Este vídeo é de uma par­te de «World Dog», pro­je­to assi­na­do pelo cole­ti­vo ele­tro­a­cús­ti­co Zalizome. Trata-​se de uma mis­tu­ra de ele­tró­ni­ca expe­ri­men­tal, psi­ca­de­lis­mo, drum ‘n’ bass, dro­nes com­pu­ta­do­ri­za­dos e jazz (ten­tem dizer isto mui­to depres­sa, que fica­rão tão can­sa­dos como eu fiquei a teclar).

Com ele­men­tos da músi­ca tra­di­ci­o­nal gre­ga e da ópe­ra bar­ro­ca (sim, havia mais a acres­cen­tar) e com uma voz de carac­te­rís­ti­cas mui­to par­ti­cu­la­res: a de Labros Filippou, can­tor que é tam­bém ator e per­for­mer. Repararam no regis­to vocal de Filippou? Este é o que vul­gar­men­te se cha­ma um «con­tra­te­nor».

Ou seja, um can­tor mas­cu­li­no que con­se­gue che­gar a notas mui­to agu­das, aque­las que carac­te­ri­zam a voz femi­ni­na. Só que as coi­sas não são assim tão sim­ples (se fos­sem, para que esta­ria eu a escre­ver isto?) …

A tra­di­ção con­tra­te­no­rís­ti­ca (uau, inven­tei uma pala­vra!) vem da músi­ca anti­ga e atra­ves­sou os sécu­los, mas mes­mo nos domí­ni­os do cha­ma­do clas­si­cis­mo tem mui­to que se lhe diga. Muitos dos con­tra­te­no­res não são con­tra­te­no­res. Mais: os ver­da­dei­ros são mui­to, mui­to, mui­to raros.

Falso, falseto

Bejun Mehta

Bejun Mehta

«Sento la Gioia» é um exem­plo his­tó­ri­co de uma com­po­si­ção escri­ta para esta tipo­lo­gia do can­to. Ouvimo-​la na inter­pre­ta­ção de um dos mais con­cei­tu­a­dos artis­tas da atu­a­li­da­de, Bejun Mehta.

Bonito, não é? Só que, tal como Filippou, Mehta é, não pro­pri­a­men­te um con­tra­te­nor, mas um fal­se­tis­ta. Outro ter­mo giro: no meu lap­top, que tem o cor­re­tor liga­do, surge-​me subli­nha­do a ver­me­lho.

É atra­vés do domí­nio das téc­ni­cas de fal­se­to que um barí­to­no con­se­gue che­gar a alto e um tenor a sopra­no. Os «con­tra­te­no­res» são, na sua mai­or par­te, barí­to­nos ou teno­res. Ou seja, trata-​se de um arti­fí­cio, um fal­se­a­men­to das capa­ci­da­des natu­rais des­tes artis­tas.

Substituíram a sua «voz de pei­to» por uma «voz de cabe­ça», mudan­do a área de vibra­ção da voz de um pon­to ana­tó­mi­co para outro… Experimentem lá, pri­mei­ro com a vos­sa voz nor­mal e depois esganiçando-​a.

Os autên­ti­cos con­tra­te­no­res são-​no devi­do a espe­ci­ais cir­cuns­tân­ci­as: os seus apa­re­lhos vocais não se desen­vol­ve­ram des­de a infân­cia, seja por defi­ci­ên­cia endo­cri­no­ló­gi­ca ou por outro moti­vo clí­ni­co. Só esses têm vozes modais, de pei­to. Exemplo? O de Radu Marian.

Como o con­se­gue? O seu orga­nis­mo não pro­duz sufi­ci­en­te tes­tos­te­ro­na, a hor­mo­na que defi­ne a mas­cu­li­ni­da­de. Tecnicamente, Marian é um «cas­tra­to», ain­da que a natu­re­za o tenha equi­pa­do com um par de tes­tí­cu­los.

Outro caso é o de Michael Maniaci, mas este por­que sofre de uma para­li­sia mus­cu­lar em meta­de do ros­to. Não é mui­to óbvia à vis­ta, mas afectou-​lhe a larin­ge e deu-​lhe a capa­ci­da­de de can­tar como uma sopra­no femi­ni­na. Tentem não se rir, está bem? Isto é arte, caram­ba.

