duran­te dez anos apre­sen­ta­do­ra do pro­gra­ma «Cartas da Maya, será uma das «docen­tes» que leci­o­na­rá Técnicas de Apresentação de Jornais Televisivos e Programas de Entretenimento na Universidade Autónoma de Lisboa.

Esta uni­da­de cur­ri­cu­lar faz par­te do cur­so de Pós-​Graduação em Jornalismo Televisivo e Multiplataforma que a uni­ver­si­da­de lan­çou em par­ce­ria com a Cofina. Aos três melho­res alu­nos serão ofe­re­ci­dos está­gi­os remu­ne­ra­dos de seis meses na CMTV e no Correio da Manhã.

Os jor­na­lis­tas do Correio da Manhã vão poder bene­fi­ci­ar da expe­ri­ên­cia na apre­sen­ta­ção do pro­gra­ma «As Cartas da Maya», até por­que na ausên­cia de fon­tes só res­ta ao pro­fis­si­o­nal da Cofina con­sul­tar os astros para saber o que é ou virá a ser notí­cia. Convém sabe­rem o sig­no do Sócrates, já ago­ra.

Não negue à par­ti­da uma ciên­cia que não conhe­ce, já tinha dito a sau­do­sa Alcina Lameiras num spot publi­ci­tá­rio há uns anos. Que pena a Universidade Autónoma não a ter con­vi­da­do para trans­mi­tir os seus vas­tos conhe­ci­men­tos sobre a natu­re­za da ciên­cia.

Que se passa entre Leão e Capricórnio?

Foto: João Relvas

Foto: João Relvas

Tendo em con­ta a infa­bi­li­da­de dos astros na pre­vi­são de acon­te­ci­men­tos futu­ros e na aná­li­se do com­por­ta­men­to huma­no, até a pró­pria Maya deve ter sen­ti­do neces­si­da­de de vol­tar a con­sul­tar as car­tas para saber o que real­men­te se pas­sou entre Passos Coelho e António Costa.

Costa é um Capricórnio e Passos um Leão. Os astros asseguram-​nos que esta rela­ção tem qua­se tudo para ser um suces­so.

Os sig­nos de Costa e Passos são «intri­gan­tes, atra­en­tes e ori­gi­nais quan­do for­mam uma dupla» e «reconhecem-​se como irmãos quan­do o assun­to é ven­cer. A cum­pli­ci­da­de pode nas­cer daí», expli­cam os astros.

Não admi­ra por­tan­to que os cro­nis­tas do Observador tenham fica­do tão bara­lha­dos com o rumo dos acon­te­ci­men­tos: inter­pre­ta­ram mui­to mal os sinais das estre­las e assustaram-​se como se lhes tives­se esca­pa­do uma pro­fe­cia de fim do mun­do e ago­ra fos­se dema­si­a­do tar­de.

Nenhum deles con­sul­tou os astros como devia. A rela­ção entre um capri­cor­ni­a­no e um leão pode ter poten­ci­al, mas a de um nati­vo de Capricórnio com um de Carneiro, como Jerónimo de Sousa, pode ser celes­ti­al em com­pa­ra­ção.

Há «uma atra­ção total entre estes dois sig­nos, ambos inte­res­sa­dos em ação, obje­ti­vos e movi­men­to. Capricórnio dese­ja «rea­li­zar, no pla­no con­cre­to, o que Carneiro intui. Isso pode «cau­sar ten­sões» mas tam­bém «dina­mi­zar a rela­ção», a qual pode­rá «aprofundar-​se e cres­cer».

Se os jor­na­lis­tas e comen­ta­do­res do Observador tives­sem con­sul­ta­do os astros como deve ser, sabe­ri­am logo que estes esta­vam a des­cre­ver, pre­to no bran­co, anos antes de acon­te­ce­rem, as reu­niões entre PS e PCP. Devem ter con­sul­ta­do uma car­ta astro­ló­gi­ca mui­to anti­ga, tal­vez ain­da da déca­da de 70 do sécu­lo pas­sa­do.

