Não, a Bélgica não é total­men­te uma pas­ma­cei­ra. Afinal de con­tas, é de lá (ou mais exa­ta­men­te, de Gand, já que Bruxelas qua­se con­fir­ma o este­reó­ti­po) que vem a série tele­vi­si­va «Brigada Anti-​Vício», uma das melho­res que pas­sam nos canais da Zon.

E é essa mes­ma Bélgica que este­ve mais de um ano sem gover­no, que é o melhor que pode acon­te­cer a um povo e só pode ser sinal de inte­li­gên­cia cole­ti­va. Por mais aci­den­tais que tenham sido as cir­cuns­tân­ci­as que a tal con­du­zi­ram, nas tor­tu­o­sas lógi­cas das nos­sas incom­ple­tas demo­cra­ci­as euro­pei­as.

Gorilla Mask

Pois o país da BD tam­bém tem outra qua­li­da­de: foi lá que nas­ceu o gru­po Gorilla Mask, aque­le que podem ouvir e ver no vídeo aci­ma.

Gostaram? Então vão gos­tar mais de saber que o trio de Peter van Huffel, Robert Fidezius e Rudi Fischerlehner vai tocar a 20 de Julho na linha de Cascais. Está no ali­nha­men­to da Combat Jazz Series, ciclo de con­cer­tos que irá decor­rer na vila da Parede, e desig­na­da­men­te no espa­ço reno­va­do da Sociedade Musical União Paredense (SMUP).

Fica mes­mo ao lado da esta­ção de com­boi­os, sain­do em dire­ção ao mar. Quem traz os três rapa­zes é a Clean Feed, edi­to­ra dis­co­grá­fi­ca por­tu­gue­sa espe­ci­a­li­za­da em jazz que tem sido todos os anos nome­a­da pela crí­ti­ca inter­na­ci­o­nal como uma das cin­co mais impor­tan­tes de todo o mun­do.

Pela mes­ma altu­ra é lan­ça­do pela Clean Feed o novo álbum dos Gorilla Mask, com o suges­ti­vo títu­lo «Bite My Blues», e são os temas des­se tra­ba­lho que vão inter­pre­tar. Pois, blu­es dis­tor­ci­dos.

Como já per­ce­be­ram, o jazz des­tes bel­gas con­vi­ve com mui­to, mui­to rock. Aliás, assumem-​se como um power trio, com a dife­ren­ça ape­nas de que, no lugar de uma gui­tar­ra elé­tri­ca, está o saxo­fo­ne alto de van Huffel. É como se Eric Dolphy tives­se par­ti­lha­do pal­cos e estú­di­os com os pun­kei­ros Black Flag.

O pro­je­to é bem dife­ren­te des­se outro em que o saxo­fo­nis­ta está envol­vi­do e que dá pelo nome de House of Mirrors. Neste, o jazz casa-​se com a músi­ca con­tem­po­râ­nea na linha de um Ligeti ou um Messiaen.

E se os House of Mirrors con­se­gui­ram pas­sar a noção de que o eru­di­tis­mo musi­cal não tem neces­sa­ri­a­men­te de ser cha­to, os Gorilla Mask dão ao rock uma pro­fun­di­da­de que habi­tu­al­men­te o géne­ro não tem.

Entre os vari­a­dís­si­mos cami­nhos que o jazz per­cor­re nes­te iní­cio do sécu­lo XXI encon­tra­mos a com­bi­na­ção da sua gra­má­ti­ca com outras lin­gua­gens, o que só por si não é uma novi­da­de. Foi sem­pre assim na sua his­tó­ria. A dife­ren­ça está no fac­to de esses cru­za­men­tos, essas trans­ver­sa­li­da­des, não esta­rem já a ser fei­tas segun­do os pre­cei­tos da fusão (anos 1970) e da cola­gem (déca­da de 1990).

Não são as for­mas que inte­res­sam a estes músi­cos, mas os pro­ces­sos e os con­teú­dos que deles resul­tam. Gorilla Mask é jazz e rock, não jazz com rock. Não é jazz pós-​moderno, mas jazz pós-​pós-​moderno, ou meta-​moderno, segun­do a defi­ni­ção con­ce­bi­da para expli­car o novo para­dig­ma cul­tu­ral que está a instalar-​se.

Assim inti­tu­la­da por­que pre­ten­de con­tri­buir para o pre­sen­te com­ba­te con­tra o wall paper jazz, ou seja, o jazz con­for­tá­vel e sem sur­pre­sas, a Combat Jazz Series inclui­rá outras abor­da­gens. Por exem­plo, a dos came­rís­ti­cos e melan­có­li­cos, mas sem­pre inqui­e­tos, Baloni (17 de Julho) e a dos bopei­ros free Cortex (11 de Julho).

Os Baloni jun­tam um bel­ga (!), um ale­mão e um fran­cês que se radi­ca­ram em Nova Iorque, estan­do hoje total­men­te inse­ri­dos na cena local mais cri­a­ti­va. Os noru­e­gue­ses Cortex lem­bram os tem­pos em que Ornette Coleman tinha con­si­go o trom­pe­tis­ta Don Cherry, e ain­da os Masada ori­gi­nais de John Zorn com Dave Douglas, mas são outra coi­sa. O pas­so seguin­te que fal­ta­va dar.

Já os Free Moby Dick de Stefan Pasborg, de que aqui vos falei ante­ri­or­men­te, se apro­xi­mam mais da estra­té­gia Gorilla Mask. Ou tal­vez seja o inver­so, por­que a ban­da da baleia mais famo­sa da lite­ra­tu­ra pega nos clás­si­cos do rock para os virar do aves­so, ou seja, vai à pró­pria fon­te, a «Paint it Black» e «21st Century Schizoid Man». Também eles vão à SMUP, e já no pró­xi­mo dia 2 de Junho…

Osgas e res­tan­tes cas­ca­len­ses, tomem nota. Marco, levan­ta esse rabo da fren­te do com­pu­ta­dor. A vida é mais do que «Game of Thrones» e pla­ne­tas dis­tan­tes…

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?