The Handmaid’s Tale é um livro publi­ca­do em 1985 por Margaret Atwood. Desde 26 de abril des­te ano, The Handmaid’s Tale é tam­bém uma série de tele­vi­são base­a­da no livro. E é uma das gran­des séri­es que pou­ca gen­te terá vis­to em Portugal, uma vez que não pas­sa em qual­quer canal por­tu­guês.

A his­tó­ria de The Handmaid’s Tale cos­tu­ma ser cri­ti­ca­da por dois moti­vos: é dema­si­a­do femi­nis­ta e passa-​se num futu­ro dis­tó­pi­co con­si­de­ra­do com­ple­ta­men­te irre­a­lis­ta.

Elisabeth Moss

Elisabeth Moss é Offred, a pro­ta­go­nis­ta da his­tó­ria.

A his­tó­ria de The Handmaid´s Tale está situ­a­da num futu­ro inde­fi­ni­do, mas pou­co dis­tan­te. A injus­ti­ça e cru­el­da­de daque­la soci­e­da­de mexe-​nos com o sis­te­ma ner­vo­so. E é, de fac­to, uma situ­a­ção difí­cil de con­ce­ber para quem é homem e nun­ca se sen­tiu opri­mi­do ou jul­ga­do por ser homem.

Neste mun­do espe­cu­la­ti­vo, o pla­ne­ta vive uma cri­se de infer­ti­li­da­de. Os nas­ci­men­tos são cada vez mais raros. As cri­an­ças, um bem pre­ci­o­so.

O receio de que a raça huma­na este­ja em vias de extin­ção pro­vo­ca con­vul­sões soci­ais. A cri­se come­ça a ser vis­ta como um cas­ti­go divi­no devi­do às liber­da­des sexu­ais, à per­da dos valo­res fami­li­a­res tra­di­ci­o­nais e aos com­por­ta­men­tos depra­va­dos.

O caos soci­al é apro­vei­ta­do por um gru­po de extre­mis­tas reli­gi­o­sos. Um gol­pe de Estado vio­len­to des­trói as ins­ti­tui­ções demo­crá­ti­cas norte-​americanas e aca­ba com os Estados Unidos tal como o conhe­ce­mos. Em seu lugar, ergue-​se a República de Gilead.

Elisabeth Moss

Gilead é uma República patri­ar­cal, tota­li­tá­ria e de ins­pi­ra­ção cris­tã, embo­ra nada tenha a ver com a Igreja Católica. A soci­e­da­de é orga­ni­za­da num sis­te­ma seme­lhan­te a cas­tas onde cada pes­soa tem uma fun­ção soci­al estri­ta­men­te defi­ni­da.

Os homens man­dam. No topo da hie­rar­quia mas­cu­li­na estão os coman­dan­tes. Todos são puros e pie­do­sos. E todos são hipó­cri­tas, pois clan­des­ti­na­men­te bus­cam os mes­mos pra­ze­res liber­ti­nos que cri­ti­ca­vam antes de alcan­çar o poder.

As mulhe­res obe­de­cem. Não podem ocu­par car­gos de poder. Não são auto­ri­za­das a tra­ba­lhar, a não ser na lida da casa. Estão proi­bi­das de ler ou escre­ver. As espo­sas dos coman­dan­tes estão no topo da hie­rar­quia femi­ni­na, mas são tão sub­ser­vi­en­tes como as res­tan­tes.

A uto­pia per­fei­ta que os coman­dan­tes cons­truí­ram está man­cha­da de san­gue. Os cadá­ve­res de mulhe­res e homens que se insur­gem con­tra a dita­du­ra são exi­bi­dos nas ruas, enfor­ca­dos, como os nazis fazi­am aos mem­bros da resis­tên­cia dos paí­ses que ocu­pa­vam.

As servas

O pro­ble­ma da infer­ti­li­da­de con­ti­nua a exis­tir nes­te mun­do emo­ci­o­nal­men­te claus­tro­fó­bi­co. As mulhe­res fér­teis são ree­du­ca­das em cen­tros espe­ci­ais para ser­vir os coman­dan­tes e res­pe­ti­vas espo­sas.  E assim se tor­nam ser­vas — as «hand­maid» do títu­lo ori­gi­nal.

Depois de ree­du­ca­das e colo­ca­das, as ser­vas dei­xam de exis­tir como indi­ví­du­os. June (inter­pre­ta­da pela mag­ní­fi­ca Elisabeth Moss), a per­so­na­gem prin­ci­pal, é des­ta­ca­da para ser­vir na casa do Comandante Fred, mas só res­pon­de pelo nome Offred — «Of Fred», a que per­ten­ce a Fred.

O Comandante Fred (Joseph Fiennes)

O Comandante Fred (Joseph Fiennes) duran­te a «ceri­mó­nia»

As ser­vas são máqui­nas repro­du­to­ras. Todos os meses par­ti­ci­pam numa ceri­mó­nia onde são fecun­da­das pelo che­fe da casa. O ato é ceri­mo­ni­o­so e tão impes­so­al quan­to pos­sí­vel, e é exe­cu­ta­do na pre­sen­ça da espo­sa. Depois de reci­tar uns ver­sos do Antigo Testamento, o Comandante tem rela­ções com a ser­va, quer esta o dese­je ou não, na espe­ran­ça de poder con­ce­ber uma pre­ci­o­sa cri­an­ça.

