Este post é um guia prá­ti­co para conhe­cer a riquís­si­ma rea­li­da­de do sto­ner /​ desert rock, com a apre­sen­ta­ção de alguns dos seus mais inte­res­san­tes gru­pos. Façam o favor de seguir a minha voz, que está aqui mui­to fumo…

Aqueles entre vocês (vá lá, eu sei que estão aí) que gos­tam de fumar umas bro­cas e, vol­ta e meia, metem umas pas­ti­lhas, comem uns cogu­me­los ou lam­bem uns pape­li­tos colo­ri­dos, tal­vez não sai­bam que há uma fren­te musi­cal nas­ci­da, pre­ci­sa­men­te, des­ses con­su­mos (intro­jec­ções, chama-​lhes pom­po­sa­men­te a Antropologia) e dos modos de estar na vida que lhes estão asso­ci­a­dos.

Se alguns até pode­rão abster-​se de usos e abu­sos psi­co­tró­pi­cos, a músi­ca que tocam é, pelo menos, uma tea­tra­li­za­ção dos «esta­dos alte­ra­dos de cons­ci­ên­cia» sobre os quais escre­ve­ram Charles Baudelaire, Aldous Huxley, Ernst Junger, Timothy Leary e William S. Burroughs.

Os outros mer­gu­lham a fun­do na estu­pe­fa­ci­ên­cia e de lá vão tiran­do umas pepi­tas bem mais bri­lhan­tes do que os pedre­gu­lhos que con­se­guem os nor­mais jana­dos.

Pois, esta é a vos­sa músi­ca. E é a minha tam­bém, pois ado­ro estes sons. Talvez por­que, como já me dis­se­ram vezes demais para que me per­mi­ta duvi­dar, tenho a mio­lei­ra fri­ta… Nunca expe­ri­men­tei LSD e não faço ques­tão dis­so (sou um manía­co do con­tro­lo), mas já pos­suo uma ideia musi­cal de como deve ser a via­gem.

O movi­men­to em ques­tão tem sido refe­ri­do com vári­os nomes, mas os mais cor­ren­tes são sto­ner rock e desert rock, no pri­mei­ro caso por­que o sub­gé­ne­ro do rock em ques­tão é her­dei­ro do psi­ca­de­lis­mo da déca­da de 1960 e no segun­do por­que o seu ber­ço está no Sul da Califórnia e, mais exac­ta­men­te, no deser­to cali­for­ni­a­no – o tal que tan­to influiu nas cabe­ças de Jim Morrison e Jerry Garcia.

A vari­e­da­de das desig­na­ções (cor­rem tam­bém os rótu­los acid rock, spa­ce rock, jam rock, fre­ak rock e por aí fora) dever-​se-​á ao fac­to de esta cena não ser mono­lí­ti­ca: tan­to as suas refe­rên­ci­as como os ingre­di­en­tes uti­li­za­dos são múl­ti­plos.

Estão eles nos blu­es elé­tri­cos, na tra­di­ção do hard rock, no metal (sobre­tu­do as ver­ten­tes doom e death metal), no punk, via hard­co­re (como ago­ra é refe­ri­do), e em alguns casos até nas des­bun­das do krau­trock e em cer­tas bizar­ri­ces do rock pro­gres­si­vo.

A abor­da­gem é assu­mi­da­men­te retro, e no entan­to nun­ca o psi­ca­de­lis­mo foi tão lon­ge na sua épo­ca como ago­ra. Normal é, por­tan­to, que reco­nhe­ça­mos nos temas que vão sain­do da for­ja sto­ner coi­sas que nos reme­tem para Hawkwind, Jefferson Airplane, Jimi Hendrix, Cream, Blue Cheer, Grand Funk Railroad, Grateful Dead, Stooges, Black Sabbath, Pink Floyd.

Só que já não é só isso, mas outra coi­sa… Tão váli­da por si mes­ma que até gru­pos que influ­en­ci­a­ram a ten­dên­cia, como Melvins e Butthole Surfers, aca­ba­ram por tam­bém serem de algu­ma manei­ra influ­en­ci­a­dos. Esses e outros que não cabem no espa­ço sto­ner rock, mas têm gran­des equi­va­lên­ci­as, como acon­te­ce com os japo­ne­ses Acid Mothers Temple e Ghost.

Se as mocas e as boas e más trips come­ça­ram por se fazer sen­tir, nos anos 1990, sob o sol da Califórnia, o cer­to é que esta ten­dên­cia gan­za­da do rock depres­sa se inter­na­ci­o­na­li­zou, pelo que encon­tra­mos a «filo­so­fia do deser­to» em para­gens tão dis­tan­tes quan­to o Reino Unido, a Suécia, a Austrália e… Portugal.