Foto: Alberto Frias

Foto: Alberto Frias

Os astros não pode­ri­am ter sido mais espe­cí­fi­cos no que res­pei­ta aos resul­ta­dos das reu­niões entre PS e Bloco. Costa, Capricórnio, e Catarina Martins, Virgem, «ambos sig­nos da Terra», são «irmãos que se enten­dem tão facil­men­te que for­mam uma dupla indes­tru­tí­vel em todos os seto­res da vida».

Os astros não mentem, tu é que não percebeste

Jornalistas e comen­ta­do­res pre­ci­sam urgen­te­men­te da Maya para per­ce­ber o que está a acon­te­cer na polí­ti­ca por­tu­gue­sa, por­que os desíg­ni­os da Astrologia são tão mis­te­ri­o­sos como as for­ças cós­mi­cas invi­sí­veis que atu­am sobre os seres huma­nos.

Por exem­plo, como expli­car as dife­ren­ças entre Catarina Martins e Paulo Portas, ambos do sig­no Virgem? Talvez exis­tam dois tipos de Virgens, uns mais tem­pe­ra­men­tais do que outros. Talvez tenha a ver com ascen­dên­ci­as e outras dia­tri­bes dos pla­ne­tas do Sistema Solar que não conhe­ce­mos. Se o estu­do do Universo fos­se fácil, a Universidade Autónoma de Lisboa não teria con­vi­da­do uma astró­lo­ga para lhe des­ven­dar os mis­té­ri­os.

Se os ana­lis­tas tives­sem sabi­do con­sul­tar os astros, teri­am per­ce­bi­do que Virgem, o «sig­no da male­a­bi­li­da­de», «irre­vo­gá­vel» na ver­são Portas, tem a capa­ci­da­de de dei­xar o pobre Leão «aca­bru­nha­do, melan­có­li­co», pois «nada do que ima­gi­na e quer fazer rece­be o entu­si­as­mo de Virgem.»

Graças aos céus, Virgens há muitos

Nem tudo é mau. De acor­do com os astros, «a von­ta­de de fica­rem jun­tos impli­ca nego­ci­a­ções entre ambos: o Leão Passos terá de apren­der a ser menos alti­vo e tei­mo­so, dei­xan­do o orgu­lho de lado, enquan­to o Virgem Portas pre­ci­sa­rá de con­fi­ar mais no outro, per­mi­tin­do que o leve pela mão em bus­ca de aven­tu­ras e vivên­ci­as mais sol­tas».

Não temam, cro­nis­tas e jor­na­lis­tas do Observador e que­jan­dos: a foto que se segue demons­tra que a rela­ção se encon­tra nes­ta fase mais lumi­no­sa. Não é por estes dois que o céu vos cai­rá sobre as cabe­ças.

Foto: Luís Barra

Foto: Luís Barra

O nati­vo de escor­pião Ferro Rodrigues só foi elei­to pre­si­den­te da Assembleia da República hoje, mas se a mal­ta dos jor­nais e tele­vi­sões tives­se con­sul­ta­do as pre­vi­sões para a sema­na de 18 a 24 de outu­bro da Maya teria logo sabi­do que o depu­ta­do soci­a­lis­ta iria ser elei­to. Escusavam de fazer quei­xi­nhas sobre que­bras de tra­di­ções e outras tau­ro­ma­qui­as par­la­men­ta­res.

A «con­jun­tu­ra não está faci­li­ta­da» para os escor­piões, escre­veu a astró­lo­ga. Encontrarão «alguns obs­tá­cu­los, mas a sema­na é de «con­cre­ti­za­ções e o sal­do final será posi­ti­vo». No pla­no mate­ri­al, pros­se­gue, «estão faci­li­ta­dos todos os rela­ci­o­na­men­tos ins­ti­tu­ci­o­nais ou com ins­tân­ci­as judi­ci­ais». Caramba, está aqui tudo dito sobre o des­ti­no polí­ti­co de Ferro Rodrigues.

