Entre os pen­sa­do­res que influí­ram de algu­ma manei­ra no levan­ta­men­to que tem toma­do as ruas um pou­co por todo o pla­ne­ta destaca-​se o nome de Chantal Mouffe.

Professora uni­ver­si­tá­ria e ensaís­ta de filo­so­fia polí­ti­ca, pas­sa­ram por esta defen­so­ra de uma «demo­cra­cia radi­cal», ou vêm direc­ta­men­te dela, mui­tos dos slo­gans que têm sido usa­dos pelos movi­men­tos Occupy e dos Indignados e que sur­gi­ram, em Portugal, nos car­ta­zes e nas pala­vras de ordem das mani­fes­ta­ções do últi­mo sába­do, 2 de Março, e antes nas de 15 de Setembro de 2012.

À seme­lhan­ça do que vem acon­te­cen­do na Grécia, em Espanha, nos Estados Unidos e em todo o lado onde gen­te que se sen­te excluí­da dos pro­ces­sos supos­ta­men­te demo­crá­ti­cos tem expres­sa­do a sua revol­ta con­tra o mode­lo neo­li­be­ral, tam­bém por cá se gri­ta aqui­lo que escre­veu em vári­os livros e arti­gos…

Que o sis­te­ma de repre­sen­ta­ção par­la­men­tar não che­ga para haver uma ver­da­dei­ra sobe­ra­nia popu­lar, com efe­ti­va par­ti­ci­pa­ção deci­só­ria, que cor­ri­ja os dis­la­tes de uma máqui­na eco­nó­mi­ca que não tem as pes­so­as como razão de ser.

Muitos dos que pro­fe­rem as rei­vin­di­ca­ções diri­gi­das aos gover­nos des­co­nhe­ce­rão, mes­mo, que as idei­as que pro­põem têm a mar­ca de Chantal. Sem ser conhe­ci­da do gran­de públi­co, sem sur­gir nos noti­ciá­ri­os das tele­vi­sões, as suas pro­pos­tas espalharam-​se por sim­pa­tia, ano­ni­ma­men­te, sem diri­gis­mos, e deram lugar a uma nova rea­li­da­de…

Uma rea­li­da­de que mes­mo os par­ti­dos das esquer­das repre­sen­ta­das nos par­la­men­tos, com pouquís­si­mas exce­ções, ain­da não con­se­gui­ram assi­mi­lar e com­pre­en­der.

De for­ma­ção mar­xis­ta, mas indo mui­to para além de Marx e nes­se cami­nho cruzando-​se com as pers­pec­ti­vas liber­tá­ri­as, Chantal é uma teó­ri­ca soci­a­lis­ta ins­pi­ra­da em Gramsci e em pós-​estruturalistas como Marcuse, Foucault e Deleuze. Crítica das noções de «demo­cra­cia deli­be­ra­ti­va» de Habermas, aprofundou-​as e definiu-​lhes outras con­sequên­ci­as.

Nesse qua­dro de refor­mu­la­ção dos meca­nis­mos demo­crá­ti­cos, a filó­so­fa bel­ga dá uma aten­ção par­ti­cu­lar à cul­tu­ra, setor habi­tu­al­men­te des­pre­za­do pelos regra geral pou­co cul­tos e pou­co dados às coi­sas do espí­ri­to ban­quei­ros que glo­bal­men­te nos deli­mi­tam e deter­mi­nam os des­ti­nos.

Todos somos artistas

Na rua, protestando

O que está paten­te nos cer­ra­dos ata­ques que a cul­tu­ra tem sofri­do a nível inter­na­ci­o­nal: para todos os efei­tos, são os ban­quei­ros quem está por detrás de cada primeiro-​ministro e de cada minis­tro das Finanças, bem como de estru­tu­ras glo­ba­li­zan­tes como a Comissão Europeia, puxan­do os cor­de­li­nhos.

Inclusive, Chantal encon­tra nas «prá­ti­cas artís­ti­cas» (a ter­mi­no­lo­gia é sua) um enor­me poten­ci­al de radi­ca­li­za­ção do sis­te­ma, no sen­ti­do do envol­vi­men­to direc­to das popu­la­ções.

A per­gun­ta que ela fez, em «Artistic Activism and Agonistic Spaces»:

Ainda podem as prá­ti­cas artís­ti­cas desem­pe­nhar um papel crí­ti­co numa soci­e­da­de em que a dife­ren­ça entre arte e publi­ci­da­de se tor­nou con­fu­sa e em que artis­tas e tra­ba­lha­do­res cul­tu­rais se tor­na­ram numa par­te neces­sá­ria da pro­du­ção capi­ta­lis­ta?

É este o cená­rio que avan­ça para uma res­pos­ta:

Torna-​se neces­sá­ria uma ampli­a­ção do domí­nio artís­ti­co, pela inter­ven­ção dire­ta numa mul­ti­pli­ci­da­de de espa­ços soci­ais, de manei­ra a opormo-​nos ao pro­gra­ma de mobi­li­za­ção soci­al total do capi­ta­lis­mo.

Tal impli­ca, na sua opi­nião, «o enten­di­men­to da polí­ti­ca na sua dimen­são anta­go­nís­ti­ca», que é pre­ci­sa­men­te o que vem ocor­ren­do. Podem os pode­res ins­ta­la­dos des­pre­zar o fator «pro­tes­to», mas este é fun­da­men­tal para haver demo­cra­cia, e é atra­vés dele que sur­gem outras, e novas, solu­ções.

O raci­o­na­lis­mo libe­ral é hege­mó­ni­co, não tem em con­ta a plu­ra­li­da­de do teci­do soci­al, é cego para tudo o que vem do «espa­ço públi­co», essa «mul­ti­pli­ci­da­de de super­fí­ci­es dis­cur­si­vas» (Mouffe) em que não há con­sen­sos pos­sí­veis.

Porque estou eu a sali­en­tar esta ver­ten­te das idei­as de Chantal Mouffe?

Porque a arte está na rua.

Canta-​se «Grândola Vila Morena» quan­do os gover­nan­tes fazem as suas ses­sões de pro­pa­gan­da, escrevem-​se panos com fra­ses que por vezes têm um valor lite­rá­rio rele­van­te, desenha-​se e pinta-​se com uma admi­rá­vel cri­a­ti­vi­da­de.

Utilizam-​se más­ca­ras e figu­ri­nos como num pal­co de tea­tro. Dá-​se voz a uma dife­ren­te manei­ra de ver o mun­do. Faz-​se poe­sia com a rea­li­da­de.

Não vejo a arte e a polí­ti­ca em cam­pos sepa­ra­dos, com a arte de um lado e a polí­ti­ca do outro, entre os quais uma rela­ção teria de ser esta­be­le­ci­da. Há uma dimen­são esté­ti­ca na polí­ti­ca e uma dimen­são polí­ti­ca na arte. Daí que eu con­si­de­re não ser útil fazer uma dis­tin­ção entre arte polí­ti­ca e arte não-​política.

A arte crí­ti­ca, aque­la que assus­ta os Passos Coelhos da Europa, é a arte que fomen­ta a dis­sen­são, que «tor­na visí­vel o que o con­sen­so domi­nan­te ten­de a obs­cu­re­cer e a obli­te­rar».

Todos somos capa­zes de pra­ti­car esta arte crí­ti­ca e mui­tos de nós estão já a fazê-​lo. Foi uma cami­nha­da de artis­tas que, há dias, des­ceu a Avenida da Liberdade…

Rui Eduardo Paes

­Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?