01. Black Bombaim

Foto: Joana Castelo

Foto: Joana Castelo

Exato, Portugal. É por­tu­gue­sa aque­la que con­si­de­ro, sem exa­ge­ros patrió­ti­cos (não pade­ço de pato­lo­gi­as naci­o­na­lis­tas, feliz­men­te, e a ver­da­de é que ando mui­to zan­ga­do com o meu país), uma das melho­res ban­das de sto­ner rock do mun­do.

Dá pelo nome de Black Bombaim e os três putos que a inte­gram, o Ricardo, o Tojo e o Senra, vivem em Barcelos, a cida­de dos galos.

Já os vi em con­cer­to, que é como se tes­ta o que vem nos dis­cos, e o meu quei­xo caiu. As métri­cas e os “riffs” são tão cer­ra­dos que, se algo falha, cai tudo por ter­ra, mas o cer­to que nun­ca falha. Por cima, a gui­tar­ra esvo­a­ça num des­va­rio que nos leva até às nuvens de Saturno. Lindo.

Confirmem o que vos digo no clip que os Black Bombaim fize­ram para o tema «Complication».

02. Black Mountain

Black Mountain

Banda de Vancouver, no Canadá, com par­ti­cu­lar gos­to por atu­ar em espa­ços ao ar livre, na natu­re­za. O que para eles sig­ni­fi­ca tocar em flo­res­tas, que não no deser­to. É a pon­ta do ice­ber­gue Black Mountain Army, um nume­ro­so cole­ti­vo não mui­to dis­se­me­lhan­te das velhas comu­nas hip­pi­es.

Com uma dose q. b. de iro­nia, os mem­bros do gru­po, Stephen McBean, Amber Webber, Matt Camirand, Jeremy Schmidt e Joshua Wells, tra­ba­lham em orga­nis­mos de apoio a toxi­co­de­pen­den­tes, sem-​abrigo e doen­tes men­tais. Malta fixe, como se veri­fi­ca.

McBean diri­ge outro gru­po, Pink Mountaintops, de cariz mais expe­ri­men­tal.

03. Black Sun Ensemble

Black Sun Ensemble

Formação assu­mi­da­men­te psi­ca­dé­li­ca pro­ve­ni­en­te de Tucson, no Arizona, ago­ra a viver uma segun­da vida.

Nasceu na déca­da de 1980, por ini­ci­a­ti­va de Jesus Acedo. Após uma pau­sa devi­do a um inter­na­men­to psi­quiá­tri­co do líder e a com­pli­ca­ções com a jus­ti­ça em con­sequên­cia, pelo que se con­ta, do rou­bo de uma pre­ci­o­sa car­ta de tarot (um mis­te­ri­o­so epi­só­dio que levou Paul McCartney, des­de sem­pre um fã da esté­ti­ca «Lucy in the sky with dia­monds», a pagar as fian­ças para os liber­tar da cadeia), o pro­jec­to renas­ceu com novos músi­cos e está para durar.

04. Brian Jonestown Massacre

Brian Jonestown Massacre

Com um nome que pres­ta tri­bu­to a Brian Jones, o len­dá­rio fun­da­dor dos Rolling Stones, e recor­da o sui­cí­dio dos par­ti­dá­ri­os da sei­ta People’s Temple em Jonestown, na Guiana, aqui está um gru­po que deno­ta o eclec­ti­cis­mo do sto­ner rock, indo da folk gan­za­da até ao expe­ri­men­ta­lis­mo puro.

O úni­co músi­co cons­tan­te des­te gru­po nas­ci­do em San Francisco tem sido Anton Newcombe, mas Matt Hollywood foi outro dos prin­ci­pais auto­res das can­ções.

Os anos 1960 são a fon­te de ins­pi­ra­ção, com pre­fe­rên­cia, obvi­a­men­te, pelos Pedras Rolantes. Influências dos bra­si­lei­ros Mutantes são igual­men­te óbvi­as, bem como de Charles Manson, o men­tor de outro tene­bro­so cul­to.

05. Clutch

Clutch

Originários de Germantown, no Maryland, sur­gi­ram com a últi­ma déca­da do sécu­lo XX, por mão de Dan Maines e Jean Paul Gaster. Pelo cami­nho apro­fun­da­ram a sono­ri­da­de revi­va­lis­ta com a adi­ção de um orga­nis­ta, Mick Schauer.