Sabemos como a his­tó­ria da músi­ca foi bene­fi­ci­an­do das carac­te­rís­ti­cas par­ti­cu­la­res de cada indi­ví­duo. Provavelmente, a gui­tar­ra do jazz e do rock não soa­ria como soa se a Django Reinhardt e a Tony Iommi (Black Sabbath) não fal­tas­sem dois dedos (se os jun­tar­mos: qua­tro).

Crime e castigo

E no entan­to, tudo se fez para que a rea­li­da­de cor­res­pon­des­se a mode­los esta­be­le­ci­dos à for­ça. Quando a Igreja Católica proi­biu, no perío­do renas­cen­tis­ta, que as mulhe­res – essas mal­di­tas – inter­pre­tas­sem músi­ca sacra, fez com que os já cres­ci­dos meni­nos dos coros lhes ocu­pas­sem o lugar. Como?

É todo um epi­só­dio cri­mi­nal, pro­ta­go­ni­za­do pela Igreja – à seme­lhan­ça de mui­tos outros ao lon­go da his­tó­ria (Inquisição, com­pro­me­ti­men­to com dita­du­ras vári­as, impo­si­ções sobre o uso de con­tra­ce­ti­vos por par­te dos fiéis…)

Pensaram os ecle­siás­ti­cos na sua altís­si­ma cla­ri­vi­dên­cia que, pegan­do num miú­do e castrando-​o, ele man­te­ria a sua voz celes­ti­al. Os pais dei­xa­vam por­que isso era uma garan­tia de ren­di­men­to. A ope­ra­ção era rea­li­za­da por… bar­bei­ros, e regis­tos há de que mui­tas cri­an­ças mor­ri­am esvaí­das em san­gue ou com uma over­do­se de ópio.

Não haven­do sufi­ci­en­tes con­tra­te­no­res por «defi­ci­ên­cia» ou con­di­ção, foi assim que nas­ceu o con­tra­te­no­ris­mo (ora tomem lá outra vez um neo­lo­gis­mo) como padrão. Com uma fal­si­fi­ca­ção cirúr­gi­ca que impe­dia que os jovens se desen­vol­ves­sem como homens adul­tos. Sem toma­tes, os «cas­tra­ti» can­ta­vam como lava­dei­ras.

Depressa ganha­ram fama. Na Itália, intér­pre­tes como Senestrini e Caffarelli eram adu­la­dos. As con­des­sas pro­cu­ra­vam ter casos com essas pri­mei­ras estre­las pop, pen­san­do que ir para a cama com um cas­tra­do não era pro­pri­a­men­te enga­nar os mari­dos. As pilas não lhes cres­ci­am, é cer­to, mas as suas lín­guas ope­rá­ti­cas fazi­am mara­vi­lhas.

Até Casanova se refe­riu a eles como rivais nas suas memó­ri­as…

Os car­de­ais, imbuí­dos des­se mis­té­rio teo­ló­gi­co que é o fas­cí­nio do cato­li­cis­mo pelos glú­te­os dos rapa­zes, podi­am con­ti­nu­ar a pas­tar o seu reba­nho depois de eles ganha­rem um ou outro pêlo (não mui­tos, com cer­te­za).

Pelo seu lado, os duques de peru­ca tre­san­dan­do a pó de tal­co tinham uma des­cul­pa para as suas publi­ca­men­te incon­fes­sá­veis ten­ta­ções: afi­nal, os capa­dos de pele sua­ve não eram real­men­te homens e, para todos os efei­tos, um bura­co é um bura­co.

Todos os com­po­si­to­res que não qui­ses­sem ficar mar­gi­na­li­za­dos escre­ve­ram par­ti­tu­ras para os ditos: Monteverdi, Purcell, Handel e Bach foram os mais notá­veis entre cen­te­nas.

Até que a con­tes­ta­ção da prá­ti­ca «musi­cal» de usar uma faca nas par­tes bai­xas ven­ceu e tomou for­ma de lei. O tal de con­tra­te­no­ris­mo entrou em des­gra­ça e os bar­bei­ros foram obri­ga­dos a usar as suas lâmi­nas ape­nas em cabe­los.

O últi­mo «cas­tra­to», Giovanni Battista Velluti, mor­reu em 1861. Em con­sequên­cia, duran­te pelo menos 150 anos a músi­ca eru­di­ta não quis lidar com tão mal­fa­da­do recur­so. Inclusive, gran­de par­te do reper­tó­rio bar­ro­co ficou nas gave­tas dos con­ser­va­tó­ri­os.

Onde estão eles?

