Ballerina Project, de Dane Shitagi

Ballerina Project, de Dane Shitagi

O cor­po exis­te antes que diga de si mes­mo. O que sig­ni­fi­ca que fica­mos pelo cor­po até quan­do dele par­ti­mos para uma refle­xão como esta. E, no entan­to, pode­mos falar do cor­po (ou pode­mos falar o cor­po) de duas manei­ras opos­tas: uma tomando-​o como um labi­rin­to, a outra considerando-​o como um orga­nis­mo, com um iti­ne­rá­rio rígi­do.

Cabeça, tron­co e mem­bros. A ana­to­mia como des­ti­no…

Peguemos pri­mei­ro nes­se corpo-​organismo, e com­pre­en­da­mos como a mor­fo­lo­gia ana­tó­mi­ca o codi­fi­ca, retirando-​o à sua pró­pria natu­re­za labi­rín­ti­ca e levando-​o para a ins­ti­tui­ção, a aca­de­mia, que decre­ta a sua inte­li­gi­bi­li­da­de.

É curi­o­so que seja pre­ci­sa­men­te na pro­nun­ci­a­da flui­dez da mor­fo­lo­gia dos sei­os e da con­ce­ção do cor­po femi­ni­no atra­vés dos tem­pos que os parâ­me­tros regu­la­do­res se tenham fixa­do…

O que se fixa vem da ordem do ide­al, e este não evo­lui ape­nas enquan­to valor esté­ti­co. Seria erra­do pen­sar­mos assim: a ques­tão vai bem mais fun­do, por­quan­to o ide­al se impõe na sua con­cre­ta qua­li­da­de de mode­lo mor­fo­ló­gi­co, e este igual­men­te se trans­mu­ta.

É por isso que a pin­tu­ra e a esta­tuá­ria são as melho­res expres­sões de como cada épo­ca e cada civi­li­za­ção supõem um cor­po huma­no que pre­ten­dem mais per­fei­to. Vão-​se, pois, suce­den­do os padrões de bele­za.

Para se atin­gir a har­mo­nia de um cor­po utiliza-​se atu­al­men­te a medi­da de sete cabe­ças e meia, mas dife­ren­tes câno­nes foram antes usa­dos: o dedo médio da mão (!), a mão toda, o nariz, a cla­ví­cu­la, a colu­na ver­te­bral, etc. Isto por­que há par­tes do cor­po que se con­si­de­ra que são mais cor­po do que outras.

É a cha­ma­da Regra de Ouro, uma pro­por­ção métri­ca uni­ver­sal colo­ca­da em fór­mu­la mate­má­ti­ca (b2 = a (a+b)) e que, segun­do Fechner, é a cha­ve de toda a mor­fo­lo­gia, ser­vin­do tan­to a cien­tis­tas como a artis­tas.

Totalitarismo da forma

Nude on Sand, Edward Weston

Nude on Sand, Edward Weston

É por isto mes­mo que se bus­ca uma cor­re­la­ção do cor­po com o meio e se rela­ci­o­na a sua mor­fo­lo­gia com outras for­mas exis­ten­tes à vol­ta. As da arqui­te­tu­ra, por exem­plo, como elu­ci­da a sobre­po­si­ção geo­mé­tri­ca da figu­ra huma­na com o Partenon fei­ta pelos gre­gos anti­gos.

Trata-​se de um tota­li­ta­ris­mo da for­ma, como é evi­den­te.

Vénus de Milo

O que faz este pro­pó­si­to aca­dé­mi­co de dar ao cor­po uma per­fei­ta har­mo­ni­za­ção e orga­ni­za­ção geo­mé­tri­ca não é mais do que uma rei­te­ra­da defor­ma­ção sua, no inte­res­se do ide­al.

A ver­da­de é que os sei­os nun­ca são tão redon­dos quan­to os da Vénus de Milo. Desejam-​se como tal, por­que o cír­cu­lo é a for­ma pri­mor­di­al, a ima­gem geo­mé­tri­ca de Deus.

Aliás, as apa­ri­ções de Nossa Senhora deram-​se sem­pre sobre rochas arre­don­da­das, sim­bo­li­zan­do o seio da mãe: o seu ven­tre e o seu pei­to.