Objecto de cul­to, a ban­da deve o seu esti­lo pró­prio à inte­gra­ção de ele­men­tos rít­mi­cos funk e a uma cada vez mai­or adop­ção do for­ma­to dos blu­es, num cons­tan­te pro­pó­si­to de regres­sar às raí­zes.

Com letras de cunho sur­re­a­lis­ta, o que não sur­pre­en­de, os seus con­cer­tos resul­tam fre­quen­te­men­te em ses­sões de jam­ming em que os temas são total­men­te des­fi­gu­ra­dos pela impro­vi­sa­ção. Quando essas free jams dis­pen­sam os vocais, os Clutch transformam-​se no The Bakerton Group.

06. Comets on Fire

Comets on Fire

O fac­to de Ben Chasny, dos Six Organs of Admittance, per­ten­cer a esta ban­da de Santa Cruz, na Califórnia, levou-​a a ser ouvi­da por outro tipo de públi­co, mas este é um pro­jec­to que só pode­ria ter saí­do da men­te de Ethan Miller, com o apoio de Ben Flashman.

Musicalmente, está entre a psi­ca­de­lia, o rock clás­si­co e o noi­se, com ten­dên­cia tam­bém para as per­for­man­ces se tor­na­rem em ses­sões fre­ak out.

Os ver­sos das can­ções são habi­tu­al­men­te inin­te­li­gí­veis, não só por­que Miller os gri­ta como um pos­ses­so, mas tam­bém por­que se esque­ce das pala­vras e mas­ca­ra o pro­ble­ma, algu­mas vezes recor­ren­do ao velhi­nho Echoplex.

A últi­ma digres­são foi em 2008, ten­do des­te então os Comets on Fire esta­do para­dos. Esperemos que vol­tem à estra­da e ao estú­dio, pois está aqui um dos mais incrí­veis exem­plos do rock pedra­do.

07. Corrosion of Conformity

Corrosion of Conformity

Vem de Raleigh, na Carolina do Norte, este gru­po com for­tes cono­ta­ções heavy metal que, estra­nha­men­te, come­çou pelo punk no iní­cio da déca­da de 1980. Uma para­gem em 2006 fez crer que tinha fica­do pelo cami­nho, mas regres­sou e foram vol­tan­do os mem­bros que, nos anos ante­ri­o­res, se tinham afas­ta­do do pro­jec­to.

No pró­xi­mo mês de Fevereiro vai sair álbum novo, mais uma vez em vol­ta do núcleo for­ma­do por Mike Dean, Woody Weatherman e Reed Mullin.

E por­que é que uma ban­da de metal cons­ta nas filei­ras do sto­ner rock? Porque adop­tou uma sono­ri­da­de sulis­ta, ou seja, car­re­ga­di­nha de blu­es. E por­que, cla­ro, tudo indi­ca que há por ali mui­ta «subs­tân­cia»…

08. Dead Meadow

Dead Meadow

São de Washington D.C., ape­sar de hoje habi­ta­rem em Los Angeles, e sur­gi­ram em 1998, com o pro­ta­go­nis­mo de Jason Simon. A matéria-​prima musi­cal foram-​na bus­car aos 60s e 70s e as temá­ti­cas a Tolkien e a Lovecraft.

Se fazem fre­quen­te uso dos pedais de dis­tor­ção, tam­bém se nota­bi­li­za­ram pelas suas bala­das acús­ti­cas. Denotam mui­tas vezes a influên­cia das músi­cas do Oriente, e em par­ti­cu­lar do moda­lis­mo indi­a­no. Gostam de gra­var em quin­tas rurais e de uti­li­zar pro­jec­ções visu­ais psi­ca­dé­li­cas nos con­cer­tos.

Um dos fun­da­do­res da ban­da, Mark Laughlin, regres­sou em 2010 depois de um aban­do­no de anos para ten­tar uma vida «nor­mal» como advo­ga­do. Não foi bem suce­di­do, o que para a músi­ca e para o lifesty­le fora-​da-​lei só podia ser uma boa notí­cia.

09. Dozer

Dozer

Do deser­to para a neve: os Dozer são de Borlange, na Suécia, e arran­ca­ram em 1995 logo da melhor manei­ra: com um álbum split em par­ce­ria com os Unida, ban­da entre­tan­to extin­ta que esta­va bem enrai­za­da na rea­li­da­de sto­ner rock. O que quer dizer que as por­tas da cena ame­ri­ca­na lhes foram aber­tas logo de iní­cio.

Com Fredrik Nordin à fren­te, tocam rock ver­na­cu­lar com um bater de asas (de mor­ce­go) à Black Sabbath, pesa­do como uma pedra de anfe­ta­mi­nas, mas meló­di­co.

