Desde a déca­da de 1970 que a SMUP – Sociedade Musical União Paredense – faz par­te da minha exis­tên­cia. Apesar de, na altu­ra, viver com os meus pais em Linda-​a-​Velha, o fac­to de fre­quen­tar os Maristas de Carcavelos, quan­do esta esco­la esta­va sob a alça­da do Estado, levou-​me a ence­tar uma rela­ção espe­ci­al com a Parede.

Com a Parede e não, curi­o­sa­men­te, com Carcavelos. As memó­ri­as que tenho da Carcavelos des­se tem­po não são boas e a liga­ção de ago­ra é ain­da pior, o mais não seja por­que é lá que se situa a repar­ti­ção de Finanças aqui da zona.

Quando pen­so em Carcavelos e Maristas lembro-​me de dois tris­tes epi­só­di­os. Um em que eu estou a ser escol­ta­do para fora da esco­la por dois sol­da­dos da GNR de G3 em punho, um de cada lado, por­que os fachos do MIRN e da Juventude Centrista (alguns dos gru­nhos per­ten­ci­am a ambas orga­ni­za­ções, by the way) me que­ri­am lim­par o sebo.

O que fiz eu para irri­tar os hitler­zi­nhos de Carcavelos? Tive a tris­te ideia de ir para as aulas levan­do na mão o livro «A Mãe», de Gorki.

O outro caso teve a ver com as moi­tas do fun­do dos Maristas, eu em gran­des meles com uma rapa­ri­ga entre a vege­ta­ção e uma mora­do­ra do pré­dio ao lado, que só se pro­nun­ci­ou depois de ter fica­do a obser­var tudo da varan­da, à dis­tân­cia, a insultar-​nos de desa­ver­go­nha­dos e por­cos para bai­xo.

Mas dei­xem estar que tam­bém não gos­to mui­to de S. Pedro, situ­a­da no outro lado da Parede. Era aí que mora­va a Geni, uma loi­ra de olhos azuis de edu­ca­ção esta­li­nis­ta que andou a brin­car com as duas pes­so­as que na altu­ra se apai­xo­na­ram per­di­da­men­te por ela, eu e uma cole­ga de tur­ma que esta­va a des­co­brir a ter­nu­ra do les­bi­a­nis­mo.

Para nos picar, a Geni can­ta­va «Eu Tenho Dois Amores», do Marco Paulo, mas quan­do aqui­lo aze­dou foi a nos­sa vez de lhe ati­rar com os ver­sos de Chico Buarque: «Joga pedra na Geni! Ela é fei­ta pra apa­nhar! Ela é boa de cus­pir!»

Já a Parede era outra coi­sa. Tinha um ambi­en­te que dizia «não me cha­tei­es que eu estou nou­tra». E quem mais sim­bo­li­za­va esse esta­do de alma, para mim, era o ator Vítor Mendes, uma mon­ta­nha de homem que se ins­ta­la­va à jane­la a ver o movi­men­to, ali no Bairro da Caixa.

Eu era visi­ta de casa, pois tinha fei­to ami­za­de com o seu filho José, que à minha seme­lhan­ça apre­ci­a­va lite­ra­tu­ra e lia – ou ten­ta­va ler, pois éra­mos ado­les­cen­tes ain­da a acor­dar – pen­sa­do­res como Roland Barthes e Kierkegaard. Recordo que mon­tá­mos uma expo­si­ção no liceu, e os meus pri­mei­ros poe­mas foram colo­ca­dos na pare­de do cor­re­dor.

É des­se tem­po, tam­bém, o meu jor­nal de cul­tu­ra. Como eu já era do con­tra, o nome só podia ser uma inver­são. Se tinha exis­ti­do uma revis­ta Presença em Portugal, o folhe­to chamava-​se Ausência.

Aí, na Parede, vivi­am outros meus ami­gos, além do Zé Mendes, que tinham a mes­ma ati­tu­de «estou nou­tra», como o Paulo Seabra, o Rui Alves ou o Rui Casal Ribeiro. Com este, aliás, publi­quei uma edi­ção poé­ti­ca de autor, inti­tu­la­da «Na Pele da Papoila», com a minha par­te a anunciar-​se como «Solgema». Só por­que o Sol e uma gema de ovo se pare­cem, estão a ver?

A capa tinha o dese­nho de uma mulher nua fei­to pelo Seabra e os ver­sos eram tam­bém sobre mulhe­res nuas. Com umas sines­te­si­as que hoje me fazem rir, tipo «cla­ri­ne­tes de mel mor­no». Enfim, tínha­mos as hor­mo­nas aos sal­tos.

Na Parede para­va igual­men­te pes­so­al de outras par­tes da linha de Cascais, como o José Eduardo Rocha, que vinha de Paço de Arcos.

