Primeiro veio o avi­so de Alvin Toffler, em «The Third Wave» (1980): o desen­vol­vi­men­to da tec­no­lo­gia no sen­ti­do da por­ta­bi­li­da­de e da sua uti­li­za­ção domés­ti­ca ia per­mi­tir que o tra­ba­lho pudes­se ser fei­to em casa e não, neces­sa­ri­a­men­te, num open spa­ce empre­sa­ri­al.

No des­pon­tar da déca­da seguin­te, esta já era uma rea­li­da­de soci­al e eco­nó­mi­ca. Com um com­pu­ta­dor, liga­ção à Internet, um ende­re­ço de email e um tele­fo­ne fixo ou um tele­mó­vel, mui­tos de nós foram man­da­dos dos escri­tó­ri­os para os seus apar­ta­men­tos.

Depois, impôs-​se a pre­ca­ri­e­da­de como for­ma de labo­ra­ção: em vez de empre­gar os seus «cola­bo­ra­do­res» (uma infe­liz desig­na­ção para refe­rir que o assa­la­ri­a­do ape­nas cola­bo­ra, estan­do o núcleo das empre­sas nos seus ser­vi­ços admi­nis­tra­ti­vos e de ges­tão), o sis­te­ma cor­po­ra­ti­vo pas­sou a enco­men­dar ser­vi­ços exter­nos.

Surgia o esta­tu­to de «tra­ba­lha­dor inde­pen­den­te», pre­cá­rio, sem remu­ne­ra­ções men­sais fixas e sem direi­to a sub­sí­dio de desem­pre­go no caso de os «cli­en­tes» se muda­rem para a Tunísia ou para a China.

Finalmente, com a cri­se glo­bal dos sis­te­mas mone­tá­ri­os e dos mer­ca­dos, veio a vul­ga­ri­za­ção do desem­pre­go. Quem tra­ba­lha­va em casa, ficou em casa sem o que fazer. A sua, se ain­da a con­se­gue man­ter, a casa dos pais, se nela havia um can­ti­nho para onde pudes­se vol­tar, ou ape­nas um quar­to alu­ga­do na flo­res­ta de cimen­to.

Enclausuramento

Enclausuramento

Este pro­ces­so que já leva três déca­das con­du­ziu não só a uma refor­mu­la­ção das noções de migra­ção e de espa­ço em meio urba­no, com a físi­ca e prá­ti­ca deli­mi­ta­ção dos mes­mos em ter­mos de qui­ló­me­tros e até metros, como tam­bém a um fenó­me­no de enclau­su­ra­men­to.

Se um tuba­rão obri­ga­do a parar (pre­so numa rede, por exem­plo) mor­re, no ser huma­no a clau­su­ra, seja por tra­ba­lhar no pró­prio local onde dor­me e come, seja por­que não tem tra­ba­lho nem dinhei­ro que lhe per­mi­ta sair além da ombrei­ra da por­ta, tem sido um fac­tor de asso­ci­a­bi­li­da­de e, no limi­te, de lou­cu­ra.

E de lou­cu­ra por­que o pró­prio fecha­men­to min­gua. Começa pelo quar­to e aca­ba den­tro da cabe­ça. São mui­tos já os que vivem no inte­ri­or das suas men­tes, jul­gan­do vogar sem fato de astro­nau­ta em imen­sos cos­mos.

Não ter espa­ço equivale-​se, assim, a ter todo o espa­ço do uni­ver­so…

Acresce que, a estes fato­res de pro­pi­ci­a­ção do enco­lhi­men­to huma­no, e por­que há quem não aguen­te a vio­lên­cia e o stress de viver em soci­e­da­de e de se man­ter «útil» no enqua­dra­men­to de uma eco­no­mia regu­la­da pela com­pe­ti­ção, são cada vez mais aque­les que desis­tem de mover-​se mes­mo poden­do fazê-​lo.

Preferem fechar-​se no seu abri­go a sete cha­ves, tornando-​o numa pri­são volun­tá­ria.

Se no Ocidente ain­da não se reco­nhe­ce a ago­ra­fo­bia como uma doen­ça capi­ta­lis­ta, no Japão identificou-​se esta nova pato­lo­gia com a desig­na­ção Hikikomori, dando-​lhe um mai­or sig­ni­fi­ca­do: a pala­vra é tra­du­zí­vel por Retirada, o que quer dizer tudo.

Retirarmo-​nos é, hoje, o mais radi­cal, o mais revo­lu­ci­o­ná­rio (ou tal­vez o mais rea­ci­o­ná­rio) ges­to que pode haver. É um «não» rotun­do, ain­da que, na mai­or par­te dos casos, tenha sido indu­zi­do e não seja pro­pri­a­men­te um ato de liber­da­de.

Há cada vez mais pes­so­as reti­ra­das no mun­do, Portugal incluí­do. Pessoas que rara­men­te saem de casa, que pro­cu­ram não distanciar-​se dema­si­a­do. Porque se sen­tem inse­gu­ras, alvo de um pos­sí­vel ata­que ou de um desa­li­nha­men­to entró­pi­co do nor­mal fun­ci­o­na­men­to das coi­sas.

É cla­ro que há vári­os tipos de Hikikomori. Os Retirados mais gra­ves são aque­les que se recu­sam a sair da cama ou que levam horas debai­xo do chu­vei­ro. Os que, ape­sar de tudo, ain­da não cor­ta­ram laços com o exte­ri­or «ligam-​se» atra­vés da World Wide Web e das cha­ma­das redes soci­ais.