Ficou dito aci­ma que há duas manei­ras de falar o cor­po. Não é exa­ta­men­te cor­re­to: cada sujei­to fala­rá do seu cor­po singularizando-​o enquan­to cam­po de expe­ri­ên­ci­as, e isso é ine­vi­tá­vel.

Por isso mes­mo é que o seio é esse obje­to ima­gi­ná­rio que todos, à nos­sa manei­ra, alu­ci­na­mos. Como refe­riu Barthes, o cor­po «é mais velho do que nós», e quan­do dele fala­mos ain­da não saí­mos do cor­po de onde vie­mos, esse cor­po ances­tral do qual par­ti­mos e ao qual ambi­ci­o­na­mos secre­ta­men­te regres­sar.

Tal par­ti­da e tal che­ga­da é que sus­ci­tam a efa­bu­la­ção do escri­tor, do pin­tor e, afi­nal, de todos nós. Tudo o que se encon­tra­va em esta­do vir­tu­al des­pon­ta, pois o cor­po é plas­ti­ci­zá­vel e male­a­li­zá­vel, poden­do e deven­do estar aber­to à mul­ti­pli­ci­da­de.

É des­sa efa­bu­la­ção que guar­da­mos o que nos con­vém à com­pen­sa­ção da per­da ini­ci­al. Há sem­pre uma ima­gem mné­si­ca, sem­pre uma recor­da­ção que se vivi­fi­ca.

Lugar de fixa­ção do olhar volup­tu­o­so, segun­do Urbano Tavares Rodrigues, os sei­os facil­men­te se sin­gu­la­ri­zam, iden­ti­fi­cam e cono­tam.

Disse-​me o roman­cis­ta:

É a pró­pria espe­ci­fi­ci­da­de da lite­ra­tu­ra que está em cau­sa: o escri­tor, o poe­ta, trans­fi­gu­ra magi­ca­men­te deter­mi­na­do obje­to e o seio pode ser emble­má­ti­co, pode entrar no sonho como um cor­po estra­nho, inde­pen­den­te de outro cor­po do qual era apên­di­ce.

A lite­ra­tu­ra, para si, nun­ca é deno­ta­ti­va: «O tex­to lite­rá­rio é um tex­to pro­je­ti­vo.»

Um museu imaginário dos seios

Olivier Reichenbach

Olivier Reichenbach

Na con­ver­sa que com ele tive já há uns lar­gos anos, Tavares Rodrigues defen­deu, inclu­si­ve, que «se pode cons­ti­tuir um museu ima­gi­ná­rio dos sei­os tal como Malraux cons­ti­tuiu um de obras-​primas: sei­os vis­tos ou entre­vis­tos, sei­os sonha­dos e pos­suí­dos, sei­os dese­ja­dos».

A sua pró­pria obra é qua­se esse museu:

Coloco uma gran­de car­ga sub­je­ti­va na des­cri­ção que faço de sei­os, usan­do mes­mo adje­ti­vos abs­tra­tos. É uma par­te eró­ge­na do cor­po que está for­te­men­te liga­da à sen­si­bi­li­da­de femi­ni­na, e eu subjetivei-​a, mitifiquei-​a até, no sen­ti­do de esta­be­le­cer uma inter­co­mu­ni­ca­ção pro­fun­da comi­go ou com a per­so­na­gem na qual eu encar­no no momen­to de fazer a des­cri­ção.

Continuou o autor de «Violeta e a Noite»:

Os sei­os têm expres­sões vári­as, expres­sões de dor, de angús­tia, de pra­zer, de pro­mes­sa. Estão liga­dos, no meu ima­gi­ná­rio, a um com­por­ta­men­to da mulher, a uma ida­de cro­no­ló­gi­ca e a uma dura­ção – a ida­de da expe­ri­ên­cia, do vivi­do, que é dife­ren­te de mulher para mulher, de ser huma­no para ser huma­no…

É assim que um seio gene­ro­so sur­ge nos seus livros com for­ma redon­da e um cer­to volu­me, liga­do neces­sa­ri­a­men­te à pes­soa em ques­tão na sua tota­li­da­de. E que um seio agres­si­vo se apre­sen­ta duro e pon­ti­a­gu­do, rela­ti­va­men­te far­to tam­bém, mais more­no que cla­ro, reve­lan­do um pou­co da alti­vez da mulher, como se fos­se uma mar­ca.

