Para quem, como eu, tem o ina­ca­ba­do «Anotações sobre as Cores», de Ludwig Wittgenstein, como um dos seus livros de refe­rên­cia, não pode­ria ficar mais fas­ci­na­do quan­do sou­be que a NASA tinha inven­ta­do o super-​negro.

Assim os enge­nhei­ros desig­na­ram o novo negro mais negro, con­se­gui­do com a uti­li­za­ção de nano-​tubos de car­bo­no, por absor­ver mais de 90% da luz que inci­de sobre ele, seja a luz visí­vel como os ultra­vi­o­le­tas, os infra­ver­me­lhos e a luz que está para além da infra­ver­me­lha.

É cla­ro que a NASA não o fez por puro espí­ri­to inven­ti­vo ou com pul­são inves­ti­ga­tó­ria witt­gens­tei­ni­a­na. Se uma das uti­li­za­ções pre­vis­tas para o super-​negro até me agra­da, desig­na­da­men­te aque­la des­ti­na­da ao uso nos teles­có­pi­os que pers­cru­tam o cos­mos, já a sua apli­ca­ção em aviões, dro­nes e outras máqui­nas de guer­ra, com o fito de os tor­nar invi­sí­veis à dete­ção ele­tró­ni­ca e por radar, deixa-​me cis­ma­do.

Prefiro des­vi­ar a minha aten­ção para outra coi­sa. Por exem­plo, ponho-​me a ima­gi­nar o que intro­du­zi­ria o super-​negro de dife­ren­te na per­ce­ção que Wittgenstein teve de uma foto­gra­fia a preto-​e-​branco, questionando-​se ele sobre se a com­bi­na­ção do pre­to e do bran­co con­se­guia trans­mi­tir a noção de que o cabe­lo do rapaz que aí se via era lou­ro.

Melhor, de qual­quer modo, do que o preto-​e-​branco foto­grá­fi­co é aque­le que encon­tra­mos em algu­mas abor­da­gens da pin­tu­ra, da ban­da dese­nha­da e do design. Sem gran­de sur­pre­sa, é a BD que está a ir mais lon­ge na bus­ca de um super-​negro psi­co­ló­gi­co, vir­tu­al…

Um exem­plo de edi­ção recen­tís­si­ma é «Terminal Tower» (Chili com Carne), de André Coelho e Manuel João Neto, álbum a todos os níveis negro, negrís­si­mo até – na cor e na temá­ti­ca. Tenho esta­do aten­to aos movi­men­tos do André, artis­ta visu­al que tam­bém é músi­co e vem desen­vol­ven­do um exce­len­te tra­ba­lho com o pro­je­to pós-​pós indus­tri­al Sektor 304.

Tive o pra­zer de con­tar com ele como um dos ilus­tra­do­res do meu «’A’ Maiúsculo com Círculo à Volta», obra tam­bém ela mui­to pre­ta (o pre­to da Anarquia, pois então), e pro­cu­ro seguir o que vai fazen­do.

O uni­ver­so ima­gé­ti­co de «Terminal Tower» é negro. Logo ao olhar para a capa somos chu­pa­dos para o seu negru­me, que se vai aden­san­do ao lon­go das pri­mei­ras pági­nas. Percebemos de ime­di­a­to que esta­mos num cená­rio béli­co, pré ou pós-​apocalíptico…

Versos de William Blake são epi­so­di­ca­men­te cita­dos. Quem melhor, afi­nal, do que o poe­ta bri­tâ­ni­co que pers­cru­ta­va o lado obs­cu­ro da exis­tên­cia, e da natu­re­za huma­na, para refe­ren­ci­ar a sotur­ni­da­de des­tas pran­chas?

Numa das ima­gens, vemos uma som­bra huma­na a com­ba­ter um incên­dio e, sim, a rela­ção do pre­to e do bran­co leva-​nos a visi­o­nar (alu­ci­nar) laba­re­das cor-​de-​laranja.

E por­que pas­sa­mos a ver cores, elas aca­bam mes­mo por apa­re­cer – cas­ta­nhos ama­re­la­dos, ver­me­lhos rosa, cin­zen­tos azu­la­dos. Não sur­gem para con­tras­tar o «super-​negro», mas para se evi­den­ci­a­rem como aspe­tos seus.

Quando tudo vol­ta a ser bran­co sobre negro, ou negro sobre bran­co, as cores con­ti­nu­am lá. Mas con­ti­nu­am por­que sem­pre esti­ve­ram pre­sen­tes, absor­vi­das mas impon­do sub-​repticiamente os seus tons. Como escre­veu Wittgenstein:

Não há qual­quer cri­té­rio para reco­nhe­cer o que é uma cor, exce­to que essa cor é uma das nos­sas.

Nossas por­que as reco­nhe­ce­mos como cores, por­que as cores são mais coi­sa do nos­so cére­bro do que do mun­do da luz. O céu só é azul vis­to dos nos­sos olhos.

Conheci um psi­qui­a­tra e psi­ca­na­lis­ta que se insur­gia con­tra a ani­ma­ção tele­vi­si­va e as revis­tas aos qua­dra­di­nhos, argu­men­tan­do que enfra­que­ci­am a ima­gi­na­ção. Pois aqui está um caso que o des­men­te: estas man­chas negras podem sor­ver tudo, mas não a nos­sa capa­ci­da­de cri­a­ti­va e efa­bu­la­tó­ria.

Exato: ver é como pin­tar com as íris…

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?