Chegámos mes­mo, com mais gen­te (lembro-​me do pin­tor Fernando Brito), a for­mar um gan­gue dado às letras: o RIP, não por ser­mos góti­cos mas por­que eram essas as ini­ci­ais de República Independente da Parede. O gru­po reu­nia aspi­ran­tes a poe­tas, artis­tas e músi­cos, e o cer­to é que mui­tos de nós aca­bá­mos por enve­re­dar por esses mean­dros.

O José Eduardo é hoje conhe­ci­do como com­po­si­tor, estan­do à fren­te do JER Ensemble. O Paulo é vide­as­ta e desig­ner grá­fi­co, ten­do a RTP pas­sa­do alguns dos seus docu­men­tá­ri­os. Um deles sobre jazz, fei­to com Rui Neves, o dire­tor artís­ti­co do fes­ti­val Jazz em Agosto.

O Zé fez car­rei­ra jor­na­lís­ti­ca na área da cul­tu­ra, até ser cor­ri­do do Expresso, como acon­te­ceu a outros (ao crí­ti­co de músi­ca Ricardo Saló, por exem­plo). O Rui Alves tornou-​se bate­ris­ta, ora inte­gran­do a ban­da de apoio de Vitorino, ora tocan­do jazz.

Olha que te constipas

Foi na Parede que conhe­ci a minha pri­mei­ra namo­ra­da, a Moema Silva, hoje uma espe­ci­a­lis­ta na escri­ta sobre tele­no­ve­las em revis­tas de tele­vi­são. Era a menos dada a inte­lec­tu­a­li­ces do gru­po, mas, na altu­ra, não resis­ti àque­la sen­su­al pro­nún­cia bra­si­lei­ra.

Muitos anos mais tar­de, che­gá­mos ambos a per­ten­cer à mes­ma reda­ção. Um dia dei com ela a mos­trar uma foto­gra­fia aos nos­sos cama­ra­das de escri­ta. Na ima­gem está­va­mos nós os dois, abra­ça­dos, com cara de miú­dos. Eu ves­tia um sobre­tu­do aos qua­dra­dos, em tons de cas­ta­nho, e usa­va um boné do mes­mo tipo. O gos­to dos Seventies era hor­rí­vel.

A risa­da foi geral. «O quê, vocês anda­ram jun­tos?» «Pois é», con­tou ela, «e o Rui foi o úni­co homem que ten­tou matar-​se por minha cau­sa». Mentira: o que acon­te­ceu foi que, no dia em que ela me tro­cou por outro tipo, fiquei tão pas­sa­do que fui para a praia das Avencas e me meti, ves­ti­do, den­tro de água.

O pior é que está­va­mos em ple­no Inverno e à con­ta dis­so apa­nhei uma pneu­mo­nia. Bem que ela, lá de cima, me gri­ta­va «ó Rui, olha que te cons­ti­pas».

A minha Parede é fei­ta des­tes flashes. Eu, com o Zé Mendes, a visi­tar o com­po­si­tor Fernando Lopes Graça. Eu à con­ver­sa com José Mattoso e Vasco Graça Moura, no apar­ta­men­to do pri­mei­ro. O crí­ti­co de músi­ca clás­si­ca e cine­ma Augusto Manuel Seabra a dizer-​me que Ornette Coleman é o pior vio­li­nis­ta que já ouviu. O Casal Ribeiro a oferecer-​me um exem­plar da «Teoria Estética» do Adorno, aca­ba­di­nho de fanar.

Uma dis­cus­são sobre a poe­sia expe­ri­men­tal de Ana Hatherly na espla­na­da da SMUP. Uma audi­ção tri­pa­da do «Escalator Over the Hill», de Carla Bley, no sótão de outro osga (o nome cari­nho­so que se dá aos pare­den­ses) de quem per­di o ras­to.

Foi tam­bém na vila que, fren­te à Casa das Bruxas, me depa­rei com a Paula Oliveira. Quando a vi pela pri­mei­ra vez algo se escan­ga­lhou na minha relo­jo­a­ria inte­ri­or e os estra­gos fica­ram até hoje. Passaram 31 anos e con­ti­nuo com ela. Na Parede, cla­ro, que devi­do a isso ganhou três novos habi­tan­tes, o Bruno, o Lourenço e a Madalena.

Estava a pas­se­ar com o Zé e ela cruzou-​se con­nos­co. Tinha o cabe­lo com­pri­do com ris­co ao meio, à hip­pie, e usa­va um pon­cho inca. Fiquei vidra­do. Disse que pre­ci­sa­va de aju­da para con­tar semen­tes para um ensaio no Instituto Superior de Agronomia, onde tra­ba­lha­va, e logo me ofe­re­ci como volun­tá­rio.