E no entan­to, ape­sar dis­so, porém, temos aqui de novo uns rapa­zes cons­ci­en­ci­o­sos. Nordin anun­ci­ou em 2009 aos seus fãs que não pode­ria fazer a digres­são já agen­da­da para esse ano por­que… tinha vol­ta­do para a esco­la. «Desculpem lá, mas esta é a últi­ma opor­tu­ni­da­de que me sur­giu de ter uma edu­ca­ção», escre­veu no web­si­te do gru­po.

Em con­sequên­cia, o pro­je­to tem anda­do a meio gás. Vamos lá a ver se não ficou pelo cami­nho…

10. Electric Wizard

Electric Wizard

Estes são de Dorset, na Inglaterra, e inclinam-​se par­ti­cu­lar­men­te para o doom e o slud­ge metal, mas enten­di­dos numa pers­pec­ti­va rode­a­da de cac­tos e aloés. O ocul­tis­mo e as ambi­ên­ci­as do cine­ma de ter­ror são a sua pre­di­lec­ção, pelo meio não dei­xan­do de can­tar as vir­tu­des da can­na­bis.

Jus Oborn é o úni­co ele­men­to que resis­te do gru­po fun­da­dor em 1993, deri­van­do o nome Electric Wizard de dois temas dos Black Sabbath, «Electric Funeral» e «The Wizard».

O per­cur­so da ban­da tem sido aci­den­ta­do, devi­do a pri­sões por pos­se de dro­ga, agres­são a um agen­te da polí­cia e rou­bo, e a pro­ble­mas como o reben­ta­men­to de um tím­pa­no (pude­ra!), lesões nos dedos e aci­den­tes de moto.

Pois, esta rapa­zi­a­da é que é a real thing: são maus como as cobras. Vamos ter dis­co novo deles em 2012.

11. Eyehategod

Eyehategod

Mais slud­ge entran­do pelas arei­as do sto­ner rock, des­ta vez com base em New Orleans. Desde 1988 (mas só com um pri­mei­ro álbum em 1996, depois de vári­os 7 pole­ga­das e splits) que Jimmy Bower e seus asso­ci­a­dos abu­sam do feed­back num rock len­to e pesa­dão mui­to deve­dor dos blu­es e dos pio­nei­ros Black Flag.

Uma par­ti­cu­la­ri­da­de é o fac­to de um dos Eyehategod, Mike Williams, ser tam­bém crí­ti­co e jor­na­lis­ta musi­cal, cola­bo­ran­do na revis­ta Metal Maniacs. Mas não se pen­se que é o mais ati­la­do (vejam pelo meu exem­plo): as ses­sões de gra­va­ção da ban­da são pro­ble­má­ti­cas, já ten­do acon­te­ci­do qua­se serem expul­sos dos estú­di­os, e Mike mui­to con­tri­bui para isso.

Certa vez, quis gra­var o som de uma gar­ra­fa de cer­ve­ja a partir-​se e no pro­ces­so abriu uma mão até ao osso e foi espa­lhan­do san­gue por todo o lado. Resultado: sem­pre que que­rem fazer um dis­co há quem colo­que tra­ves­sas nas por­tas.

12. Fu Manchu

Foto: Mateo Leyb

Foto: Mateo Leyb

Começou pelo punk hard­co­re, em 1990, esta ban­da que hoje até já cons­ta num vide­o­jo­go, o por cá pou­co conhe­ci­do «The Bigs 2».

Californianos de gema, e com fama de ofe­re­ce­rem ao públi­co per­for­man­ces for­tís­si­mas, os Fu Manchu têm em Scott Hill o úni­co músi­co que vai per­ma­ne­cen­do ano após ano – aliás, segun­do cons­ta, as dis­si­dên­ci­as têm-​se devi­do a lití­gi­os com o gui­tar­ris­ta e voca­lis­ta.

Dois dos desis­ten­tes, Eddie Glass e Ruben Romano, for­ma­ram os Nebula, levan­do o fac­tor jam e a psi­ca­de­lia bem mais lon­ge. Até à mor­te des­te pro­jec­to, em 2010, o públi­co era par­ti­lha­do pelos dois gru­pos, não raro sur­gin­do fãs com t-​shirts de um ou de outro nos con­cer­tos de ambos. Os Nebula não leva­vam a mal, dizen­do que eram todos «da mes­ma famí­lia».

