Quentin Tarantino está na fase Victor Frankenstein: pega num cadá­ver — o géne­ro wes­tern, mor­to des­de que Eastwood rea­li­zou «Unforgiven» em 1992 — e reanima-​o.

Já o tinha fei­to com «Django Unchained», repe­tiu ago­ra o pro­ces­so com «The Hateful Eight». O Frankenstein ori­gi­nal usa­va o poder da ele­tri­ci­da­de para rea­ni­mar cadá­ve­res, Tarantino usa o poder da vio­lên­cia, das pala­vras, do san­gue, do vómi­to ou da com­bi­na­ção de ambos. No labo­ra­tó­rio de cine­as­ta malu­co que tem mon­ta­do na cabe­ça, Tarantino con­ti­nua a fazer o que lhe dá na gana.

O oita­vo fil­me de Tarantino glo­ri­fi­ca pro­mes­sas não con­cre­ti­za­das e brin­ca com as nos­sas expec­ta­ti­vas — clás­si­co Tarantino, por­tan­to.

«The Hateful Eight» come­ça com lon­gos e belís­si­mos pla­nos das vas­ti­dões gela­das e ago­ra­fó­bi­cas de Wyoming — a cine­ma­to­gra­fia de Robert Richardson e a músi­ca do «velho­te» Ennio Morricone con­tri­bu­em mui­to para este memo­rá­vel iní­cio —, e aca­ba por enfiar-​nos na caba­na de uma esta­ção de dili­gên­ci­as, um espa­ço tão claus­tro­fó­bi­co como o escon­de­ri­jo do gang de «Reservoir Dogs».

Tim Roth, Kurt Russell e Jennifer Jason Leigh

Tim Roth, Kurt Russell e Jennifer Jason Leigh

Os per­so­na­gens reúnem-​se ali por­que esca­pa­ram à tem­pes­ta­de e ao frio, mas a pior tem­pes­ta­de está a formar-​se den­tro da caba­na.

Não há melhor Tarantino do que aque­le que con­ce­be situ­a­ções saben­do que pela natu­re­za das per­so­na­gens e suas cir­cuns­tân­ci­as nós já esta­mos à espe­ra que algo de ter­rí­vel ou vio­len­to acon­te­ça. Uma das cenas de «The Hateful Eight» — um «flash­back» — é Tarantino a ser Tarantino no melhor sen­ti­do pos­sí­vel, pois que eu sai­ba só ele é capaz de aumen­tar a ten­são a níveis estra­tos­fé­ri­cos usan­do ape­nas con­ver­sa de cir­cuns­tân­cia.

A cer­to momen­to da his­tó­ria, quan­do ain­da não temos a cer­te­za do que vai sair dali, forma-​se um mis­té­rio dig­no de uma Agatha Christie. Ter per­so­na­gens «odi­o­sas» a deci­frar um cri­me — con­fi­na­das a um espa­ço exí­guo e arma­das até aos den­tes — pare­ce ser uma bela situ­a­ção para Tarantino explo­rar, mas rapi­da­men­te o mis­té­rio é des­ven­da­do e dei­xa de ter a impor­tân­cia que jul­gá­va­mos.

O que tem impor­tân­cia e o que tor­na este fil­me dife­ren­te de outros dele não são as revi­ra­vol­tas e a for­ma não-​linear como a his­tó­ria é con­ta­da, mas a reso­lu­ção das ten­sões entre dois per­so­na­gens ide­o­lo­gi­ca­men­te anta­gó­ni­cos e que pen­sá­va­mos esta­rem des­ti­na­dos a matar-​se um ao outro. O con­fli­to é sana­do em poças de san­gue, como seria de espe­rar, mas a ali­an­ça for­ja­da entre um negro e um xeri­fe bran­co é genui­na­men­te dura­dou­ra.

Isto não é ino­cen­te. Este é o fil­me mais sen­ti­men­tal e ide­a­lis­ta de Tarantino. E tam­bém o mais influ­en­ci­a­do por acon­te­ci­men­tos do mun­do real.