Prince

Prince, o artis­ta ante­ri­or­men­te conhe­ci­do por «Artista ante­ri­or­men­te conhe­ci­do por Prince»

Graças ao fal­se­to, e ape­sar dis­so, a prá­ti­ca foi con­ti­nu­an­do no domí­nio da músi­ca popu­lar.

Bee Gees, Beach Boys, Michael Jackson e Prince, mas tam­bém com­pro­va­dos, ain­da que par­ti­cu­lar­men­te hor­ri­pi­lan­tes, con­tra­te­no­res como Neil Sedaka e Steve Perry terão tido influên­cia na recen­te redes­co­ber­ta das obras arqui­va­das dos sécu­los XVI a XVIII.

Depois de as orques­tras se inte­res­sa­rem pela ópe­ra des­se perío­do, tam­bém os auto­res de músi­ca con­tem­po­râ­nea se dei­xa­ram mara­vi­lhar pelos con­tra­te­no­res, por mais fal­sos que eles fos­sem. Casos de Giacinto Scelsi, Krzystof Penderecki, Gyorgi Ligeti, Alfred Schnittke, Hans Werner Henze, Philip Glass, Salvatore Sciarrino.

Ainda assim, esse tão lon­go alhe­a­men­to da músi­ca de batu­ta impli­ca que mais con­tra­te­no­res haja actu­al­men­te na pop e no rock do que nas suas filei­ras. Mas… onde estão os pro­pri­a­men­te ditos?

Robert Plant

Robert Plant em 1976.

Não, Robert Plant, dos Led Zeppelin, não é um deles. Será, sim, o exem­plo para­dig­má­ti­co do mero fal­se­tis­ta, um des­ses enga­na­do­res que lan­ça­ram a con­fu­são.

Neil Young

Neil Young, dezem­bro de 1969, San Diego | Foto: Henry Diltz

Neil Young não é o con­tra­te­nor que a impren­sa pou­co conhe­ce­do­ra diz ser, por mais que o seu regis­to ana­sa­la­do pare­ça… hmmm… hones­to.

Robert Wyatt

Robert Wyatt foto­gra­fa­do por Richard Saker

Robert Wyatt, então? Népia: o mem­bro dos Soft Machine que dei­xou de tocar bate­ria depois de ter caí­do de uma varan­da e ficar con­fi­na­do a uma cadei­ra de rodas não cor­res­pon­de à clas­si­fi­ca­ção.

E de novo não, deci­di­da­men­te: Jimmy Sommerville, do gru­po soci­a­lis­ta gay Bronski Beat, não está igual­men­te incluí­do nes­te nicho de pre­ci­o­si­da­des vocais. Vejam-​no e oiçam-​no numa gra­va­ção em que o encon­tra­mos já entra­do­te, sem o aspe­to de frá­gil rapa­ri­go que tinha na déca­da de 1980.

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso pro­mo­ven­do a digres­são «Atento aos Sinais», em 2014

Outro hábil domi­na­dor do fal­se­to é o can­tor andró­gi­no Ney Matogrosso. Espantou o Brasil quan­do sur­giu nos anos 70 com os Secos & Molhados, mas o cer­to é que não fala como can­ta. Fala mais gra­ve.

Uma «cover» de uma velha canção de Leonard Cohen – «Hallelujah» – que ajuda a torná-lo mais conhecido.

Desculpem lá, mas até Jeff Buckley, um oca­si­o­nal e notá­vel sopra­nis­ta, não cabe na cate­go­ria. O infe­liz­men­te desa­pa­re­ci­do músi­co tinha era uma extra­or­di­ná­ria exten­são de voz (tenor) que cobria qua­tro oita­vas.

Nem sequer Antony Hegarty (Antony & The Johnsons) é um con­tra­te­nor, ape­sar da sua capa­ci­da­de, inco­mum entre fal­se­tis­tas, para uti­li­zar vibra­to. E porém… é um trans-​género, na zona inde­ci­sa entre homem e mulher.

Em que fica­mos? Foi a fin­gir que se deu o revi­va­lis­mo «haute-​contre»? Bom, deixo-​vos a matu­tar no assun­to com uma de mui­tas ane­do­tas, em for­ma de adi­vi­nha, sobre aque­les que cul­ti­vam o fal­se­to. É assim…

Quantos con­tra­te­no­res são neces­sá­ri­os para mudar uma lâm­pa­da no tec­to? A res­pos­ta: dois. Um para a colo­car e o outro para lhe dizer «isso não é um boca­di­nho alto para ti?».

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt.