A Terra está a defi­nhar, cada vez mais esté­ril e poei­ren­ta, como Marte; a Humanidade, à bei­ra da extin­ção pela fome. Ainda assim, vá lá, ain­da dá para beber umas cer­ve­jas e ver um jogo de base­bol – nem tudo é mau no fim do mun­do.

Um pai tem de aban­do­nar os filhos meno­res, embar­car numa mis­são inte­res­te­lar, cor­tar cami­nho atra­vés de um bura­co de ver­me e des­co­brir novos pla­ne­tas sus­ce­tí­veis de sus­ten­tar vida huma­na e sal­var a espé­cie.

Segundo o físi­co inter­pre­ta­do por Michael Caine, «se não pode­mos sal­var a Terra, temos de a aban­do­nar.» Certíssimo, senhor Caine. O mes­mo se pode dizer em rela­ção aos fil­mes: se não há nada que os sal­ve, o melhor é sair da sala. Mas eu fiquei para os efei­tos espe­ci­ais e jus­ti­fi­car o pre­ço do bilhe­te. E este post.

O que não gostei no filme

Interstellar

Nem é pela ques­tão da plau­si­bi­li­da­de: estou dis­pos­to a esque­cer que a NASA – uma orga­ni­za­ção clan­des­ti­na num mun­do ator­men­ta­do pela fome glo­bal, tão aves­so à explo­ra­ção que ensi­na nas esco­las que as mis­sões Apollo foram uma far­sa para levar os sovié­ti­cos à ban­car­ro­ta – tem ago­ra mais dinhei­ro para mis­sões inte­res­te­la­res atra­vés de bura­cos de ver­me do que a pres­ti­gi­a­da NASA para levar seres huma­nos a Marte.

Também estou dis­pos­to a acei­tar que um exo­pla­ne­ta orbi­tan­do um bura­co negro não se des­faz em peda­ços devi­do à for­ça de maré da gra­vi­da­de.

Não estou a embir­rar. Tenho aqui uma pilha de livros de divul­ga­ção cien­tí­fi­ca que não me dei­xam men­tir. Eu sei tudo o que há para saber sobre bura­cos negros… menos aque­la par­te das equa­ções!

Mais a sério: não é pela Ciência que um fil­me de fic­ção cien­tí­fi­ca se espa­lha ao com­pri­do, é pela ausên­cia de um argu­men­to decen­te. E de per­so­na­gens cre­dí­veis. E de diá­lo­gos menos mono­lí­ti­cos.

Interstellar

Alguma pre­pa­ra­ção é neces­sá­ria antes de ver o novo de Christopher Nolan. Não me refi­ro ao estu­do de bura­cos negros, bura­cos de ver­me, dila­ta­ção do Tempo pro­vo­ca­da pela gra­vi­da­de, mecâ­ni­ca quân­ti­ca ou Teoria da Relatividade.

Do que pre­ci­sa­mos para entrar no espí­ri­to de Interstellar é de uma boni­ta can­ção. Eu sugi­ro «Love Is the Seventh Wave», de Sting. «There is a dee­per wave than this/​That you don’t unders­tand», can­ta ele.

Quando a cien­tis­ta – repi­to: cien­tis­ta – inter­pre­ta­da por Anne Hathaway suge­re que «o amor é um arte­fac­to de uma dimen­são supe­ri­or» e «trans­cen­de o Tempo e o Espaço», fiquei à espe­ra que logo a seguir aque­la cari­nha laro­ca come­ças­se a can­tar. Com jei­ti­nho, Interstellar pas­sa­ria a ser um musi­cal «new age» de um Andrew Lloyd Webber e não um fil­me de fic­ção cien­tí­fi­ca.

Não, a per­so­na­gem de Hathaway esta­va mes­mo a falar a sério e a dar óleo à engre­na­gem emo­ci­o­nal da nar­ra­ti­va: Interstellar seguiu via­gem, cru­zan­do o Espaço pol­vi­lha­do de milhões de estre­las ao som de uma ban­da sono­ra que rara­men­te fechou a matra­ca e nos dei­xou apre­ci­ar o silên­cio do Espaço em paz.

Nos pou­cos momen­tos em que Nolan per­mi­tiu que o silên­cio nos envol­ves­se, foi mara­vi­lho­so. Um alí­vio seme­lhan­te ao que um tipo deve sen­tir quan­do dei­xa de dar cabe­ça­das na pare­de.

Kubrick ofereceu-​nos uma cri­an­ça cós­mi­ca para nos dei­xar os neu­ró­ni­os a dan­çar, Nolan uma ado­rá­vel velho­ta para nos fazer per­gun­tar quan­to tem­po fal­ta até levan­tar o rabo da cadei­ra. Ah, a dila­ta­ção do tem­po. Os mis­té­ri­os da gra­vi­da­de. Como fazer com que duas horas e 47 minu­tos pare­çam seis. Ou um rabo pare­ça pesar dez vezes mais sem sair do Sistema Solar.

Em Interstellar, o nos­so per­so­na­gem prin­ci­pal atra­ves­sa bura­cos de ver­me, bura­cos negros e pro­cu­ra resol­ver um mis­té­rio que atra­ves­sa as dimen­sões do Espaço e do Tempo, acrescentando-​lhe mais uma e ligan­do a sua pró­pria exis­tên­cia e a da filha ama­da ao des­ti­no da Humanidade. O com­pas­so dese­nha, por fim, um cír­cu­lo. Não pos­so reve­lar mui­to esta extra­va­gân­cia – os spoi­lers!

É como um explo­ra­dor à pro­cu­ra de des­co­brir uma men­sa­gem com os inde­ci­frá­veis segre­dos do fil­me para depois, mui­tos anos depois, che­gar ao fim da exte­nu­an­te aven­tu­ra e deparar-​se com uma men­sa­gem que diz o seguin­te: «Não te esque­ças de levar o casa­co, está frio lá fora». Foi assim que me sen­ti com a «reve­la­ção» final da his­tó­ria.

O que gostei no filme

Interstellar

Interstellar não é sem­pre ridí­cu­lo, tem alguns momen­tos bons.

Nolan pode escre­ver diá­lo­gos com alma de buro­cra­ta, mas a ence­nar espe­tá­cu­los é um mes­tre dig­no de Spielberg. Quando é que ele arran­ja um argu­men­tis­ta a sério que sai­ba estar à altu­ra das suas ambi­ções?

Como é óbvio num fil­me com um orça­men­to extra­or­di­ná­rio, os efei­tos visu­ais são extra­or­di­ná­ri­os. Numa sequên­cia espa­ci­al – infe­liz­men­te bre­ve – vemos a nave pas­san­do dian­te de Saturno: fiquei com­ple­ta­men­te des­lum­bra­do. As sequên­ci­as no bura­co negro e no bura­co de ver­me são outro rega­lo para os olhos. Os exo­pla­ne­tas. A onda mon­ta­nho­sa. As nuvens de gelo. Uma aco­pla­gem. Tudo isto é uma mara­vi­lha de se ver.

O per­so­na­gem mais espi­ri­tu­o­so de Interstellar não é huma­no, mas um robô cha­ma­do TARS.

TARS lem­bra um monó­li­to com per­nas. As carac­te­rís­ti­cas da sua per­so­na­li­da­de são pro­gra­ma­das em per­cen­ta­gens: 90 por cen­to de hones­ti­da­de, 85 por cen­to de sen­ti­do de humor, por aí fora.

Se os dois astro­nau­tas que acom­pa­nham Cooper e Amelia fos­sem robôs como o TARS, ter-​lhes-​ia mexi­do na pro­gra­ma­ção e redu­zi­do os níveis peda­gó­gi­cos de 75 para, vá lá, 10 ou 5 por cen­to.

Personagens que estão sem­pre pre­o­cu­pa­dos em saber se esta­rei a per­ce­ber o enre­do são mui­to sim­pá­ti­cos e pres­tá­veis, mas aca­bam por abor­re­cer. Tanta é a pre­o­cu­pa­ção que até expli­cam ao pobre Cooper, o pilo­to da nave e o melhor da NASA, o que é via­jar num bura­co de ver­me – conhe­ci­men­to que um homem com a sua posi­ção e res­pon­sa­bi­li­da­de deve saber tão bem como qual­quer outro naque­la nave.

Cooper até podia sentir-​se ofen­di­do e enxo­tar os cha­tos – mas ele é com­pre­en­si­vo, sabe que a vida de per­so­na­gens com uma úni­ca fun­ci­o­na­li­da­de nem sem­pre é fácil e vai ouvin­do edu­ca­da­men­te as expli­ca­ções.

São pro­va­vel­men­te agen­tes espe­ci­ais plan­ta­dos den­tro do fil­me para pro­te­ger o inves­ti­men­to de 160 milhões de dóla­res, não vá o Nolan passar-​se, pen­sar que é o Kubrick e estra­gar o Interstellar com 99 por cen­to de metá­fo­ras visu­ais e 1 por cen­to de expo­si­ção.

Mas o robô mono­lí­ti­co é ine­ga­vel­men­te fixe. Quando é apre­sen­ta­do a Cooper, o TARS em «modo 85 por cen­to de humor» diz qual­quer coi­sa como Olá, eu sou o com­pu­ta­dor que te vai pren­der lá fora na esco­ti­lha espa­ci­al – uma pia­da óbvia ao HAL9000 de «2001: Odisseia no Espaço» que Cooper não pare­ce ter apre­ci­a­do mui­to, pois res­pon­deu à máqui­na reduzindo-​lhe a per­cen­ta­gem de humor. Que pena.

A melhor cena em Interstellar não tem efei­tos espe­ci­ais, mas resul­ta de um exce­len­te momen­to de um ator que já me habi­tu­ou a exce­len­tes momen­tos des­de «True Detective»: con­fron­ta­do com o fenó­me­no da dila­ta­ção do Tempo depois de pas­sar vári­as horas num pla­ne­ta per­to de um bura­co negro, o per­so­na­gem de Matthew McConaughey regres­sa à nave-​mãe saben­do que, no espa­ço «nor­mal», pas­sa­ram 23 anos.

As expres­sões de dor, fas­cí­nio, encan­to e deses­pe­ro quan­do rece­be as men­sa­gens dos filhos, ago­ra adul­tos, valem uns 70 por cen­to do pre­ço do bilhe­te. E fiquei com uma lágri­ma mui­to genuí­na ao can­to do olho, pois a cena é como­ven­te.

Cooper está aqui em modo 100 por cen­to huma­no: nada pode fazer para alte­rar as leis da Natureza ou mol­dar a imen­si­dão do Cosmos aos seus dese­jos, por mais que ame ou sofra.


Tanta con­ver­sa sobre explo­ra­ção espa­ci­al e afi­nal o fil­me nun­ca explo­ra o sufi­ci­en­te: só quer vol­tar a casa e dizer-​nos que o teci­do do Espaço-​Tempo é o len­ço onde seca­mos as nos­sas lágri­mas. Lamento, Nolan, mas o Universo é enor­me e nós não somos assim tão impor­tan­tes.

Marco Santos

­ Marco Santos

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