Aos 80 anos, Leonardo Cohen lan­çou um novo dis­co. O can­tor cana­di­a­no viu-​se obri­ga­do a aban­do­nar a reclu­são monás­ti­ca dos últi­mos anos e regres­sar à pro­du­ção dis­co­grá­fi­ca: uma fal­ca­trua finan­cei­ra da sua anti­ga mana­ger, Kelley Lynch, deixou-​o pra­ti­ca­men­te sem dinhei­ro.

De uma for­ma per­ver­sa, a viga­ris­ta Kelley aca­bou por fazer um favor ao mun­do - ao mun­do daque­les que às altas horas da noi­te gos­tam de sentar-​se no sofá, esti­car as per­nas, abrir um livro e ouvir a voz de tro­vão de Leonard Cohen com a chu­va que cai lá fora.

Cohen é um dos meus «guilty ple­a­su­res» - bem, uso esta expres­são de for­ma pou­co cor­re­ta: não vejo como alguém pode­ria sentir-​se emba­ra­ça­do por gos­tar de um can­tor com uma voz capaz de estre­me­cer os copos que a músi­ca nos con­vi­da a beber e letras com uma qua­li­da­de que rara­men­te oiço hoje em dia.

Por exem­plo, em «A Street», o quar­to tema do dis­co: «You put on a uni­form To fight the Civil War. You loo­ked so good I didn’t care What side you’re figh­ting for».

Além dis­so, tenho a agradecer-​lhe a auto­ria da com­po­si­ção que o gran­de Jeff Buckley imor­ta­li­zou.

E as mui­tas horas de mar­me­la­da ao som das suas can­ções.

Tem clas­se, o homem. Leonard Cohen pas­sa como um «guilty ple­a­su­re» para alguém como eu por­que estou mais inte­res­sa­do no jazz e no rock, em músi­cas bem esga­lha­das e baru­lhen­tas e ins­tru­men­tais, rit­mos que nada têm a ver com o esti­lo des­li­zan­te de Cohen.

Mas logo à pri­mei­ra fai­xa des­te dis­co - «Popular Problems», que sai­rá ofi­ci­al­men­te a 22 de setem­bro – pare­ce que Leonard Cohen dese­ja colo­car de sobre­a­vi­so tipos como eu: «I'm slowing down the tune. I never liked it fast. You wan­na get the­re soon. I want to get the­re last.»

Bem sei que em cada sala onde uma músi­ca de Cohen toca, exis­te sem­pre uma mulher ao lado, real ou ima­gi­ná­ria, e este «Slow» é malan­dre­co, mas quan­do um talen­to­so cava­lhei­ro de 80 anos nos comu­ni­ca a sua inten­ção de con­du­zir a con­ver­sa ao seu pró­prio rit­mo, deve­mos res­pei­tar.

É como pas­se­ar de bici­cle­ta com o avô: deixava-​o ir à fren­te, a mar­car o rit­mo, por­que o ver­da­dei­ro pra­zer des­se pas­seio era pas­sar­mos uns momen­tos jun­tos.

Sendo assim, meu caro Cohen, vamos lá beber um copo à tua saú­de, às mulhe­res que te ins­pi­ram e às pai­sa­gens reju­ve­nes­ci­das.

Marco Santos

­Marco Santos

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