Mas nem tudo são faci­li­da­des, cla­ro. Daí a Maya estar na Universidade como docen­te. Usar os astros como fon­te requer do jor­na­lis­ta boas qua­li­da­des de inter­pre­ta­ção, dado que as pre­vi­sões para o sagi­ta­ri­a­no Fernando Negrão, o can­di­da­to der­ro­ta­do, men­ci­o­nam uma sema­na com «evi­den­tes pro­vei­tos e uma valo­ri­za­ção pro­fis­si­o­nal», o que tal­vez tenha con­tri­buí­do para con­du­zir alguns comen­ta­do­res ao enga­no.

Se ao menos Negrão conhe­ces­se melhor o pró­prio sig­no, teria fica­do a saber que «o Sol é uma influên­cia aus­pi­ci­o­sa mas que pode levar a um exces­so de oti­mis­mo e leve­za nas ava­li­a­ções; ten­te não ter pres­sa na obten­ção de resul­ta­dos».

Karamba, isto não pode ser assim tão difícil

Os jor­na­lis­tas estão a pre­ci­sar urgen­te­men­te da astro­lo­gia, de for­ma a terem as bases pseu­do­ci­en­tí­fi­cas de que tan­to pre­ci­sam.

Talvez esta visão astro­ló­gi­ca da rea­li­da­de pos­sa incluir os pró­pri­os polí­ti­cos. Em vez de divi­dir depu­ta­dos por gru­pos par­la­men­ta­res, organizava-​se aque­la mal­ta por sig­nos: depu­ta­dos Gémeos sentavam-​se numa área, depu­ta­dos de Aquário nou­tra, por aí fora, todos uni­dos por tem­pe­ra­men­tos e rela­ções zodi­a­cais. Acabar-​se-​ia de vez com as con­ver­sas par­vas sobre «arcos da gover­na­ção» e dar-​se-​ia iní­cio à era dos Astros da Governação.

Mandem o Ferro embo­ra e ele­jam o pro­fes­sor Karamba para pre­si­den­te do Parlamento, com a bên­ção da Universidade Autónoma.

Foto: Manuel de Almeida

Foto: Manuel de Almeida

Qualquer jor­na­lis­ta que tives­se con­sul­ta­do as pre­vi­sões da Maya tam­bém sabe­ria, de ante­mão, que o nati­vo de Capricórnio Cavaco Silva «terá tra­ba­lho a dobrar mas con­se­gui­rá levar tudo de for­ma bas­tan­te ale­gre e des­con­traí­da», esta­do de espí­ri­to bem visí­vel nes­ta foto­gra­fia da Lusa cap­ta­da por Manuel de Almeida. Para Cavaco, rece­ber o Bloco de Esquerda é qua­se tão bom como andar na mon­ta­nha rus­sa.

Cavaco «sen­ti­rá uma gran­de ener­gia» esta sema­na, pre­vi­são que nes­ta fase já nos pare­ce óbvia. «Contudo», adver­te a astro­jor­na­lis­ta, «é con­ve­ni­en­te que não a apli­que ape­nas a um pla­no da sua vida. Estará mui­to pers­pi­caz e capaz de agir no momen­to cer­to». Todos já pude­mos tes­te­mu­nhar a pers­pi­cá­cia e a capa­ci­da­de de agir no momen­to cer­to do senhor pre­si­den­te, pelo que, mais uma vez, a astro­lo­gia wins e o Jornalismo loo­ses.

A con­sul­ta aos astró­lo­gos deve­ria ser uma par­te inte­gran­te da for­ma­ção de jor­na­lis­tas e cro­nis­tas, sobre­tu­do se qui­se­rem tra­ba­lhar no Observador: nada como a astro­lo­gia para nos ensi­nar que a rea­li­da­de do que acon­te­ceu, acon­te­ce ou vier a acon­te­cer é dema­si­a­do vaga para ser enten­di­da obje­ti­va­men­te e por isso deve estar sem­pre con­di­ci­o­na­da às inter­pre­ta­ções que nos dão mais jei­to.

Marco Santos

­ Marco Santos

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