Shhh… Escrevo isto e imagino-​me a pôr o dedo indi­ca­dor dian­te da boca, con­vi­dan­do os demais ao silên­cio. Algo que até tem mui­to que ver con­nos­co, por­tu­gue­ses, não só por cau­sa do blo­queio falan­te quan­do se vai can­tar o fado como pelo fac­to de estar cala­do, nes­te país, é algo que está mui­to arrei­ga­do na nos­sa manei­ra de ser.

Se não des­de o feu­da­lis­mo, pelo menos em con­sequên­cia de 48 anos de dita­du­ra no Séc. XX, com a mor­da­ça que temos nos neu­ró­ni­os a levar-​nos a comer e calar nes­tes últi­mos anos de auto­ri­ta­ris­mo esta­tal mas­ca­ra­do de demo­crá­ti­co, com vis­ta a implan­tar as aspi­ra­ções do neo­li­be­ra­lis­mo mais radi­cal.

Pois «Shhh» é o títu­lo dos dois volu­mes de uma com­pi­la­ção con­ce­bi­da e orga­ni­za­da (com alguns temas a seu car­go ou em par­ce­ria, pre­ci­sa­men­te com o nome Shhh) pelo tuga Rui Bentes para a edi­to­ra de músi­ca ele­tró­ni­ca Thisco. Claro que com iro­nia e sar­cas­mo q.b.

Rui Bentes

Rui Bentes

No ali­nha­men­to dos dois dis­cos par­ti­ci­pam Zenial, Bolt, Cris X, Francisco Lopez, Dave Philips, Thisquietarmy, Rasal.Asad, Anla Courtis, Philippe Petit e Marvin A. Smith, gen­te de vári­as naci­o­na­li­da­des por­que a tal inves­ti­da do capi­ta­lis­mo fas­cis­tói­de de hoje cobre o pla­ne­ta intei­ro.

A músi­ca é ele­tró­ni­ca, como já devem ter per­ce­bi­do, ain­da que com gran­de pre­sen­ça de gui­tar­ras, ora sur­gin­do na evo­lu­ção do cha­ma­do rock pós-​industrial, ora configurando-​se na área do expe­ri­men­ta­lis­mo digi­tal sur­gi­do nas mar­gens do tech­no.

Tudo come­ça com um bang. As bati­das são for­tes e o carác­ter obses­si­vo, manía­co mes­mo, mas a inten­si­da­de ini­ci­al vai-​se esba­ten­do ao lon­go da audi­ção. Quando che­ga­mos ao fim de cada CD, pre­do­mi­nam a abs­trac­ção e o por­me­nor. Primeiro vem o gri­to, depois o mur­mú­rio… Faz lem­brar um pou­co o que acon­te­ceu com o 25 de Abril, cer­to?

Ou com o Maio de 68 em França, lem­bra­do no volu­me 2 com a uti­li­za­ção, em jei­to de spo­ken word, de decla­ra­ções dos estu­dan­tes revol­to­sos e dos gover­nan­tes que os repri­mi­ram com car­gas poli­ci­ais.

Uma nar­ra­ti­va com­pi­la­tó­ria mui­to dife­ren­te do que ouvi­mos na últi­ma edi­ção do fran­cês Franck Vigroux, «Prisme», em que autên­ti­cos mur­ros percussivo-​computacionais no estô­ma­go se inter­ca­lam com abis­mos de silên­cio, num sobe-​e-​desce de tor­tu­ra.

Ou de «Geometry of Chromium Skin», pro­du­to da cola­bo­ra­ção dos igual­men­te fran­ce­ses Le Syndicat com gen­te nos­sa do Porto, Sektor 304, ou seja, André Coelho, João Pais Filipe, Gustavo Costa, Henrique Fernandes, Manuel Neto, Antónia Reis e Ruelgo.

Neste últi­mo caso dife­ren­te por­que eles nun­ca se calam, nem sequer para iro­ni­zar. A coi­sa é extre­ma, san­gui­ná­ria, com blo­cos de ruí­do e rit­mos alu­ci­nan­tes. Não vale a pena dirigirem-​lhes chius. Eles não vos ouvem, e mes­mo que ouvis­sem não que­ri­am saber.

O Rui Shhh Bentes seguiu outra estra­té­gia: olha para o dedo dian­te da boca e diverte-​se con­nos­co…

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt.