Fiquei mui­to sur­pre­en­di­do quan­do sou­be que «Spotlight» tinha rou­ba­do a esta­tu­e­ta de melhor fil­me a «The Revenant: O Renascido».

Pela sua espe­ta­cu­lar glo­ri­fi­ca­ção da sobre­vi­vên­cia de um ame­ri­ca­no em luta com o poder impla­cá­vel da Natureza, «The Revenant» está mais pen­sa­do para rece­ber o bri­lho dos holo­fo­tes do que o fil­me «Spotlight» pro­pri­a­men­te dito.

Rachel McAdams, Mark Ruffalo, Brian d'Arcy James, Michael Keaton e John Slattery

Rachel McAdams, Mark Ruffalo, Brian d'Arcy James, Michael Keaton e John Slattery: o rea­li­za­dor e co-​argumentista Tom McCarthy sabe como tirar o melhor par­ti­do dos seus ato­res.

Ter con­quis­ta­do o Óscar de melhor fil­me é ape­nas um dos mila­gres de «Spotlight». O outro é o mila­gre da con­ten­ção.

«Spotlight» é uma rolha a flu­tu­ar no mar: por mais agi­ta­das que se tor­nem as ondas por onde nave­ga, con­se­gue sem­pre manter-​se à tona.

Havia mui­tas for­mas de afun­dar um fil­me assim: fazê-​lo espa­lha­fa­to­so, sen­sa­ci­o­na­lis­ta, pan­fle­tá­rio ou sabo­tar a natu­re­za de uma inves­ti­ga­ção jor­na­lís­ti­ca tornando-​a gla­mou­ro­sa à manei­ra de Hollywood.

«Spotlight» não cai nes­sas arma­di­lhas. Está dema­si­a­do com­pro­me­ti­do com a expo­si­ção dos fac­tos e em con­tar a his­tó­ria tal como foi vivi­da pelo gru­po de repór­te­res que inves­ti­gou o caso mais impor­tan­te do jor­na­lis­mo norte-​americano des­de Watergate.

E este é um fei­to ain­da mais extra­or­di­ná­rio, ten­do em con­ta que o «mar» por onde a his­tó­ria de «Spotlight» nave­ga agi­ta a cons­ci­ên­cia de todos, a come­çar pela dos cató­li­cos mais devo­tos.

«Spotlight» con­ta a his­tó­ria real dos jor­na­lis­tas do «The Boston Globe» que inves­ti­ga­ram os sis­te­má­ti­cos casos de pedo­fi­lia e abu­sos sexu­ais no inte­ri­or da Igreja e as ten­ta­ti­vas do car­de­al Bernard Law, arce­bis­po de Boston, de aba­far os cri­mes come­ti­dos pelos padres.

O pri­mei­ro arti­go do «The Boston Globe» a denun­ci­ar o escân­da­lo de pedo­fi­lia na Igreja Católica saiu em janei­ro de 2002 — foram publi­ca­dos 600, ao todo. Desde então, o car­de­al Bernard Law foi for­ça­do a demitir-​se, mais de 500 víti­mas de abu­sos sexu­ais apre­sen­ta­ram quei­xas e as doa­ções à arqui­di­o­ce­se de Boston des­ce­ram cer­ca de 50 por cen­to.

O Diabo está nos detalhes

«Spotlight» come­ça de for­ma ousa­da: não nos diz que o fil­me se baseia em casos verí­di­cos, mas em casos «atu­ais». E Deus sabe como tem razão.

Stanley Tucci

Stanley Tucci, um dos gran­des ato­res do cine­ma ame­ri­ca­no, e Mark Ruffalo.

À data em que os jor­na­lis­tas ini­ci­a­ram a inves­ti­ga­ção, os casos de pedo­fi­lia na Igreja Católica, embo­ra conhe­ci­dos por alguns, eram ain­da vis­tos como aci­den­tes iso­la­dos fru­to da ação de algu­mas ove­lhas tres­ma­lha­das.

Os arti­gos do «The Boston Globe» aca­ba­ram por reve­lar que o mal era sis­té­mi­co na ins­ti­tui­ção, tão sis­té­mi­co como os esfor­ços da Igreja em aba­far os escân­da­los.

As víti­mas eram cri­an­ças pro­ve­ni­en­tes de famí­li­as cató­li­cas pobres e fra­gi­li­za­das, sem mei­os de defe­sa, finan­cei­ros ou psi­co­ló­gi­cos, o que tor­nou estes abu­sos e os seus enco­bri­men­tos ain­da mais revol­tan­tes.

O verdadeiro Michael Rezendes com Mark Ruffalo

O ver­da­dei­ro Michael Rezendes com Mark Ruffalo

«Spotlight» conta-​nos toda esta his­tó­ria, mostra-​nos as mar­cas psi­co­ló­gi­cas nas víti­mas, a cum­pli­ci­da­de entre a Igreja e alguns pode­res bem esta­be­le­ci­dos da cida­de, o quão difí­cil e peno­so e abor­re­ci­do foi inves­ti­gar um caso des­ta natu­re­za, mas nun­ca tem neces­si­da­de de levan­tar a voz.

Não pre­ci­sa. O que sere­na­men­te expõe é sufi­ci­en­te. E não gri­tar acon­te­ce com frequên­cia a quem está com­ple­ta­men­te segu­ro da ver­da­de do que está a dizer.

A úni­ca oca­sião em que um dos jor­na­lis­tas levan­ta a voz peran­te os hor­ro­res que tes­te­mu­nha só acon­te­ce per­to do final do fil­me quan­do o mais emo­ti­vo do gru­po, o repór­ter Michael Rezendes, inter­pre­ta­do por Mark Ruffallo, se dei­xa domi­nar pela revol­ta. É a úni­ca explo­são do fil­me. O ver­da­dei­ro Rezendes tem san­gue tuga nas vei­as, o que tam­bém expli­ca mui­to.

Mark Ralston

Morgan Freeman prepara-​se para anun­ci­ar o ven­ce­dor. | Foto: Mark Ralston

Divina coincidência

Há uma razão para o fil­me se man­ter à tona e não se dei­xar afun­dar pela tem­pes­ta­de. A his­tó­ria que con­ta é dema­si­a­do impor­tan­te. As pes­so­as envol­vi­das são dema­si­a­do impor­tan­tes. Se «Spotlight» fizes­se des­te caso um pre­tex­to para ata­car a Igreja ou a reli­gião, per­de­ria cre­di­bi­li­da­de.

«Spotlight» não toma par­ti­do por nada a não ser pela ver­da­de dos fac­tos, doa a quem doer. É um exce­len­te fil­me, qua­se ana­cró­ni­co na for­ma como foge à espe­ta­cu­la­ri­da­de, ao sen­sa­ci­o­na­lis­mo, ao jul­ga­men­to fácil, à expo­si­ção mani­pu­la­do­ra das emo­ções. «Spotlight» fil­ma pes­so­as, não memes.

As suas posi­ções são sub­tis, mas cla­ras como água ben­ta. A foto­gra­fia do fil­me, por exem­plo, mais mono­cro­má­ti­ca ao prin­cí­pio, torna-​se mais cla­ra e bri­lhan­te à medi­da que os por­me­no­res do caso vão sen­do conhe­ci­dos. «Spotlight» pro­cu­ra a luz, sim, mas não a que é pro­je­ta­da pelos holo­fo­tes.

Quem anun­ci­ou a vitó­ria de «Spotlight» na ceri­mó­nia dos ósca­res foi Morgan Freeman, ator de mui­tos papéis memo­rá­veis. Um deles foi ter fei­to de Deus — até isto pare­ceu apro­pri­a­do.

Marco Santos

­Marco Santos

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