Outras sim­bo­lo­gi­as supõe, como a vir­tu­de, a cas­ti­da­de e a dife­ren­ça. Pode tam­bém sig­ni­fi­car a guer­ra. De res­to, há escu­dos da Idade Média com um rele­vo tal que as pon­tas lem­bram o bico de um seio.

Urbano Tavares Rodrigues

Urbano Tavares Rodrigues

O seio é uma meto­ní­mia do cor­po total e é mui­to impor­tan­te a rela­ção meto­ní­mi­ca do todo com as par­tes: o cor­po não é o invó­lu­cro do espí­ri­to, como pen­sa­vam os anti­gos. O espí­ri­to é uma for­ma supe­ri­or da maté­ria, o cor­po é o espí­ri­to, o cor­po é o ser – a união entre dois cor­pos é um modo de conhe­ci­men­to.

João Vieira

O infe­liz­men­te já desa­pa­re­ci­do artis­ta João Vieira pin­tou más­ca­ras e figu­ras ape­nas suge­ri­das, inspirando-​se na etno­gra­fia, depois de ter escul­pi­do sei­os em poliu­re­ta­no com refe­rên­cia na mito­lo­gia.

Numa con­ver­sa que com ele tive, disse-​me:

Não creio que tenha havi­do uma mudan­ça tão radi­cal assim no meu tra­ba­lho. Está tudo liga­do. Tudo o que fiz tem que ver com a ques­tão da fer­ti­li­da­de e da reno­va­ção cícli­ca.

A mes­ma sub­je­ti­va­ção, a igual pre­sen­ça da mãe obs­cu­ra («a minha mãe cos­tu­ma­va contar-​me em cri­an­ça estó­ri­as sobre as fes­tas do Carnaval e do fim das colhei­tas») e seme­lhan­tes ritos de pas­sa­gem enqua­dram esses dois perío­dos da sua ati­vi­da­de cri­a­ti­va.

Em 1981, Vieira apre­sen­tou uma instalação-​performance, inti­tu­la­da «Mamografias», com a inter­ven­ção dos «três tipos femi­ni­nos que nos acom­pa­nham», a Mãe, a Companheira e a Morte, dis­tin­ção rea­li­za­da por Freud em «Malaise dans la civi­li­za­ti­on».

Ora, não poden­do João Vieira con­ce­ber «uma esté­ti­ca que não seja eró­ti­ca, isto é, que não se refi­ra à vida», defen­dia o que segue:

O conhe­ci­men­to huma­no é com as mulhe­res que se ini­cia. Elas esta­be­le­ce­ram a rela­ção do ciclo mens­tru­al com os dos astros e das marés e per­ce­be­ram que entre o seu cor­po e a ter­ra exis­tia um mes­mo movi­men­to de semen­tei­ra e colhei­ta.

Optou, pois, por esses «pri­mei­ros seres mag­ní­fi­cos», saben­do que «o gran­de cho­que entre con­cei­tos sobre a vida se deu na Grécia, quan­do de Demeter se pas­sou para Adónis e para o rei­no do mas­cu­li­no».

Janela francesa

Quem entra­va na sua ins­ta­la­ção tinha de cami­nhar sobre um chão talha­do em for­ma de sei­os, um chão mole. Havia maçãs espa­lha­das por todo o lado e as pes­so­as eram con­vi­da­das a sentar-​se ou a deitar-​se sobre os sei­os e a comer os fru­tos, ins­pi­ra­dos no pomo de ouro do jul­ga­men­to de Páris. Projetavam-​se ter­mo­gra­fi­as mamá­ri­as e xeno­gra­fi­as sobre um ecrã gigan­te e lá esta­vam, ao dis­por do olhar e das mãos dos visi­tan­tes, as peças em expo­si­ção.

Uma delas era uma jane­la com um dos baten­tes fecha­do e uma série de sei­os atrás, em espu­ma. O artis­ta baseou-​se iro­ni­ca­men­te na «jane­la fran­ce­sa» que Marcel Duchamp desig­nou como «Fresh Widow» e na ideia de que «a jane­la do cor­po femi­ni­no é o seu sexo». Abrindo-​se o «sexo» da mulher lá esta­vam os sei­os, alu­din­do à fer­ti­li­da­de.