Houve por ali uns cachim­bos da paz, hou­ve, hou­ve…

13. Goatsnake

Goatsnake

Foram, dei­xa­ram de ser e vol­ta­ram ao ati­vo. Deram o pri­mei­ro pas­so com o des­mem­bra­men­to da ban­da The Obsessed, em 1996, ten­do como gui­tar­ris­ta o mes­mo Greg Anderson que for­ma­ria os Sunn 0))). A coi­sa mor­reu em 2001, mas Anderson e Pete Stahl fizeram-​na renas­cer das cin­zas em 2004.

A tóni­ca vol­ta a ser o doom, mas à manei­ra da West Coast. Não apa­re­cem mui­to, pois os seus mem­bros per­ten­cem a outros gru­pos, mas quan­do tal acon­te­ce fazem-​se nota­dos. E não por ves­ti­rem túni­cas fran­cis­ca­nas no pal­co, como fazem os mili­tan­tes do dro­ne aci­ma refe­ri­dos…

São menos dark, embo­ra tam­bém demons­trem que o sto­ner rock não é pro­pri­a­men­te músi­ca para sur­fis­tas e gen­te que tra­ba­lha para o bron­ze.

14. Hermano

Hermano

A pen­sar no México ali tão per­to do deser­to cali­for­ni­a­no, a ban­da de Dandy Brown (o mes­mo da Orquestra del Desierto, o que diz tudo) e John Garcia tem nome em Castelhano.

Os seus inte­gran­tes rodam por outros agru­pa­men­tos sto­ner, mas este tornou-​se tão gran­de como os demais (Kyuss com­pre­en­di­do), razão pela qual se man­tém des­de 1998.

O que pro­duz é heavy blu­es de bati­da dura, mui­to Cream e mui­to clás­si­co. Garcia é O voca­lis­ta da famí­lia desert rock, aque­le que até à data melhor tem cum­pri­do essas fun­ções, capaz de pas­sar do sus­sur­ro para o gri­to em milé­si­mos de segun­do.

15. Howlin Rain

Howlin Rain

São de San Francisco, a cida­de das lom­bas, e estão em cena des­de 2004. É o outro pro­je­to de Ethan Miller, dos Comets on Fire, e sur­giu da sua neces­si­da­de de fazer algo que o pró­prio defi­ne como «mais meló­di­co», wha­te­ver that means.

A recei­ta é mui­to seme­lhan­te à da outra ban­da, ou seja, uma mis­tu­ra de rock ‘n’ roll, blu­es, psi­ca­de­lis­mo e funk, menos a «mura­lha de dis­tor­ção».

Se a refe­rên­cia musi­cal vem dos anos 1970, a dos temas foi buscá-​la Miller aos poli­ci­ais dos 50s, pelo que em ter­mos de atmos­fe­ras e esta­dos de espí­ri­to tam­bém os Howlin Rain não fazem pro­pri­a­men­te músi­ca de praia.

O gui­tar­ris­ta e voca­lis­ta faz ques­tão que os riffs do gru­po sejam tão beras e vici­o­sos quan­to pos­sí­vel, o que, con­fes­sa, com a ida­de a avan­çar vai ganhan­do um sig­ni­fi­ca­do dife­ren­te de quan­do se tem vin­te e tal anos. Até o rock on dope vai-​se tor­nan­do sábio…

16. Karma to Burn

Karma to Burn

Banda sobre­tu­do ins­tru­men­tal de Morgantown, na Virginia, com William Mecum mais a sua gui­tar­ra na fren­te.

Os pri­mei­ros con­tra­tos com edi­to­ras conseguiram-​nas os Karma to Burn por meio de ações de ter­ro­ris­mo pro­mo­ci­o­nal: tele­fo­na­vam para as labels fin­gin­do que eram outros gru­pos e elogiavam-​se a si mes­mos. A estra­té­gia aca­bou por ter bons resul­ta­dos, não sem que tives­sem para­do entre 2002 e 2008, mui­to devi­do às con­tra­ri­e­da­des que lhes tra­zia a pre­fe­rên­cia por dis­pen­sar a inclu­são de um voca­lis­ta.

Das pou­cas vezes que o fize­ram, esco­lhe­ram os melho­res, como Daniel Davies, dos Year Long Disaster, e John Garcia, dos Kyuss. A com­po­nen­te metal defi­ne nes­te caso, uma vez mais, o tipo de sto­ner rock toca­do.

17. Kyuss

Kyuss

Quando se fala no rock do deser­to, esta é a pri­mei­ra ban­da que ser­ve de exem­plo. Pode mes­mo dizer-​se que os Kyuss foram os defi­ni­do­res do sub­gé­ne­ro, e o fac­to de terem sido for­ma­dos no cali­for­ni­a­no Palm Desert não é estra­nho a isso.

Nasceram no final da déca­da de 1980 como Sons of Kyuss e enquan­to Kyuss (nome de um mons­tro do jogo de car­tas Dungeons & Dragons) ter­mi­na­ram a car­rei­ra em 1995, com os seus mem­bros a tran­si­ta­rem para uma miría­de de for­ma­ções, como Queens of the Stone Age, Fu Manchu, Dwarves, Eagles of Death Metal, Mondo Generator, Hermano, Unida, Slo Bum e Them Crooked Voltures.

Em 2010 res­sur­gi­ram como Kyuss Lives!, ten­do rea­li­za­do uma gran­de digres­são mun­di­al em 2011 e prevendo-​se dis­co para 2012.

18. Mondo Generator

Rod Hunt

Foto: Rod Hunt

Também conhe­ci­da como Nick Oliveri and the Mondo Generator, esta ban­da sur­giu em cena no ano de 1997, pro­pon­do uma mis­tu­ra de punk com metal. O nome ficou quan­do um dos mem­bros, Brant Bjork, gra­fi­tou o ampli­fi­ca­dor de bai­xo de Oliveri com as pala­vras Mondo Generator.

A temá­ti­ca sto­ner tem sido fre­quen­te, com os pri­mei­ros álbuns a intitularem-​se, suges­ti­va­men­te, «Cocaine Rodeo» e «A Drug Problem That Never Existed».

Oliveri tocou nos Queens of the Stone Age, mas foi expul­so em 2004, numa his­tó­ria ain­da por con­tar. Algo iras­cí­vel, nes­se mes­mo ano ata­cou um téc­ni­co de som na Alemanha que não fez o que que­ria. Como resul­ta­do, os outros músi­cos abandonaram-​no e vol­ta­ram para os Estados Unidos.

Depois dis­so, outras entra­das e saí­das se suce­de­ram no gru­po, entre as quais a de Dave Grohl, dos Foo Fighters, mas a fór­mu­la tem con­ti­nu­a­do.

19. Monster Magnet

Monster Magnet

Estes já res­pon­de­ram pelo nome Triple Bad Acid, o que diz tudo… São ori­gi­nal­men­te de Red Bank, em New Jersey, mas trans­fe­ri­dos para Las Vegas, e têm em Dave Wyndorf o líder. O Monster Magnet em ques­tão era um brin­que­do dos anos 1960 de que o voca­lis­ta e gui­tar­ris­ta gos­ta­va quan­do era cri­an­ça.

A his­tó­ria repete-​se: as pri­mei­ras demo tapes do gru­po, em 1989, chamaram-​se «Forget About Life: I’m High on Dope» e «I’m Stoned, What Ya Gonna Do About It?». Em 2006, Wyndorf foi hos­pi­ta­li­za­do com uma over­do­se de medi­ca­men­tos, segun­do o seu mana­ger no con­tex­to de uma luta com os «demó­ni­os inte­ri­o­res» que o mina­vam.

A gran­de refe­rên­cia dos Monster Magnet está nos voos cós­mi­cos dos Hawkwind e dos Captain Beyond, de que, aliás, têm fei­to inte­res­san­tes covers.

20. Orange Goblin

Orange Goblin

Voltamos a este lado do Atlântico e ao Reino Unido, onde des­de 1995 o agru­pa­men­to de Ben Ward vem (vinha?) colan­do o psi­ca­de­lis­mo com o doom.

Nos últi­mos anos, «cir­cuns­tân­ci­as impre­vis­tas» não espe­ci­fi­ca­das leva­ram ao suces­si­vo adi­a­men­to de um novo dis­co e de novas tour­nées, mas o CD está pro­me­ti­do para o iní­cio de 2012 e já estão con­cer­tos mar­ca­dos para Abril.

O que pare­ce é que «A Eulogy for the Damned», cujo lan­ça­men­to está mar­ca­do para o mes­mo dia de Fevereiro (14) em que os Black Sabbath colo­ca­ram nos esca­pa­ra­tes o seu pri­mei­ro álbum, mar­ca­rá a defi­ni­ti­va rutu­ra com a esté­ti­ca sto­ner.