Se «o mila­gre» acon­te­cer, a cri­an­ça é reti­ra­da à mãe bio­ló­gi­ca e entre­gue à espo­sa do Comandante, enquan­to a ser­va é trans­fe­ri­da para uma nova famí­lia de for­ma a «ser­vir» o Comandante seguin­te.

The Handmaid’s Tale irrealista? Só à superfície.

Mike Pence

Mike Pence

The Handmaid’s Tale - trai­ler - não é uma his­tó­ria dis­tó­pi­ca ao esti­lo Hunger Games. É uma fic­ção espe­cu­la­ti­va que nos mos­tra como seria uma soci­e­da­de domi­na­da por con­ser­va­do­res da direi­ta radi­cal de ins­pi­ra­ção cris­tã.

Não fiquem já a pen­sar no mun­do ára­be e nas teo­cra­ci­as opres­si­vas do Islão. Se acham que esse tipo de gen­te não exis­te no mun­do oci­den­tal, sugi­ro que se infor­mem sobre um movi­men­to cha­ma­do Christian Reconstructionism, do qual faz par­te o vice-​presidente dos EUA Mike Pence. Leiam sobre a influên­cia que esta mino­ria demen­te exer­ce sobre direi­ta cris­tã mais tra­di­ci­o­nal nos EUA.

Tal como os da República de Gilead, essas pes­so­as defen­dem a pena de mor­te para a homos­se­xu­a­li­da­de, o adul­té­rio, para quem men­tir sobre a vir­gin­da­de, para quem blas­fe­mar, entre outros «cri­mes».

A Mulher-​Maravilha e outras birras mais perigosas

Wonder Woman

As duas crí­ti­cas que se fazem a The Handmaid's Tale estão liga­das entre si. Catalogar como exa­ge­ra­do ou irre­a­lis­ta um cená­rio no qual as mulhe­res são víti­mas de opres­são é um dos argu­men­tos pre­fe­ri­dos do zé macho quan­do quer des­qua­li­fi­car situ­a­ções reais que ocor­rem nos dias de hoje.

Mas este é o mes­mo zé a quem não pas­sa pela cabe­ça per­gun­tar por que razão seres huma­nos que exis­ti­am há mui­to, mui­to tem­po, numa galá­xia dis­tan­te, já tinham nes­ses tem­pos lon­gín­quos uma prin­ce­sa a pre­ci­sar de ser sal­va.

Tenho vis­to mui­tos zés des­tes ulti­ma­men­te. Sempre que os vejo em ação lembro-​me de como os hor­ro­res de The Handmaid’s Tale têm uma jus­ti­fi­ca­ção soci­al e psi­co­ló­gi­ca mui­to rea­lis­ta.

Eis um exem­plo sufi­ci­en­te­men­te estú­pi­do. Há quem se tenha sen­ti­do ofen­di­do e dis­cri­mi­na­do por­que a cadeia de cine­mas Alamo Drafthouse, nos EUA, orga­ni­zou ses­sões do fil­me Mulher Maravilha exclu­si­va­men­te para mulhe­res. Acreditem ou não, há imen­sas quei­xi­nhas nos fóruns de dis­cus­são.

Exibição «só para mulheres» | Foto: Deborah Cannon

Exibição «só para mulhe­res» | Foto: Deborah Cannon

Este even­to «só para mulhe­res» é diver­ti­do e até apro­pri­a­do. Qual é o pro­ble­ma de miú­das e mulhe­res se sen­ti­rem espe­ci­ais por lhes ser dada a opor­tu­ni­da­de de ver um fil­me em que estão repre­sen­ta­das por uma super-​heroína num uni­ver­so pre­do­mi­nan­te mas­cu­li­no? Uma heroí­na que exis­te por si mes­ma e não em fun­ção do par­cei­ro mas­cu­li­no? Uma mulher que sal­va, ao invés de ser sal­va?

Nenhum, cla­ro, res­pon­dem os teus neu­ró­ni­os sen­sa­tos. A exclu­si­vi­da­de até pode ser vis­ta como uma peque­na e insig­ni­fi­can­te com­pen­sa­ção, ten­do em con­ta as mer­das que as mulhe­res atu­ra­ram e ain­da têm de atu­rar.

Mas a Internet veio dar voz a todos os idi­o­tas da aldeia. Jason Posobiec, autor cono­ta­do com a alt-​right nos EUA, apre­sen­tou quei­xa na Comissão de Direitos Humanos em Nova Iorque por se sen­tir dis­cri­mi­na­do. Está a meia-​dúzia de cli­ques de se tor­nar um herói dos imbe­cis, como o Trump.