Samuel L. Jackson e Walton Goggins

Samuel L. Jackson e Walton Goggins

Provavelmente acha­rão estra­nho usar a pala­vra «sen­ti­men­tal» para defi­nir o esta­do de espí­ri­to de alguém que colo­ca per­so­na­gens a vomi­tar san­gue de for­ma tão vis­ce­ral­men­te gros­sei­ra que lem­bra a rábu­la do senhor Creosote, o cli­en­te rico e ana­fa­do que se vomi­ta todo no res­tau­ran­te de luxo do fil­me «O Sentido da Vida», dos Monty Python — têm razão, mas há mais.

Sendo a caba­na uma óbvia metá­fo­ra dos EUA e das ten­sões ide­o­ló­gi­cas e raci­ais que cul­mi­na­ram na guer­ra civil entre Norte e Sul e cujas reper­cus­sões ain­da afe­tam o país, o fil­me ter­mi­na com uma nota de espe­ran­ça e um con­vi­te à recon­ci­li­a­ção pou­co habi­tu­al.

Não pos­so dizer mais por cau­sa dos spoi­lers, mas é óbvio que as recen­tes ten­sões raci­ais moti­va­das pela bru­ta­li­da­de da polí­cia nos Estados Unidos influ­en­ci­a­ram este des­fe­cho e muda­ram a cabe­ça de Tarantino. Talvez a inten­ção ini­ci­al fos­se mes­mo a de mis­tu­rar wes­tern e mis­té­rio à Agatha Christie.

Tarantino numa manifestação em Nova Iorque contra a brutalidade policial.

Tarantino numa mani­fes­ta­ção em Nova Iorque con­tra a bru­ta­li­da­de poli­ci­al, o que levou os sin­di­ca­tos da polí­cia a boi­co­tar «The Hateful Eight».

Eu sou um fã de Tarantino, mas ape­sar des­ta «dife­ren­ça» em rela­ção a outros fil­mes dele, este não é um dos meus pre­fe­ri­dos. Porquê? Quatro razões:

1

Não gos­to do uso da câma­ra len­ta em algu­mas das cenas de ação, achei visu­al­men­te incon­sis­ten­te com o res­to do fil­me e detes­tei o arras­ta­men­to do som na fala dos ato­res — Tarantino é o úni­co que con­se­gue ser Sam Peckinpah, mas nem sem­pre resul­ta.

2

Se Tarantino pre­ci­sa mes­mo de fazer explo­dir a cabe­ça de alguém, não o faça como se fos­se a tes­ta de um zom­bie — a Walking Dead o que é de Walking Dead.

3

E se temos mes­mo de ter vilões abso­lu­tos para os dis­tin­guir dos odi­o­sos que ado­ra­mos, não os recrie como uma ver­são em esti­lo wes­tern do ban­do de assas­si­nos mal­fei­to­res de «Kill Bill» — aca­ba por se tor­nar repe­ti­ti­vo e pre­vi­sí­vel, como o sor­ri­so de Michael Madsen.

4

Tarantino é exce­len­te para os ato­res — o melhor Samuel L. Jackson é o que usa os seus monó­lo­gos —, mas ain­da estou para per­ce­ber o que fez Jennifer Jason Leigh de tão espe­ci­al para mere­cer a nome­a­ção para o Óscar — está mui­to bem, cla­ro, mas nem ela nem o per­so­na­gem são memo­rá­veis. Quando não é um saco de pan­ca­da, tem o ros­to tão cober­to de san­gue que lem­bra em dema­sia a Carrie rai­vo­sa de Sissy Spacek do fil­me de Brian de Palma.

Mas o menos con­se­gui­do dele con­ti­nua a ser pre­fe­rí­vel ao melhor de mui­tos outros rea­li­za­do­res, pelo que «The Hateful Eight» é um fil­me que todos os fãs de Tarantino não vão que­rer per­der.

Marco Santos

­Marco Santos

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