Um afir­ma­ti­vo tex­to no site da ban­da anun­cia que ago­ra os Orange Globin têm mais que ver com heavy metal do que com «red-​eye boo­gie» e «flap­ping fla­res». É pena…

21. Queens of the Stone Age

Queens of the Stone Age

Nenhum outro gru­po do sto­ner /​ desert tock foi algu­ma vez tão popu­lar quan­to os Queens of the Stone Age. Até no pro­gra­ma de gas­tro­no­mia de Anthony Bourdain para os canais de via­gens e turis­mo, No Reservations, eles apa­re­ce­ram…

São de Palm Desert e andam nis­to des­de 1997, com Josh Homme na lide­ran­ça. Tocam rock rif­fa­do com base nos blu­es e no seu per­cur­so têm fei­to de tudo um pou­co, des­de músi­ca acús­ti­ca fre­ak (leia-​se: hip­pie) a um tran­ce abs­tra­to e expe­ri­men­tal, pelo cami­nho ten­do mes­mo tido a cola­bo­ra­ção de Billy Gibbons, dos ZZ Top, e de Mark Lanegan, da ban­da grun­ge Screaming Trees.

Um dos seus temas, «Feel Good Hit of the Summer», foi con­tes­ta­do pela rede ame­ri­ca­na de dis­tri­bui­ção Wal-​Mart, que acu­sou a ban­da de pro­mo­ver o con­su­mo de dro­gas e ame­a­çou reti­rar o álbum em que esta­va incluí­do, «Rated R», dos esca­pa­ra­tes.

Um novo CD dos Queens está a ter­mi­nar de ser gra­va­do nes­te momen­to…

22. Spindrift

Spindrift

Com ber­ço em Newark, no Delaware, em 1992, mas trans­plan­ta­do para Los Angeles, eis mais um res­pon­sá­vel pelo res­sur­gi­men­to do psi­ca­de­lis­mo, com influên­ci­as que pas­sam por Hawkwind e The Doors. A alma do gru­po é Kirkpatrick Thomas, conhe­ci­do tam­bém como ator – é o pro­ta­go­nis­ta da longa-​metragem «The Legend o f God’s Son», com o mes­mo títu­lo de um dos dis­cos que edi­tou.

Kirkpatrick tem uma fixa­ção pela mito­lo­gia do Farwest, tal como foi con­ge­mi­na­da pelo cine­ma e mui­to par­ti­cu­lar­men­te pelos fil­mes spaghet­ti, o que expli­ca mui­to do som old scho­ol dos Spindrift. Em ver­são camp, como cow­boys reu­ni­dos à vol­ta de uma foguei­ra.

Alguns ins­tru­men­tos menos usu­ais têm sido uti­li­za­dos pela ban­da, como uma gui­tar­ra bai­xo e barí­to­no de duplo bra­ço, uma laps­te­el e flau­tas índi­as, configurando-​lhe um esti­lo mais folky.

Em 2011, os Spindrift lan­ça­ram um álbum com ver­sões pró­pri­as de ban­das sono­ras de clás­si­cos de Bolywood, fic­ção cien­tí­fi­ca e exploi­ta­ti­on, com a músi­ca a con­di­zer.

23. Spiritual Beggars

Spiritual Beggars

Voltamos à Suécia. É a par­tir daí, e mais con­cre­ta­men­te em Halmstad, que des­de 1993 ope­ram os Spiritual Beggars de Michael Amott, o mes­mo da ban­da de death metal Carcass.

Há algo de meta­lei­ro no gru­po, como não podia dei­xar de ser, mas a linha segui­da é a do hard rock da déca­da de 1970. Tem voz nova des­de 2010, a de Apollo Papathanasio, que por vezes pare­ce David Coverdale, embo­ra a músi­ca nos reme­ta para os Black Sabbath do iní­cio – se bem que com a soma de um órgão Hammond, assim intro­du­zin­do um pou­co da ambi­ên­cia do prog…

24. Sundial

Sundial

Surgida no final dos anos 1990 em Londres, a ban­da de Gary Ramon mer­gu­lha dire­ta­men­te no psy­ch dos 60s, dan­do todo o des­ta­que ao tra­ba­lho gui­tar­rís­ti­co do seu fun­da­dor, que é tam­bém o boss da edi­to­ra Acme.

Os Sundial são tão bri­tâ­ni­cos, tão bri­tâ­ni­cos, que difi­cil­men­te se con­fun­dem com os neo-​psicadélicos da América, e no entan­to lidam com as mes­mas coor­de­na­das, os mes­mos obje­ti­vos e os mes­mos quí­mi­cos.

Mas não se pen­se que os temos a fazer cópi­as das nuvens eté­re­as de som da épo­ca glo­ri­o­sa do LSD: o efei­to é mais duro e mais áspe­ro, além de mais agi­ta­do rit­mi­ca­men­te. Tudo é pas­sa­do pelo fil­tro do pha­sing: a gui­tar­ra, o bai­xo, a bate­ria e até os vocais, levando-​nos para um jar­dim onde as árvo­res são chupa-​chupas mer­gu­lha­dos em áci­do.