Mas fazem-​no por­que se tra­ta de uma abs­tra­ção. Na rea­li­da­de vir­tu­al, não há nin­guém nem nada do outro lado. As pes­so­as a quem se pos­sam diri­gir não têm ros­to, não exis­tem. Não são ape­nas os Retirados que se encon­tram nes­sa situ­a­ção: todos nós con­ver­sa­mos con­nos­co mes­mos, den­tro do tea­tro alu­ci­na­tó­rio da Rede neu­ro­nal.

Estes Hikikomori são voyeu­rís­ti­cos, vêem o que está lá fora como um peep show. As exis­tên­ci­as, as roti­nas e até as inti­mi­da­des caught e bus­ted dos outros, aque­les que ain­da «fun­ci­o­nam», são cenas de um fil­me. Com o espe­ta­dor de fora, afas­ta­do e res­guar­da­do.

E não são reais mes­mo que uma rés­tia de razão ten­te con­fir­mar a sua efe­ti­vi­da­de – trata-​se, isso sim, de pro­je­ções ima­gi­ná­ri­as, rea­li­za­das numa inter­zo­ne, uma zona de tran­si­ção.

Micronacionalismo e espaço interior

Simon Sellars

Simon Sellars

A estes peque­ni­nos ter­ri­tó­ri­os psico-​arquitectónicos cha­ma o ensaís­ta Simon Sellars «micro­na­ções». Cada Retirado que se bar­ri­ca na sala-​de-​estar é uma nação.

Para a sua argu­men­ta­ção, Sellars debruçou-​se sobre os roman­ces do escri­tor que pre­viu isto tudo antes que qual­quer outro o fizes­se, o que acon­te­ceu des­de a déca­da de 1960: J.G. Ballard.

Esse mes­mo, o autor de fic­ção cien­tí­fi­ca (de fac­to, mui­to mais do que des­se géne­ro lite­rá­rio) que David Cronenberg («Crash») e Steven Spielberg («Empire of the Sun») trans­pu­se­ram para o cine­ma. O meni­no inglês de Xangai que Hirohito meteu num cam­po de con­cen­tra­ção e que, já adul­to, expe­ri­men­ta­ria majes­to­sas ere­ções ao obser­var os cor­pos estro­pi­a­dos que emer­gi­am das cha­pas retor­ci­das de bru­tais aci­den­tes de auto­mó­vel.

Tinha mes­mo de ser um fic­ci­o­nis­ta a fazê-​lo, e não um soció­lo­go, um psi­có­lo­go, um neu­ro­lo­gis­ta, um eco­no­mis­ta, um filó­so­fo ou um pen­sa­dor polí­ti­co. Só vê quem olha para mais lon­ge, quem fan­ta­sia.

J.G. Ballard

J.G. Ballard

Em pro­sas como «Thirteen to Centaurus», «The Ultimate City», «Running Wild», «Rushing to Paradise», «Kingdom Come» e outras tan­tas, Ballard foi cons­truin­do o que Marc Augé desig­nou por «antro­po­lo­gia da pro­xi­mi­da­de». Não-​espaços sub­me­ti­dos à indi­vi­du­a­li­da­de soli­tá­ria…

O cer­to é que mes­mo os estu­di­o­sos da obra de Ballard não com­pre­en­de­ram as impli­ca­ções da con­di­ção Hikikomori tan­to quan­to o pró­prio. A cha­ve para enten­der o micro­na­ci­o­na­lis­mo bal­lar­di­a­no está no seu con­cei­to de «espa­ço inte­ri­or», um lugar que esca­pa a todas as lógi­cas que a teo­ria da rela­ti­vi­da­de de Einstein pro­cu­rou expli­car.

Uma casa fecha­da não é mais do que a ante­câ­ma­ra de um casu­lo men­tal. Este mudo enlou­que­ci­men­to Cronenberg e Spielberg nun­ca pode­ri­am fil­mar. O que há a ver só pode ser vis­to por den­tro.

Nesse «uni­ver­so para­do­xal, o sonho e a rea­li­da­de fundem-​se um no outro, e se cada um retém a sua qua­li­da­de dis­tin­ti­va, de algum modo assu­me o papel do seu opos­to, de modo que o negro é simul­ta­ne­a­men­te bran­co», escre­veu J.G. Ballard, o visi­o­ná­rio da catás­tro­fe.

Nota final

Como não podia dei­xar de ser, há uma músi­ca Ballard e até uma músi­ca Hikikomori. Na área da pop e do rock encontram-​na no «Closer» dos depres­si­vos Joy Division, em «High Rise» dos pedra­dís­si­mos Hawkwind,  em «Miss the Girl» dos Creatures de Siouxsie Sioux, em «Video Killed the Radio Star» e «Vermillion Sands» de The Buggles e em «Down in the Park» de Gary Numan, entre outros casos que vão de John Foxx até Madonna.

E a par­tir de 21 de Fevereiro tere­mos mais duas obras bal­lar­di­a­nas, des­ta fei­ta nos domí­ni­os do expe­ri­men­ta­lis­mo ele­tro­a­cús­ti­co. São lan­ça­dos, numa edi­ção con­jun­ta Soopa/​Fundação de Serralves, o CD «Irregular Characters» de Marc Behrens e o DVD «Mundo de Cristal, Máquina da Selva», de Jonathan UIiel Saldanha. Em ambos os casos resul­tan­do de par­ti­ci­pa­ções num ciclo dedi­ca­do por Serralves, em 2010, ao escri­tor.

Refugiem-​se nos vos­sos lares, se não têm outra hipó­te­se, mas oiçam e vejam o que aqui vai. O dis­co do músi­co ale­mão resi­den­te no Porto inclui um boo­klet com uma série de boas his­tó­ri­as de sua auto­ria, com per­so­na­gens à Ballard.

Rui Eduardo Paes

­Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?