Da fil­mo­gra­fia de Quentin Tarantino faltava-​me ver «Django, Libertado» — o polé­mi­co, con­tro­ver­so fil­me de cau­bóis que alguns dizem exa­ge­rar na vio­lên­cia (a sério, num fil­me do Tarantino? Quem diria!), no uso da pala­vra «nig­ger» (mas este pes­so­al não viu o «Pulp Fiction»?) e, de uma manei­ra geral, no que é enten­di­do como uma fal­ta de res­pei­to pelos ante­pas­sa­dos dos afro-​americanos.

Esta últi­ma já é mais séria. O rea­li­za­dor Spike Lee, por exem­plo, recusou-​se a ver o fil­me: a escra­va­tu­ra nos Estados Unidos não fora «um western-​spaghetti do Sergio Leone», jus­ti­fi­cou, «mas um Holocausto».

Também há quem se tenha quei­xa­do de «impre­ci­sões his­tó­ri­cas» – e este des­con­ten­ta­men­to intriga-​me, ten­do em con­ta que Tarantino não teve qual­quer pro­ble­ma em incluir uma ban­da sono­ra bem con­tem­po­râ­nea.

A pro­pó­si­to de impre­ci­sões his­tó­ri­cas, lembram-​se daque­le pas­te­lão de três horas que ganhou uma por­ra­da de ósca­res – o fil­me do Kevin Costner, «Dançando com Lobos»? Saí da sala de cine­ma a pen­sar

bem, os ame­ri­ca­nos podem ter alguns moti­vos para se enver­go­nhar da sua História – o quase-​extermínio dos índi­os –, mas ao menos há sem­pre um bran­co ame­ri­ca­no fixe que conhe­ce, com­pre­en­de, aju­da e os pro­te­ge dos bran­cos maus, com­pen­san­do os cri­mes do pas­sa­do.

O fac­to de Kevin Costner ter che­ga­do alguns sécu­los atra­sa­do não é «impre­ci­são his­tó­ri­ca», de manei­ra nenhu­ma, é ape­nas uma repre­sen­ta­ção artís­ti­ca do que a América dese­ja­va que tives­se acon­te­ci­do, dig­na dos mai­o­res lou­vo­res da Academia de Hollywood.

Já o «des­res­pei­to­so» Tarantino colo­ca um pre­to cheio de esti­lo em cima de um cava­lo e deixa-​o incen­di­ar um ran­cho de sulis­tas racis­tas, fugir com a sua Scarlett O’Hara e caval­gar em dire­ção ao hori­zon­te enquan­to os vio­li­nos bran­que­las de «E Tudo o Vento Levou» são esma­ga­dos ao som de uma can­ção rap.

Não vejo pro­ble­ma nenhum nis­to – exce­to por uma ques­tão de gos­to musi­cal, cla­ro – e não me pare­ce que seja pos­sí­vel jul­gar a História pres­cin­din­do por com­ple­to do olhar con­tem­po­râ­neo que a ana­li­sa. Tarantino assu­me por com­ple­to esse olhar e sem pesos na cons­ci­ên­cia.

Por isso, mais valem impre­ci­sões his­tó­ri­cas à Tarantino do que rees­cri­tas hipó­cri­tas à Kevin Costner.

A sério?

Samuel L. Jackson

Samuel L. Jackson

Seja como for, ain­da estou para ver um fil­me em que ele me diga

rapaz, des­ta vez é mes­mo a sério. Tão sério e trans­cen­den­tal e dig­no de res­pei­to como um fil­me do Terence Malick. Profundo e vis­ce­ral como o Lars von Trier. Põe-​te direi­to na cadei­ra e não te atre­vas a per­tur­bar uma obra-​prima.

O que ele nos diz é que pode­mos rir daque­la vio­lên­cia da mes­ma manei­ra que Ed Wood dava pulos de con­ten­ta­men­to com mortos-​vivos sain­do das cam­pas – não é para ser leva­da a sério ou ins­pi­rar tra­ta­dos de soci­o­lo­gia sobre a influên­cia nefas­ta do cine­ma nas men­tes dos mais jovens.