Era uma tare­fa cha­ta para bur­ro, mas eu que­ria estar com ela. A coi­sa foi evo­luin­do e, após um jan­tar bem rega­do na Casa do Alentejo, come­çá­mos aos bei­jos em ple­no con­cer­to do José Mário Branco (ou foi do Sérgio Godinho?) no Coliseu dos Recreios. A músi­ca pas­sou para segun­do pla­no numa das raras vezes da minha vida.

115 anos e bifes com cogumelos

Paulo Chagas

Paulo Chagas foto­gra­fa­do por Carlos Paes.

Os meus vai­véns pela Parede pas­sa­vam sem­pre pela SMUP, a mes­ma SMUP que, em 2014, soma 115 anos de exis­tên­cia. Inúmeras vezes jan­tei com o pes­so­al da RIP no seu res­tau­ran­te. Uma des­sas oca­siões ficou para os anais: o Zé teve a tris­te ideia de reben­tar com um dos seus pri­mei­ros orde­na­dos como jor­na­lis­ta numa fes­ta de ani­ver­sá­rio que teve uns 50 con­vi­vas.

Leu-​se poe­sia e o José Eduardo tocou uma peça de sua auto­ria numa flau­ta de bisel. Acreditem que nem lon­ge este­ve da qua­li­da­de das suas ópe­ras pos­te­ri­o­res com ins­tru­men­tos de brin­que­do. Alguém – não me lem­bro do nome – can­tou à gui­tar­ra uma bala­da que tinha como refrão «estou bem, estou bem». Estávamos todos…

Faleceu, com um can­cro, o Sr. Carlos, que era quem nos tra­zia para a mesa os bifes com cogu­me­los e o baca­lhau assa­do na bra­sa, sem­pre com um sor­ri­so.

Nesse tem­po, as ati­vi­da­des da SMUP não nos inte­res­sa­vam par­ti­cu­lar­men­te. Havia uma ban­da filar­mó­ni­ca e fazia-​se tea­tro de revis­ta, mas a nos­sa «cena» esta­va mui­to para lá dis­so.

Éramos, no entan­to, sen­sí­veis ao his­to­ri­al da ins­ti­tui­ção. Nascida no deal­bar do sécu­lo XIX, per­se­guiu os ide­ais repu­bli­ca­nos e liber­tá­ri­os e tinha sido um pilar de resis­tên­cia ao fas­cis­mo, acre­di­tan­do que se pode ele­var e liber­tar a huma­ni­da­de por via da edu­ca­ção e da cul­tu­ra.

A SMUP este­ve, depois, alguns anos pra­ti­ca­men­te para­da, mas de súbi­to tudo mudou. Fizeram-​se obras de recu­pe­ra­ção no edi­fí­cio situ­a­do mes­mo ao lado da esta­ção fer­ro­viá­ria e uma dire­ção foi elei­ta com san­gue fres­co, destacando-​se pes­so­as da edi­to­ra Planeta Tangerina como Madalena Matoso, filha do his­to­ri­a­dor, e jovens da asso­ci­a­ção Cultura no Muro como Sara Ruas (neta do ambi­en­ta­lis­ta Barrilaro Ruas), Miguel “Esteves sem Metafísica” e o meu filho mais velho, o Bruno.

O tea­tro con­ti­nua, a filar­mó­ni­ca tam­bém, mas coi­sas dife­ren­tes pas­sa­ram lá a ter lugar. Uma delas foi o iní­cio, em Junho e Julho pas­sa­dos, da Combat Jazz Series, ciclo de con­cer­tos de jazz pro­mo­vi­do pela Clean Feed, edi­to­ra dis­co­grá­fi­ca – uma das cin­co mais impor­tan­tes do mun­do, segun­do a crí­ti­ca inter­na­ci­o­nal espe­ci­a­li­za­da – ago­ra radi­ca­da na Parede.

Outra foi, ain­da há uns dias, a Feira Morta, uma fei­ra mon­ta­da por edi­to­ras inde­pen­den­tes de arte, ban­da dese­nha­da, poe­sia e músi­ca que seguem os pre­cei­tos anar­cas do DIY (Do It Yourself). Na SMUP esti­ve­ram, por exem­plo, a Chili Com Carne, a Associação Terapêutica do Ruído e a Cafetra.

A 26 e 27 de Setembro pró­xi­mos outro pas­so vai ser dado nes­ta fase de reno­va­ção da SMUP e mais uma vez com o jazz, ago­ra inci­din­do sobre a rica pro­du­ção naci­o­nal. É nes­ses dias que se rea­li­za o 1º Festival de Jazz e Música Improvisada da Parede, uma ini­ci­a­ti­va da Cultura no Muro com pro­gra­ma­ção minha.