«Exploding in Your Mind», intitula-​se um dos temas mais recen­tes do gru­po. Pois, pois…

25. Tame Impala

Tame Impala

Agora damos um sal­to até Perth, na Austrália, que por sinal tam­bém tem deser­tos. A ban­da é de gera­ção mui­to recen­te, 2010, e está apos­ta­da em enfa­ti­zar a maté­ria dos sonhos.

Apresentada como «hypno-​groove melo­dic rock», esta é uma ini­ci­a­ti­va de Kevin Parker a par­tir das cin­zas de um com­bo que asso­ci­a­va blu­es, jazz e rock psi­ca­dé­li­co, Dee Dee Dums. «É inten­ci­o­na­do para mover­mos o cor­po, mas tam­bém para ficar­mos qui­e­tos e obser­var­mos outras for­mas de movi­men­to», escla­re­ce o sítio dos Tame Impala.

E sabem que mais? Estiveram no Meco em Julho de 2011, na últi­ma edi­ção do Super Bock Super Rock…

26. The Black Angels

The Black Angels

Estes anjos negros são de Austin, no Texas, e come­ça­ram em 2004. O nome foram buscá-​lo a uma can­ção dos Velvet Underground: «The Black Angel’s Death Song». E para não fica­rem dúvi­das da influên­cia, o logo do gru­po é um nega­ti­vo foto­grá­fi­co do ros­to de Nico.

A sua gran­de acei­ta­ção tem sido curi­o­sa, levan­do até que fos­sem incluí­das pas­sa­gens de can­ções dos seus dis­cos no fil­me «Death Sentence», com Kevin Bacon, e na série tele­vi­si­va «Fringe». Funcionam como um cole­ti­vo de iguais, embo­ra com algu­ma pre­do­mi­nân­cia do seu gui­tar­ris­ta, Christian Bland.

As letras são espe­ci­al­men­te som­bri­as, bem como o ima­gi­ná­rio apli­ca­do. Batem mal, os gajos…

27. Truckfighters

Truckfighters

Mais um gru­po da Suécia cono­ta­do com o desert rock e com uma abor­da­gem pro­gres­si­va do metal, datan­do o come­ço da sua ati­vi­da­de de 2001. Gostam de ligar o fuzz e acham que usar riffs pesa­dos e melo­di­as “boni­tas” não é uma con­tra­di­ção de ter­mos.

Sai em Dezembro de 2011 um fil­me sobre eles, com ima­gens de atu­a­ções ao vivo e outros sto­ners a fazerem-​lhes elo­gi­os, como Josh Homme, dos Queens of the Stone Age. A coi­sa está entre o docu­men­ta­lis­mo e a fic­ção, com os três mem­bros da ban­da a transformarem-​se em Fuzz Monsters quan­do sobem ao pal­co.

Não sur­pre­en­de, pois Ozo, Dango e Pezo já ganha­ram fama de fazer os mais impac­tan­tes con­cer­tos da cena…

28. Wolfmother

Wolfmother

A nos­sa trip ter­mi­na em Sydney, na Austrália. Aí resi­dem os Wolfmother de Andrew Stockdale, for­ma­dos com a pas­sa­gem do sécu­lo. Doze anos depois, está aí qua­se a reben­tar dis­co novo, com algu­mas mudan­ças de inter­ve­ni­en­tes pelo meio.

O ex-​lbris do gru­po é uma cover de «Communication Breakdown», dos Led Zeppelin, que os pró­pri­os lhes pedi­ram para tocar ao vivo quan­do a míti­ca for­ma­ção de Robert Plant e Jimmy Page foi colo­ca­da no UK Hall of Fame, em 2006.

Vai-​se dizen­do que a Mãe-​Loba é como que os Blue Cheer do sécu­lo XXI e tal­vez seja ver­da­de, acres­cen­tan­do quem já ouviu as gra­va­ções que para mui­to melhor. Logo se veri­fi­ca­rá… Outras refe­rên­ci­as foram buscá-​las ao blues-​rock de MC 5, The Nice e Jethro Tull.

Pronto, fico-​me por aqui. Agora vou fazer uma cura de desin­to­xi­ca­ção, ouvin­do os Jazz Messengers de Art Blakey… Ah, bolas, é ver­da­de! O tipo tam­bém gos­ta­va de chei­rar uns pozi­nhos…

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?