Depois de ver «Ex Machina» - um fil­me inglês de fic­ção cien­tí­fi­ca, a estreia do argu­men­tis­ta Alex Garland como rea­li­za­dor – per­ce­bo por que razão HAL 9000 não triun­fou sobre o astro­nau­ta David Bowman no fil­me «2001: Odisseia no Espaço».

HAL 9000 era esper­to, mas não era mui­to sedu­tor.

Sabia gerir uma nave espa­ci­al sozi­nho, mas não tinha uma cara boni­ta, capaz de sor­rir. Na ver­da­de, o ros­to era a len­te aver­me­lha­da da câma­ra atra­vés da qual inte­ra­gia com os huma­nos (e os vigi­a­va).

A pre­sen­ça físi­ca do com­pu­ta­dor de «2001» resumia-​se à voz mas­cu­li­na de Douglas Rain, boni­ta e agra­dá­vel, mas tão desa­pai­xo­na­da como um apre­sen­ta­dor de bole­tins mete­o­ro­ló­gi­cos a men­ci­o­nar valo­res médi­os de pre­ci­pi­ta­ção pela ené­si­ma vez.

O robô ama-​te. Pode ser perigoso

Nos tem­pos de «2001», a Ficção Científica temia os com­pu­ta­do­res mais pela inte­li­gên­cia do que pela huma­ni­da­de. HAL 9000 era tão pode­ro­so inte­lec­tu­al­men­te como 1 milhão de seres huma­nos, mas não podia «ser» como nós – nun­ca pode­ria expe­ri­men­tar genui­na­men­te os nos­sos sen­ti­men­tos ou surpreender-​nos com um ímpe­to de cri­a­ti­vi­da­de.

«Ex Machina» tem outras pre­o­cu­pa­ções.

E este tex­to tem alguns spoi­lers. Atenção!

E se a Inteligência Artificial (IA) um dia for capaz de pos­suir as capa­ci­da­des inte­lec­tu­ais de um HAL 9000 e, ao mes­mo tem­po, emocionar-​se, sen­tir empa­tia, apaixonar-​se pela vida, temer a mor­te, filo­so­far, amar, em suma, pos­suir as mes­ma carac­te­rís­ti­cas que nos fazem sen­tir cri­a­ções espe­ci­ais no Universo? Aí já não sería­mos neces­sá­ri­os, mes­mo pelos nos­sos pró­pri­os padrões.

Se esse HAL 9000 huma­ni­za­do for exte­ri­or­men­te uma bela mulher e o Dave Bowman da his­tó­ria um nerd hete­ros­se­xu­al soli­tá­rio, de bom cora­ção mas sem namo­ra­da ou famí­lia, então a raça huma­na não tem qual­quer hipó­te­se: será sedu­zi­da até ao desa­pa­re­ci­men­to. Por outras pala­vras: o nos­so Dave Bowman em ver­são nerd fica­rá para sem­pre pre­so na cáp­su­la espa­ci­al.

«Ex Machina», uma pro­du­ção ingle­sa, não é uma obra-​prima e mui­to menos uma peça mui­to ori­gi­nal, mas é fic­ção cien­tí­fi­ca que pou­cas vezes se vê nas salas de cine­ma. Tem inte­li­gên­cia e caris­ma, mes­mo quan­do come­ça­mos a per­ce­ber o que vai acon­te­cer. A músi­ca é boa. Os cená­ri­os são high-​tech e o androi­de está bem fei­to – sobre­tu­do os sons que faz ao mover-​se –, mas o fil­me está mais aten­to às idei­as que pro­cu­ra trans­mi­tir do que em mon­tar um fes­ti­val de efei­tos espe­ci­ais.

Nerds, geeks, todos os que se inte­res­sam por assun­tos de tec­no­lo­gia, pes­so­as sen­sí­veis a ques­tões que envol­vem a IA, o que pode­re­mos fazer com ela e o que ela nos pode­rá fazer, vão gos­tar des­te fil­me ou pelo menos ficar inte­res­sa­dos até ao fim. Talvez o apre­ci­em mais do que, por exem­plo, ao pri­mo afas­ta­do de «Ex Machina», «Her».

Oscar Isaac e Domhnall Gleeson

Oscar Isaac e Domhnall Gleeson

É um fil­me «para­do» pelos padrões dos pipo­quei­ros de cine­ma, mas os que pro­cu­ram mais do que mero entre­te­ni­men­to explo­si­vo logo per­ce­bem que toda a ação se con­cen­tra na inte­ra­ção entre os três per­so­na­gens prin­ci­pais:

o refe­ri­do nerd (Domhnall Gleeson, que os fãs da série «The Black Mirror» reco­nhe­ce­rão logo); o génio cri­a­dor do pro­tó­ti­po e dono do mai­or motor de pes­qui­sa do mun­do, Bluebook, o Google des­te uni­ver­so (o exce­len­te Oscar Isaac, que entra­rá em «Star Wars: The Force Awakens»); o androi­de da his­tó­ria (a sue­ca Alicia Vikander, que gere a ambi­gui­da­de da per­so­na­gem com tan­ta mes­tria que o fil­me não teria resul­ta­do sem a sua inter­pre­ta­ção).

Digo que este fil­me não é um por­ten­to de ori­gi­na­li­da­de por­que as influên­ci­as de «Blade Runner» ou mes­mo «Her» estão bem pre­sen­tes na rela­ção que se esta­be­le­ce entre o nerd e a bela androi­de. Não são for­ço­sa­men­te más, estas sen­sa­ções de déjà vu, pois para mim é como escu­tar o eco dos Led Zeppelin nas can­ções do Jack White, por exem­plo.

Como incu­rá­veis e român­ti­cos espec­ta­do­res da espé­cie huma­na, esta­mos sem­pre à espe­ra que a huma­ni­za­ção do robô se faça pela for­ça do amor, e não há dúvi­da de que «Ex Machina» tira par­ti­do des­ta expec­ta­ti­va. E a joga­da torna-​se tão óbvia que o «twist» final não é mui­to sur­pre­en­den­te.

Mas vale a pena e dá que pen­sar. Afinal de con­tas, até um mes­tre mun­di­al do xadrez, Garry Kasparov, per­deu uma par­ti­da com o com­pu­ta­dor Deep Blue. Como se pode­rá defen­der um pobre nerd quan­do o cora­ção entra em curto-​circuito?

Marco Santos

­Marco Santos

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