Nada como a mor­te nos con­fron­ta com o peso da rea­li­da­de. Mas assim não acon­te­ce com o pas­sa­men­to, esta noi­te, do mai­or mitó­lo­go da con­tem­po­ra­nei­da­de, do homem que, pela extre­ma tea­tra­li­za­ção da músi­ca, rou­bou esta à vul­ga­ri­da­de do quo­ti­di­a­no.

David Bowie não podia sim­ples­men­te mor­rer. Ele tinha de ence­nar o seu pró­prio desa­pa­re­ci­men­to, tinha de fazer com que este não fos­se enten­di­do como algo de natu­ral.

Foi isso que rea­li­zou acer­tan­do a saí­da do seu novo dis­co – um dis­co que já tínha­mos como espe­ci­al, ain­da que não sou­bés­se­mos exa­ta­men­te porquê – com o últi­mo sus­pi­ro que deu na Terra.

Ficámos cien­tes nas pri­mei­ras horas des­ta manhã que «Blackstar» é o gol­pe de mes­tre de um fic­ci­o­nis­ta geni­al. O «grand ges­tu­re» do mago do arti­fí­cio, do «estra­nho» que tive­mos nes­ta «ter­ra estra­nha», cor­po­ri­zan­do o que come­çou por ser ape­nas uma figu­ra na ima­gi­na­ção de Robert Heinlein.

Mick Rock

Bowie maquilha-​se antes de um con­cer­to em Aberdeen, Escócia, a 16 de maio de 1973. | Foto: Mick Rock

Bem sei que as mil e uma per­so­na­gens de Bowie foram a sua manei­ra de exor­ci­zar a esqui­zo­fre­nia que gras­sa­va na famí­lia e que ele temia que tam­bém o afe­tas­se. A lou­cu­ra é outra medi­da da rea­li­da­de, e para a ilu­dir o que fez foi fingi-​la e levá-​la para o pal­co. Mas não impor­ta: só o pal­co exis­te.

Inventou a maté­ria de um sonho e manteve-​o vivo duran­te déca­das, qual Orlando que podía­mos ver e ouvir, mais cer­to que o de Virginia Wolf, mas incor­rup­tí­vel pelo tem­po e pela doen­ça.

O Major Tom via­jou na sua nave para a estre­la negra – é tão sim­ples quan­to isso. Afinal, esta «mor­te» esta­va anun­ci­a­da, e foi-​o há mui­to por Ziggy Stardust.

My death waits like an old roue’ /​ So con­fi­dent, I’ll go his way /​ Whistle to him and the pas­sing time /​ My death waits like a Bible truth /​ At the fune­ral of my youth (…)

O fune­ral da juven­tu­de dele e o fune­ral da minha juven­tu­de. David Bowie sou eu. Morri hoje de madru­ga­da. Na minha cabe­ça.

Deixem-​me cho­rar só um boca­di­nho, como se esta notí­cia fos­se mes­mo ver­da­de. Não é e isso lhe devo: ter a per­ce­ção de que o que é e o que acon­te­ce, não é real­men­te, e não acon­te­ce.

Angel or devil, I don’t care /​ For in front of that door… /​ There is you.

Adeus, Ziggy

Rui Eduardo Paes

­Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?