Estruturei os con­cer­tos em tor­no de três jovens músi­cos que estão liga­dos à Parede, seja por­que aqui estu­da­ram no secun­dá­rio ou por­que fre­quen­ta­vam a zona para tra­ba­lhar ou para esta­rem com os ami­gos (nas Avencas por exem­plo, à vol­ta de uma foguei­ra que se man­ti­nha a arder até de madru­ga­da), ape­sar de mora­rem em S. João ou no Monte Estoril: Pedro Sousa, Pedro Lopes e Gabriel Ferrandini (a solo nes­te vídeo).

O pri­mei­ro regres­sou há pou­co de uma esta­dia em Nova Iorque que lhe mudou os fusí­veis da cabe­ça, Lopes está radi­ca­do em Berlim, onde se encon­tra a desen­vol­ver a tec­no­lo­gia do futu­ro para o DJing (aguar­dem que vão ver), e Ferrandini mudou-​se para Lisboa, na capi­tal resi­din­do quan­do não anda em digres­são pelo mun­do e pelo País.

É rapa­zi­a­da que eu vi cres­cer, sobre­tu­do o Pedro Sousa, tam­bém conhe­ci­do como Pota. Vinham cá a casa ouvir dis­cos quan­do eu não esta­va, pois davam-​se com o Bruno. Só mais tar­de é que per­ce­be­ram que eu, o pai do Biqueira (alcu­nha que sur­giu por usar botas) era o Rui Eduardo Paes cujos tex­tos e crí­ti­cas eles liam avi­da­men­te.

Quando isso acon­te­ceu, e quan­do ini­ci­a­ram as suas car­rei­ras musi­cais, já não era o Biqueira que saía com eles para ouvir músi­ca ao vivo, mas eu. Íamos aos con­cer­tos e bebía­mos umas cer­ve­jas enquan­to o Bruno fica­va a dor­mir.

O novo pólo

Gabriel Ferrandini fotografado por Vera Marmelo

Sousa e Lopes vão tocar a 26 enquan­to Eitr, o duo de elec­tro­a­cús­ti­ca impro­vi­sa­da que lan­çou o acla­ma­do álbum «Trees Have Cancer Too». Ferrandini par­ti­ci­pa­rá, a 27, numa dupla com David Maranha situá­vel entre o psi­ca­de­lis­mo e o noi­se. Também eles têm dis­co publi­ca­do: «A Fonte de Aretusa».

Outros dois con­cer­tos terão lugar. No pri­mei­ro dia, o do estre­an­te trio de Rodrigo Amado, Miguel Mira e João Lencastre, com o seu jazz robus­to e total­men­te impro­vi­sa­do na linha do free bop, assim desig­na­do por­que atra­ves­sa os âmbi­tos do hard bop e do free jazz. A 27, sobem ao pal­co três impro­vi­sa­do­res da região Oeste, Paulo Chagas, Fernando Simões e Pedro Santo, este últi­mo tam­bém um anti­go mora­dor da linha.

O fes­ti­val inclui ain­da dois DJ sets, um com Pedro Costa, da Clean Feed, a apre­sen­tar o seu catá­lo­go de mais de 300 títu­los (com ele a dizer que, às tan­tas, vai mas é pas­sar rock) e o outro, a fechar o even­to na noi­te seguin­te, com uma sele­ção minha da músi­ca mais inten­sa que tem sido toca­da com base no jazz ou nas ime­di­a­ções des­te. Escolhi o hete­ró­ni­mo DJ Noise por algum moti­vo…

Chagas vai tam­bém con­du­zir um workshop duran­te todo o dia 27 e eu vou con­vi­dar as pes­so­as a refle­ti­rem sobre o que é a impro­vi­sa­ção logo a abrir, no final da tar­de de 26.

Nas vés­pe­ras de se rea­li­zar a pri­mei­ra edi­ção do Festival de Jazz e Música Improvisada da Parede tenho sen­ti­do que só pre­sen­te­men­te, qua­se qua­tro déca­das depois, é que está a nas­cer a tão fan­ta­si­a­da República Independente da Parede da minha juven­tu­de.

Uma Parede assu­mi­da e con­vic­ta­men­te «nou­tra», fiel ao pas­sa­do mas apos­ta­da em cres­cer, sem que esse cres­ci­men­to envol­va, como habi­tu­al­men­te, a cons­tru­ção civil. Com um jazz incon­for­mis­ta, inter­ven­ti­vo, pro­ble­ma­ti­za­dor, o con­trá­rio do jazz bur­guês que vai sen­do ouvi­do no con­ce­lho de Cascais.

Como ouvi comen­tar na SMUP no pas­sa­do fim-​de-​semana: «Olha que a Parede é que é o novo pólo, não o Intendente hips­ter de que andam a falar. Aqui é que as coi­sas vão come­çar a acon­te­cer.» Finalmente, digo eu…

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt.