Os miú­dos não estão habi­tu­a­dos a que me dê uma tra­va­di­nha, mas aba­nar a caro­la, tocar gui­tar­ras invi­sí­veis e empu­nhar baque­tas ima­gi­ná­ri­as fez par­te do seu pro­ces­so de cres­ci­men­to — e do meu.

Quando se tra­ta de Frank Zappa, con­tu­do, já estão habi­tu­a­dos a ver-​me em esta­dos só pos­sí­veis de alcan­çar medi­an­te a uti­li­za­ção de subs­tân­ci­as não apro­va­das para uso médi­co: olham para mim, reco­nhe­cem que o esta­do febril se deve ao gue­de­lhu­do da gui­tar­ra e aba­nam a cabe­ça, meio cons­ter­na­dos, como o Obelix quan­do fala dos roma­nos.

Mas des­ta vez tive toda a razão em gri­tar como se o Benfica tives­se mar­ca­do um golo. Há mui­tos anos que se sabia que os con­cer­tos dados no Roxy Theater em Hollywood, entre 8 e dez de dezem­bro de 1973, tinham sido fil­ma­dos para a pos­te­ri­da­de.

Destes con­cer­tos resul­ta­ra um dis­co pri­mo­ro­so — «Roxy & Elsewhere» — e mais uns temas espa­lha­dos nou­tros álbuns. Este é o perío­do duran­te o qual a músi­ca de Zappa foi mais bem ser­vi­da. A pos­si­bi­li­da­de de ver George Duke, Napoleon Murphy Brock, Tom Fowler, Bruce Fowler, Ruth Underwood, Chester Thompson e Ralph Humphrey a atu­ar com o mes­tre naque­les memo­rá­veis con­cer­tos era o que de mais seme­lhan­te havia entre os fãs à incan­sá­vel bus­ca pelo Santo Graal.

Frank Zappa

Depois de mui­tos anos de espe­ra devi­do aos inú­me­ros pro­ble­mas téc­ni­cos pro­vo­ca­dos por gra­va­ções com tec­no­lo­gia da déca­da de 70, as mara­vi­lhas do digi­tal per­mi­ti­ram final­men­te mon­tar um fil­me coe­ren­te e per­fei­ta­men­te sin­cro­ni­za­do das atu­a­ções. «Roxy: The Movie» con­sis­te em hora e meia de con­cer­to com uma das mais vir­tu­o­sas e doi­das ban­das do mun­do a tocar o melhor rock que conhe­ço.

Não admi­ra por­tan­to que duran­te a mai­or par­te do tem­po tenha fica­do a sor­rir para a tele­vi­são — o mes­mo tipo de sor­ri­so que se faz quan­do obser­va­mos aque­la rara foto­gra­fia de infân­cia em que acha­mos que até ficá­mos bem. Por outras pala­vras: man­ti­ve a mes­ma cara de par­vo duran­te hora e meia.

Se és fã de Zappa e estás dis­pos­to a visi­tar os sites do demo para sacar o con­cer­to — ou então, de pre­fe­rên­cia, comprá-​lo na Amazon —, prepara-​te para ver a sec­ção rít­mi­ca daque­la ban­da deco­rar o Tempo e o Espaço dos afor­tu­na­dos que lá esti­ve­ram como pou­cas eram capa­zes nes­sa altu­ra e nenhu­ma é capaz hoje.

Imaginem só: pes­so­as a tocar ins­tru­men­tos reais ao vivo, uma ver­da­dei­ra rari­da­de para esta gera­ção de rap­pers a coçar os toma­tes na MTV e de músi­ca pré-​fabricada.

Referi-​me ao esti­lo de músi­ca como «rock» mas, cla­ro, é uma desig­na­ção mui­to redu­to­ra: Zappa foi pro­va­vel­men­te a mai­or espon­ja do sécu­lo XX  e não pare­ce ter exis­ti­do um esti­lo de músi­ca que o homem não tenha absor­vi­do e tor­na­do seu.

A músi­ca de Zappa é tão espe­ci­al para mim por­que me puxa, às vezes no mes­mo tema, pelos meus qua­tro pon­tos car­di­ais musi­cais: jazz, rock, músi­ca clás­si­ca con­tem­po­râ­nea e blu­es, que é o meu fado.

Puxar por tan­tos esti­los ao mes­mo tem­po é sufi­ci­en­te para dei­xar o cor­pi­nho à nora com tan­ta ati­vi­da­de. E assim se jus­ti­fi­ca a for­ma desen­gon­ça­da e caó­ti­ca como os sor­tu­dos que foram ao con­cer­to dan­ça­ram ao som daque­la músi­ca. Sou dema­si­a­do enver­go­nha­do para subir ao pal­co, como alguns fize­ram com a coni­vên­cia do conhe­ci­do lado pan­to­mi­nei­ro do Zappa, mas identifico-​me bem com o fre­ne­sim.

E ago­ra que a épi­ca bus­ca pelo Santo Graal zap­pa­nói­co final­men­te ter­mi­nou para mim, estou aqui, meus caros Cavaleiros da Pauta Redonda, para par­ti­lhar umas gotas do cáli­ce sagra­do da boa músi­ca. Ámen e que o pen­ta­gra­ma este­ja con­vos­co.

Marco Santos

­Marco Santos

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