Três «per­for­mers» de sei­os nus repre­sen­ta­ram algu­mas situ­a­ções, uti­li­zan­do não só as maçãs como uma lan­ça, um capa­ce­te e um escu­do.

A Morte entre­gou os sím­bo­los de guer­ra à Companheira, ritu­al­men­te, e esta passou-​os a João Vieira: o homem tor­na­do como a mari­o­ne­ta do des­ti­no.

Cada um dos ges­tos das inter­ve­ni­en­tes era como que a rein­ven­ção de Vénus – a sua está­tua che­gou até nós sem bra­ços, muti­la­da, e o pin­tor não fez mais do que adi­vi­nhar as dife­ren­tes pos­tu­ras que a Vénus pode­ria assu­mir.

Até as cen­te­nas de sei­os da ins­ta­la­ção eram cópi­as dos sei­os venu­si­a­nos, inces­san­te­men­te repe­ti­dos…

Ora, o sím­bo­lo ado­ta­do por todas as esco­las de belas-​artes no mun­do é a Vénus. Milhares e milha­res de estu­dan­tes dese­nham todos os dias a per­fei­ção da Vénus, des­de há sécu­los. Recorde-​se o que já foi aqui dito: a aca­de­mia tem por fun­ção uni­for­mi­zar o que se con­si­de­ra exces­si­va­men­te diver­so.

Em suma, Vénus é a Lei.

Antes, os egíp­ci­os con­ce­bi­am como ide­ais as figu­ras esgui­as, de sei­os altos, deter­mi­na­das pelo câno­ne do dedo médio. Os gre­gos, por seu tur­no, aspi­ra­vam à máxi­ma deli­ca­de­za das for­mas, e em con­sequên­cia as suas está­tu­as tinham entre as sete cabe­ças e três quar­tos e as oito cabe­ças, que é já a nos­sa medi­da atu­al, embo­ra nes­sa altu­ra ain­da sem a carac­te­ri­za­ção do movi­men­to.

São essas, sobre­tu­do, as duas cor­ren­tes ana­tó­mi­cas que che­ga­ram aos dias de hoje.

Por inter­po­si­ção: de Durer (1471 a 1528), que con­ti­nu­ou as ten­dên­ci­as egíp­ci­as com sei­os qua­se axi­la­res, cor­res­pon­den­do a linhas cor­po­rais mui­to retas e com­pri­das, e do renas­cen­tis­ta Jean Cousin em rela­ção aos gre­gos, que pre­ten­dia que se esten­des­se a segun­da cabe­ça do men­to, no quei­xo, até aos mami­los, dife­ren­te­men­te da medi­da de sete e meio de Fritsch em vigor, pela qual o segun­do andar do cor­po vai do men­to à base dos pei­to­rais, por­tan­to um pou­co mais abai­xo.

A geometria do seio

Doutzen Kroes

Doutzen Kroes

Foi con­tra­di­to­ri­a­men­te, como em todas leis, que estas diver­gên­ci­as acon­te­ce­ram, ape­sar de alguns estu­dos, como os de Leonardo Da Vinci, terem com­pro­va­do que as par­tes do cor­po se cor­res­pon­dem mor­fo­me­tri­ca­men­te entre si.

De fac­to, sete cabe­ças e meia oci­den­tais não são outra coi­sa que deza­no­ve dedos egíp­ci­os. A visão do pei­to femi­ni­no depen­de, obvi­a­men­te, da nos­sa visão do todo cor­po­ral, de manei­ra que a geo­me­tria do seio está enqua­dra­da num tron­co que é o supor­te dos apên­di­ces dos mem­bros, nele pas­san­do o eixo do cor­po.

O perí­me­tro torá­ci­co da mulher (regra geral mais bai­xa do que o homem, com apro­xi­ma­da­men­te de seis e meia a sete cabe­ças) é igual a meta­de da esta­tu­ra mais três cen­tí­me­tros, medi­do aci­ma dos sei­os. E tan­to pior para quem não obe­de­cer à defi­ni­ção…

O aspe­to fisi­o­nó­mi­co é o de um hexá­go­no, cha­ma­do de hexá­go­no pei­to­ral, ten­do como limi­tes o pla­no hori­zon­tal que pas­sa pelos acró­mi­os (cuja posi­ção foi deter­mi­na­da pela Regra de Ouro de Fritsch) e o que rasa o bor­do infe­ri­or do mús­cu­lo gran­de pei­to­ral, bor­do este que está a duas cabe­ças de dis­tân­cia do vér­tex, a ¼ da esta­tu­ra total.