O paler­ma Posobiec não teve qual­quer pro­ble­ma em apropriar-​se de uma pala­vra — dis­cri­mi­na­ção — que tem o peso de sécu­los de ver­da­dei­ra opres­são.

Luke é a chave. O Luke somos nós.

Luke (O-T Fagbenle), o marido de June

Luke (O-​T Fagbenle), o mari­do de June

E se acham que estou a exa­ge­rar quan­do me refi­ro às mer­das que as mulhe­res têm de atu­rar numa base diá­ria, aten­tem numa ini­ci­a­ti­va da revis­ta PR Week ocor­ri­da esta sema­na em Nova Iorque.

Num even­to cha­ma­do «Hall of Femme», qua­tro espe­ci­a­lis­tas em Relações Públicas dis­cu­ti­ram o que as mulhe­res devem fazer para com­ba­ter a «cul­tu­ra macho». Um deles propôs uma solu­ção para serem mais ouvi­das: «falar mais alto». Nem a revis­ta nem os par­ti­ci­pan­tes pare­cem ter dado impor­tân­cia ao fac­to de esta suges­tão ter sido fei­ta duran­te um even­to em que os qua­tro ora­do­res eram todos homens.

Mas elas falam mais alto, sim. E isso pode ser mui­to peri­go­so. Por exem­plo, quan­do algu­mas cri­a­do­ras de soft­ware de jogos cri­ti­ca­ram a indús­tria de jogos por ser «chau­vi­nis­ta», todas elas rece­be­ram ame­a­ças de mor­te e vio­la­ção atra­vés das redes soci­ais. O cha­ma­do caso Gamergate, é só goo­glar. Está cheio de rou­pa suja.

Sim, elas atu­ram mui­ta mer­da opres­si­va — das ridí­cu­las, como as quei­xi­nhas por cau­sa das ses­sões femi­ni­nas de Wonder Woman, às peri­go­sas, como estas ame­a­ças dos machos des­con­so­la­dos das con­so­las.

A fic­ção está reple­ta de pre­vi­sões dis­tó­pi­cas, de 1984, do Orwell, ao Fahrenheit 451, do Bradbury. Exemplos de mun­dos fic­ci­o­nais cri­a­dos a par­tir dos nos­sos recei­os atu­ais não fal­tam. Contudo, se as pio­res expe­ri­ên­ci­as do pas­sa­do e do pre­sen­te das mulhe­res nos são apre­sen­ta­das de for­ma ale­gó­ri­ca, como o faz The Handmaid´s Tale, a espe­cu­la­ção pas­sa a ser «irre­a­lis­ta».

O Comandante que as agarra

Que tem a ver este Luke da foto ali em cima com o que estou a falar? É o mari­do de June em The Handmaid’s Tale, o homem que ela jul­ga nun­ca mais vol­ta­rá a ver, assim como a filha de ambos.

Luke é um homem decen­te, mas é inca­paz de ima­gi­nar algo que vá para além da sua pró­pria expe­ri­ên­cia. Quando os pri­mei­ros sinais de opres­são do regi­me come­çam a manifestar-​se, Luke não con­se­gue levar a sério a ame­a­ça. Não o atin­ge dire­ta­men­te a ele.

Luke repre­sen­ta mui­tos de nós. Estamos imer­sos nas nos­sas pró­pri­as expe­ri­ên­ci­as. Estamos dema­si­a­do habi­tu­a­dos ao pri­vi­lé­gio de ser­mos homens. É difí­cil con­ce­ber um mun­do em que mulhe­res sejam cri­mi­na­li­za­das ou jul­ga­das só por serem mulhe­res. Ridículas ou mais séri­as, as situ­a­ções por vezes passam-​nos ao lado. O nos­so radar foca-​se nou­tras coi­sas.

The Handmaid’s Tale pode não ser uma his­tó­ria de ante­ci­pa­ção na tra­di­ção da fic­ção cien­tí­fi­ca, mas espevita-​nos a ima­gi­na­ção. Estimula-​nos a empa­tia. Enerva-​nos. Deixa-​nos com von­ta­de de entrar pelo ecrã aden­tro e esmur­rar uns quan­tos cre­ti­nos pie­do­sos, vio­la­do­res de sor­ri­sos puri­ta­nos.

Faz-​nos pen­sar nas con­sequên­ci­as prá­ti­cas de vir­mos a ser gover­na­dos pelos idi­o­tas da aldeia. Convida-​nos a assu­mir uma pers­pe­ti­va femi­ni­na. Consegue fazer uma coi­sa mui­to difí­cil: pôr-​nos no lugar delas. Sentimo-​nos vio­la­dos, como elas. Força-​nos a tirar as nos­sas pró­pri­as con­clu­sões em rela­ção ao que esta­mos a ver, não ao que que­re­mos ver. Porque The Handmaid's Tale não é femi­nis­ta, é huma­nis­ta.

Irrealista? Exagerado? The Handmaid's Tale lembra-​nos que os EUA ele­ge­ram um pre­si­den­te que se gabou de «as agar­rar pela pus­sy». Sim, o Comandante Trump e as suas ser­vas.

Marco Santos

­Marco Santos

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