Por outras pala­vras: ain­da estou para ver um fil­me dele – e «Django, Libertado» não é exce­ção – em que não nos lem­bre, pla­no a pla­no, sequên­cia a sequên­cia: o que estão a ver é ape­nas um fil­me, nada mais. E espe­ro que seja tão bom para vocês vê-​lo como foi para mim fazê-​lo.

Posso estar enga­na­do, mas o úni­co ver­da­dei­ro «tema» nos fil­mes do Tarantino são os fil­mes que viu. O «seu» cine­ma é um tes­te­mu­nho da for­ma como o mar­ca­ram. E se que­re­mos encon­trar algu­ma «men­sa­gem pro­fun­da» nes­ses fil­mes, é a sua inco­men­su­rá­vel pai­xão ciné­fi­la.

Até os diá­lo­gos são cons­truí­dos a par­tir de rela­ções de cum­pli­ci­da­de entre per­so­na­gens que se anta­go­ni­zam: por exem­plo, cúm­pli­ces no sus­pen­se ou na con­ver­sa de cha­cha que ante­ce­de a ine­vi­tá­vel explo­são do con­fli­to. Eles sabem – e nós tam­bém – que nun­ca pode­rão esca­par às mal­do­sas mani­e­ta­ções do per­ver­so cri­a­dor…

Tudo isto faz par­te do gozo de ver um fil­me do Tarantino.

Não é por aca­so que tan­tos ato­res que­rem tra­ba­lhar com ele: não são ape­nas per­so­na­gens vis­to­sas que Tarantino lhes dá, mas exer­cí­ci­os bri­lhan­tes que pare­cem ter sido escri­tos para mos­trar ao mun­do que ser ator é tão fixe como ser rea­li­za­dor. Leonardo DiCaprio e Samuel L. Jackson, então, têm aqui mate­ri­al sufi­ci­en­te para bri­lhar.

Ao con­trá­rio de outro apai­xo­na­do, Ed Wood, Tarantino sabe o que está a fazer. É um ladrão, mas um ladrão cheio de talen­to. É um repli­can­te do mais avan­ça­do que há, como a expe­ri­ên­cia do androi­de Rachel no fil­me Blade Runner – mais huma­na que os pró­pri­os huma­nos.

A sequên­cia de aber­tu­ra de «Sacanas sem Lei», por exem­plo, é Tarantino a ser mais Sergio Leone do que o pró­prio Sergio Leone; a vio­lên­cia em «Django, Libertado» é ele a ser mais Sam Peckinpah que o pró­prio Sam Peckinpah.

«Django, Libertado» é um fil­me levi­a­no – tão deli­ci­o­sa­men­te levi­a­no como só um fil­me de Tarantino con­se­gue ser. Genialmente levi­a­no, por vezes, como na sequên­cia em que os idi­o­tas do Ku Klux Klan se põem a dis­cu­tir sobre aque­las cara­pu­ças bran­cas incó­mo­das, que não dei­xam ver um pal­mo dian­te do nariz – o que é real­men­te incó­mo­do para quem dese­ja per­se­guir e matar escra­vos e «aman­tes de negros».

É um jogo de situ­a­ções e cita­ções, e às vezes bem per­ver­so: o úni­co bran­co decen­te na his­tó­ria, inter­pre­ta­do por Christoph Waltz, nem sequer é ame­ri­ca­no, mas ale­mão. E fala com a mes­ma pom­po­sa arti­cu­la­ção do nazi bem edu­ca­do que inter­pre­ta­ra em «Sacanas sem Lei». É pre­ci­so ter lata.

Venham mais fil­mes que me divir­tam como este – não supe­ra os dois pri­mei­ros, ain­da os meus pre­fe­ri­dos, mas con­ti­nua a fazer-​me agra­de­cer ao Tarantino, ao seu enor­me talen­to como argu­men­tis­ta e às horas que pas­sou no vídeo-​clube a devo­rar cas­se­tes.

Marco Santos

­Marco Santos

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