Dentro des­tas coor­de­na­das nor­ma­li­zan­tes, o esfe­rói­de mamá­rio da mulher tem como cen­tro os téli­os, indo o diâ­me­tro ver­ti­cal da ter­cei­ra cos­te­la à sex­ta. Os mami­los for­mam com a base do pes­co­ço um tri­ân­gu­lo equi­lá­te­ro e com o umbi­go um tri­ân­gu­lo isós­ce­les.

Da base do pes­co­ço até ambos os olhos outro tri­ân­gu­lo pode­rá ser mar­ca­do, por sim­pa­tia. Num cor­po tudo deve estar liga­do.

Este padrão está ao alcan­ce de, pelo menos, quem tem dinhei­ro para recor­rer à cirur­gia esté­ti­ca. A tec­no­lo­gia arti­fi­ci­o­sa com que hoje se tra­ba­lha o cor­po, sejam mas­sa­gens, hor­mo­nas, sili­co­ne, pró­te­ses, plas­ti­as ou far­ma­co­lo­gia, trans­for­ma o seio num mús­cu­lo, entendendo-​se aqui mús­cu­lo como o resul­ta­do de um esfor­ço cor­po­ral e de uma repe­ti­ção, maquí­ni­ca e mecâ­ni­ca, de exer­cí­ci­os que fazem com que, por exem­plo, os sei­os enri­jem ou desa­pa­re­çam.

É, aliás, sur­pre­en­den­te o que nos nos­sos dias o cor­po é capaz de intro­je­tar como téc­ni­ca e como medi­ca­men­to, em lite­ral mani­pu­la­ção do orgâ­ni­co.

O curi­o­so e o arre­pi­an­te da ques­tão está em que o pre­sen­te desa­fio ao deter­mi­nis­mo ana­tó­mi­co, quan­do rein­ven­ta a con­di­ção labi­rín­ti­ca do cor­po mos­tran­do que os sei­os – e não só os femi­ni­nos como tam­bém os mas­cu­li­nos – são rea­li­da­des abso­lu­ta­men­te não deter­mi­ná­veis, leva à assun­ção físi­ca de uma con­di­ção padro­ni­za­da e até iner­te (a pró­te­se rígi­da e imó­vel).

A ana­to­mia apli­ca­da pela indús­tria médi­ca e da bele­za, quan­do não mes­mo por algu­ma arte, é um sério tra­vão ao impul­so de uma cri­a­ti­vi­da­de cor­po­ral que pode­ría­mos clas­si­fi­car como liber­tá­ria.

A uto­pia do cor­po tem redun­da­do numa prá­xis opres­si­va e homo­ge­nei­za­do­ra.

Qualquer cirur­gião plás­ti­co tem este dis­cur­so:

O seio deve­rá ter de 12 a 15 cen­tí­me­tros de altu­ra e o mes­mo de lar­gu­ra. A dis­tân­cia entre os mami­los deve­rá ficar em 20 ou 21 cen­tí­me­tros, de cada mami­lo ao umbi­go em 24 ou 25 e até ao bor­do supe­ri­or do ester­no em 17 cen­tí­me­tros. O volu­me mode­lar da mama é de 275 cm3.

Este é o seio juve­nil, con­si­de­ra­do medi­ca­men­te como o nor­mal, uma hemis­fe­ra com o bor­do supe­ri­or reto ou ligei­ra­men­te esca­va­do e o infe­ri­or con­ve­xo, em for­ma de lágri­ma ou de gota. Toda a cor­re­ção cirúr­gi­ca segue esta nor­ma.

Cabeça-​ecrã

Brigitte Bardot

Brigitte Bardot foto­gra­fa­da por Serge Jacques

A úni­ca male­a­bi­li­da­de pela qual o cor­po se dei­xa fazer só pode resi­dir, como me afir­ma­va o semió­lo­go Emídio Rosa de Oliveira, «na cabeça-​ecrã, que pro­je­ta o cor­po em efei­to de fan­tas­ma ciné­fi­lo».

Existe, pois, um dis­cur­so «metas­seio», um dis­cur­so que fala não de um seio, mas do Seio, obje­to par­ci­al «deta­ché» que se conec­ta com outros obje­tos e outras asso­ci­a­ções de obje­tos, por­que o cor­po se tor­nou num puzz­le de reen­vio.

Falar des­te seio já não é o mes­mo que falar da boca, que está (esta­va?) tra­di­ci­o­nal­men­te na sua con­ti­gui­da­de físi­ca. Tanto assim que Winnicott con­si­de­ra­va que, atra­vés do seio, a cri­an­ça ama­men­ta­da é ain­da a mãe…

Todos os encai­xes se tor­na­ram pos­sí­veis. O seio ati­va a série, obses­si­o­nal­men­te sim, mas desem­bo­can­do na alte­ri­da­de orgo­nal. Tal tornou-​se pos­sí­vel por­que, ain­da que a obses­são some e veri­fi­que que um mais um dá um, exis­tia já um «médium» vei­cu­la­dor. Entre o seio e a boca há o lei­te, ele­men­to líqui­do.

Por con­se­guin­te, o seio é sem­pre exces­so, e como tal dei­xa res­tos e ras­tos no cor­po, impres­sões que exis­tem no âmbi­to do que é infi­ni­te­si­ma­men­te per­ce­tí­vel, assim se sol­tan­do as fan­ta­si­as.

Os sei­os são «ins­cri­ção cor­po­ral, letra de um cor­po /​ espa­ço de pro­du­ção de sin­to­mas, ilu­sões e inter­pre­ta­ções vári­as» (Rosa de Oliveira). Se o sujei­to expe­ri­men­ta o seio já é seio, haven­do uma ina­de­qua­ção bási­ca entre o real e a sua ide­a­li­za­ção, entre o seio e o metas­seio.

O artis­ta men­te, o doen­te deli­ra. Como dizia Nietzche, a arte faz com que não mor­ra­mos pela ver­da­de.

Repare-​se no que con­ta um invi­su­al, pro­fes­sor secun­dá­rio:

No escu­ro, ape­nas pos­so recri­ar a mulher por par­tes. Fragmento-​a. Há um enfo­que sobre um úni­co ele­men­to, por não haver a ima­gem de um cor­po com­ple­to. Preciso, pois, de o inven­tar, local­men­te. Imagino, e tenho a cons­ci­ên­cia de que estou a dis­tor­cer a rea­li­da­de. Os fan­tas­mas vogam melhor à noi­te, não é?

Há uma curi­o­sa len­da hin­du, com qua­tro cegos como per­so­na­gens. Eles que­ri­am saber como é um ele­fan­te. Um segurou-​lhe a cau­da, outro uma pata, o ter­cei­ro a bar­ri­ga e o últi­mo a trom­ba. Cada um deles deu aos outros uma ima­gem par­ti­cu­lar do ani­mal e, cla­ro, fica­ram com idei­as dife­ren­tes sobre o que é um ele­fan­te.

Possibilitam-​se, por­tan­to, par­tu­ra­ções diver­sas, cor­tes, asso­ci­a­ções: sín­te­ses. É esse o gran­de poder do ima­gi­ná­rio.

O escultor Quintino Sebastião

O escul­tor Quintino Sebastião

Se mais recen­te­men­te o escul­tor Quintino Sebastião optou por subli­mar as for­mas, o que antes ope­ra­va eram explí­ci­tas sim­bi­o­ses entre sei­os e náde­gas, vul­vas e pénis. Caso das suas «escul­tu­ras com inte­ri­or», cuja par­te exter­na con­sis­tia em sei­os, haven­do uma ela­bo­ra­ção por den­tro que conec­ta­va outras par­tes do cor­po.

Permiti-​me alte­rar a ana­to­mia e fazê-​la fun­ci­o­nar liga­da a outros ele­men­tos ou com outros con­tex­tos, preocupando-​me que hou­ves­se uma gran­de exu­be­rân­cia nos efei­tos do bron­ze oxi­da­do.

É nes­te labi­rin­to que gos­ta­mos de nos per­der ao lidar com um par de sei­os…

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?