Deram uma vis­ta de olhos a este vídeo? É músi­ca folk boni­ti­nha, mas vejam e oiçam com mais aten­ção. Há qual­quer coi­sa de estra­nho com a can­to­ra, não há? Uma Sandy Denny cam­pes­tre ela não é.

Apresento-​vos KatieJane Garside, a mais lou­ca mulher do mun­do do rock ‘n’ roll des­de que Lydia Lunch se tor­nou uma mais ou menos res­pei­tá­vel cota. Bem que ela, a KatieJane, já anda nos 40, mas não pare­ce.

KatieJane Garside

E não pare­ce ape­sar de estar a repe­tir um este­reó­ti­po. Tal como aque­les polí­ti­cos que come­ça­ram na UDP e hoje param pelos lados do PSD e do CDS, esta ingle­sa pare­ce estar a tornar-​se cada vez mais «nor­mal». Bom, cada vez qua­se mais nor­mal.

Se a Peaches come­çou na folk e ago­ra está no electro-​clash que­er, a doi­da da KatieJane pode pare­cer que está a seguir os padrões do enve­lhe­ci­men­to, fazen­do temer que, como Lunch, se tor­ne sen­sa­ta.

Mas não é bem assim…

A pri­mei­ra vez que dei por ela foi no iní­cio da déca­da de 1990. A dis­tri­bui­do­ra dis­co­grá­fi­ca em que eu tra­ba­lha­va, a MVM, repre­sen­ta­va a sua ban­da em Portugal. Chamava-​se Daisy Chainsaw.

Aquela era a épo­ca dos disc­mans, e o que eu fazia? Punha os aus­cul­ta­do­res nas ore­lhas, subia o volu­me no máxi­mo e anda­va por aí pedra­do em Daisy Chainsaw.

KatieJane Garside

A músi­ca que fazi­am (oiçam aqui, se faz favor) era um noi­se rock espe­ci­al­men­te bru­tal, ali­nha­do com o pós-​punk e com algu­ma coi­sa do metal e do glam. Aliás, o gui­tar­ris­ta, Crispin Gray de seu nome, cos­tu­ma­va apa­re­cer em pal­co ves­ti­do de mulher e com car­ra­das de maqui­lha­gem.

O melhor mes­mo dos Daisy Chainsaw era a KatieJane, a pre­sen­ça dela, a voz dela, as letras dela. Esgrouviada, hipe­ra­ti­va, des­tra­va­da, his­té­ri­ca, sel­va­gem, exces­si­va, mais pare­cia uma hip­pie em esta­do avan­ça­do de spe­e­do­de­pen­dên­cia.

Estranhamente, apa­ren­ta­va algo de góti­co, ape­sar de não ves­tir de negro. Tinha o cabe­lo em dre­a­dlocks, com flo­res mor­tas, mui­tas flo­res mor­tas, pre­sas a eles. Passava inclu­si­ve a ideia de que não lava­va a cabe­ça.

Usava sem­pre uns ves­ti­dos mui­to finos e flu­tu­an­tes. Nos con­cer­tos, mos­tra­va as cal­ci­nhas com gene­ro­si­da­de q.b., enquan­to as mami­nhas tei­ma­vam em soltar-​se do seu con­fi­na­men­to. Não para­va qui­e­ta: arrastava-​se pelo chão, contorcia-​se sobre uma cadei­ra, sal­ta­va por todo o lado, atirava-​se de cabe­ça para cima do públi­co.

Daisy Chainsaw

Daisy Chainsaw

Quando os Daisy Chainsaw come­ça­vam a con­quis­tar fama, o pro­je­to desfez-​se e KatieJane Garside desa­pa­re­ceu.

Logo se espa­lhou o boa­to de que tinha sido inter­na­da num hos­pi­tal para malu­cos… Nunca tal foi con­fir­ma­do, mas logo ali se esta­be­le­ceu um padrão de com­por­ta­men­to da voca­lis­ta.

Ela está-​se nas tin­tas para coi­sas como a sua car­rei­ra musi­cal e o res­pei­to para com os con­tra­tos que assi­na com as edi­to­ras.

Mas ei-​la que vol­tou à ribal­ta no final da mes­ma déca­da, com outra for­ma­ção que tam­bém con­ta­va com Crispin Gray: Queenadreena. A músi­ca desa­ce­le­rou um boca­di­nho (só um boca­di­nho), ganhou nuan­ces, e o can­to dela tornou-​se mais desen­vol­to. A lou­cu­ra, essa, manteve-​se.

Ora fiquem lá aqui com o regis­to de um con­cer­to intei­ro des­tes Queenadreena, que nun­ca che­ga­ram a con­quis­tar o suces­so dos Daisy Chainsaw ape­sar de toca­rem melhor (o que sig­ni­fi­ca, adi­vi­nha­ram, que a melhor músi­ca não tem obri­ga­to­ri­a­men­te de ser aque­la que é mais bem toca­da).

O pro­je­to manteve-​se duran­te uns sur­pre­en­den­te­men­te lon­gos 10 anos, mas a impa­ci­ên­cia de KatieJane falou mais alto. Começou a fazer outras coi­sas, e desig­na­da­men­te a rea­li­zar fil­mes e a escre­ver his­tó­ri­as de ban­da dese­nha­da. Uma delas, imagine-​se, inti­tu­la­da «Lesions of the Brain».

Foi então (já esta­mos em 2007) que conhe­ceu Chris Whittingham e com ele deu iní­cio ao duo Ruby Throat, aque­le mes­mo que ouvi­mos lá em cima. Um duo de músi­ca folk, sim senhor, mas daque­la folk a que a revis­ta The Wire, bíblia da cri­a­ção musi­cal indie, cha­ma «weird».

Sim, por­que a KatieJane pode estar a parecer-​se mais com o res­to do mun­do, mas nun­ca dei­xa­rá de ser… como dizer… bizar­ra.

Aliás, se ela aca­bou por jun­tar os tra­pi­nhos com o tal Chris, e com este teve dois filhos, não pen­sem que com­pra­ram um andar em Londres. De um bar­co à vela fize­ram o seu lar.

E ago­ra teme-​se pelo futu­ro dos Ruby Throat, pois KatieJane não dá sinal de vida des­de 2012. Ao que pare­ce deci­diu dar a vol­ta ao mun­do na dita embar­ca­ção, desconhecendo-​se o seu para­dei­ro atu­al.

É cla­ro que se vol­tou a cochi­char que ela está nova­men­te em reclu­são psi­quiá­tri­ca, algu­res em Londres, mas a ver­são da via­gem pelos oce­a­nos é mais sim­pá­ti­ca, não acham?

Agora deixem-​me sos­se­ga­do que eu vou veri­fi­car se os Daisy Chainsaw aos ber­ros ain­da me pro­vo­cam esta­dos alte­ra­dos de cons­ci­ên­cia…

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?