Ora aqui está uma ban­da que nun­ca nin­guém viu nem verá, por mais con­cer­tos a que deles se assis­ta. Os dois músi­cos enver­gam fatos bran­cos que os cobrem dos pés à cabe­ça e o vide­as­ta esconde-​se na penum­bra, atrás da sala, pro­je­tan­do.

Os seus nomes pode­ri­am ser os de quais­quer outros cida­dãos naci­o­nais: Jorge Nuno, João Paulo e Miguel.

A músi­ca e a arte inter­me­dia que cri­am é que não têm nada de vul­gar, o que se con­fir­ma no pri­mei­ro caso com o lan­ça­men­to do duplo álbum «Spring Grove», o novís­si­mo des­tes Signs of the Silhouette. Trata-​se de um rock expe­ri­men­tal, toca­do na zona ambí­gua entre o noi­se e o psi­ca­de­lis­mo. Sim, músi­ca de trip nos con­fins inte­ri­o­res do cos­mos.

Em dis­co, são só dois os ins­tru­men­tos: uma gui­tar­ra e uma bate­ria. Esta mais pare­ce o cora­ção de um ogre. Ouvi-​la ape­nas esmaga-​nos, deixa-​nos em aler­ta. A gui­tar­ra é como uma orques­tra wag­ne­ri­a­na: a quan­ti­da­de de har­mó­ni­cos que pro­duz pare­ce infi­ni­ta e os feed­backs massajam-​nos não só o ouvi­do inter­no como a car­ne e a alma.

Signs of the Silhouette

Em con­cer­to, as ima­gens sucedem-​se no fun­do do pal­co e sobre as telas bran­cas dos cor­pos do Jorge e do João. Como as que vemos nes­te vídeo fil­ma­do em São Bernardo do Campo, Brasil, com uma ser­pen­te a tor­ne­ar um tor­so nu numa pai­sa­gem desa­bi­ta­da. Belo como o medo.

Por vezes, nas situ­a­ções ao vivo, fazem-​se acres­cen­tar por cor­das de arco, como o con­tra­bai­xo de Hernâni Faustino e o vio­lon­ce­lo de Helena Espvall. Imaginem os Sunn 0))) numa par­ce­ria com os Godspeed You! Black Emperor e ficam com uma ideia.

Há todo um con­cei­to por detrás e este vai beber à feno­me­no­lo­gia de Husserl, a Merleau-​Ponty, a Sartre «e a mais alguns empi­ris­tas sim­pá­ti­cos». Cada dis­co, cada atu­a­ção, é um «estu­do do que apa­re­ce ao nos­so olhar e de como se pode trans­mu­tar isso em som viven­ci­al, in loco», no dizer do Miguel Cravo.

«Criamos pon­tes entre a filo­so­fia da ima­gem e a teo­ri­za­ção do som. Utilizamos o méto­do da “redu­ção feno­me­no­ló­gi­ca”, da epo­che, um pro­ces­so em que tudo é infor­ma­do pelos sen­ti­dos e muda­do num expe­ri­men­to de cons­ci­ên­cia. Fantasias, atos, rela­ções, pen­sa­men­tos, even­tos, memó­ri­as e sen­ti­men­tos cons­ti­tu­em uma nar­ra­ti­va, com o vídeo ser­vin­do como pau­ta para que os músi­cos sejam pos­suí­dos por essas expe­ri­ên­ci­as», afir­ma ain­da o Miguel.

Os Signs of the Silhouette são de Lisboa, mas podi­am ser de Londres, Berlim, Oslo, Tóquio ou Nova Iorque. Algo de extra­or­di­ná­rio está mes­mo a acon­te­cer em Portugal, tal como adi­an­tam os jor­na­lis­tas e crí­ti­cos estran­gei­ros que cá vêm espreitar-​nos…

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt.