Conheço algu­mas pes­so­as que não gos­ta­ram mui­to de Arrival. Esperavam que o fil­me se focas­se ape­nas na his­tó­ria de um pri­mei­ro encon­tro entre extra­ter­res­tres e seres huma­nos.

A ver­da­dei­ra his­tó­ria não é essa. Arrival con­ta a his­tó­ria de vári­os encon­tros. E o de Louise (Amy Adams) com o seu pró­prio des­ti­no é o mais impor­tan­te de todos. Era pre­ci­so que a his­tó­ria des­se encon­tro espe­ci­al de Louise tives­se um poder emo­ci­o­nal capaz de nos fazer esque­cer que fomos ver o fil­me por cau­sa dos extra­ter­res­tres. 

Amy Adams

Para algu­mas pes­so­as não teve.

Para mim, a his­tó­ria que nos calha com­pen­sou, pelo menos em par­te, por­que Amy Adams é tre­men­da a car­re­gar o peso do Espaço-​Tempo às cos­tas.

Por outro lado, para apre­ci­ar o fil­me é pre­ci­so con­se­guir des­li­gar a par­te do cére­bro que gos­ta de coi­sas line­a­res e dei­xar bem ace­sa ape­nas a par­te emo­ci­o­nal. Nem sem­pre con­se­gui.

Este é um fil­me sobre o qual é difí­cil de escre­ver. Estou a pen­sar em todos vocês que ain­da não viram Arrival, mas que­rem vê-​lo e fica­ram curi­o­sos em ler este tex­to. Difícil de escre­ver por­que não pos­so entrar em gran­des por­me­no­res sobre a natu­re­za des­se encon­tro de Louise.

Esse encon­tro é dema­si­a­do impor­tan­te para o des­fe­cho da his­tó­ria. É des­po­le­ta­do pela visi­ta dos extra­ter­res­tres, sim, mas nada tem a ver dire­ta­men­te com a pre­sen­ça dos extra­ter­res­tres. Tem a ver com ela, o seu Espaço, o seu Tempo.

Eu sei, estou a ser ambí­guo e pou­co reve­la­dor. Spoilers, nada pos­so fazer.

Extraterrestres sem jeito para línguas

Amy Adams

Dado que não pos­so falar do encon­tro prin­ci­pal, vou escre­ver sobre o secun­dá­rio: os extra­ter­res­tres.

Tendo em con­ta o mun­do em que vive­mos, qual­quer civi­li­za­ção extra­ter­res­tre avan­ça­da sabe­ria como comu­ni­car con­nos­co. Se eu fos­se um ET, dese­nha­ria um like gigan­tes­co no céu. Quase todos os seres huma­nos do pla­ne­ta Terra have­ri­am de per­ce­ber.

Bem, um like tal­vez não: os ali­e­ní­ge­nas de «Independence Day» tam­bém pode­ri­am ter fei­to o mes­mo, mas isso não sig­ni­fi­ca que esti­ves­sem a dizer que gos­ta­vam de nós. Também pode­ría­mos fazer um like se esti­vés­se­mos com fome e vís­se­mos a foto de um belo bifi­nho gre­lha­do, mas não me pare­ce que a vaca apre­ci­as­se o ges­to.

Um emo­ji­con sor­ri­den­te era capaz de cau­sar melhor efei­to.

Fronteiras da linguagem, fronteiras do Universo

Amy Adams

Os extra­ter­res­tres de Arrival não são gam­bo­zi­nos geno­ci­das como no Independence Day, são bene­vo­len­tes, pas­si­vos, dia­lo­gan­tes, como os de Encontros Imediatos de 3º Grau. Spielberg fil­mou esse encon­tro com gra­ça e ele­gân­cia, usan­do a músi­ca como for­ma de comu­ni­ca­ção entre nós e eles.

Arrival é mais lite­ral. A pon­te entre nós e eles terá de ser cons­truí­da pela pró­pria lin­gua­gem. Nós temos de apren­der a deles, eles a nos­sa. Nós pre­ci­sa­mos de saber o que eles que­rem de nós. Eles pre­ci­sam de com­pre­en­der que lhes esta­mos a fazer uma per­gun­ta. «As fron­tei­ras da minha lin­gua­gem são as fron­tei­ras do meu uni­ver­so», já dizia Wittgenstein.

Louise é uma das mai­o­res espe­ci­a­lis­tas mun­di­ais em lin­guís­ti­ca e é recru­ta­da pelo exér­ci­to para cri­ar essas pon­tes de comu­ni­ca­ção. Este é um pon­to a favor do fil­me: o foco está na comu­ni­ca­ção e no diá­lo­go, não na guer­ra. Esta é um fan­tas­ma a pai­rar sobre o dra­ma, mas não o defi­ne. Farto de palha­ça­das piro­téc­ni­cas do tipo Independence Day já estou eu.

A ten­ta­ti­va de deci­frar o que estão a dizer e de lhes «ensi­nar» a nos­sa lín­gua é a melhor par­te do fil­me. Esperaria que qual­quer civi­li­za­ção extra­ter­res­tre sufi­ci­en­te­men­te avan­ça­da para nos visi­tar já teria cap­ta­do as nos­sas emis­sões no Espaço e apren­di­do o rudi­men­tar dos nos­sos prin­ci­pais idi­o­mas. Não é o caso des­tes extra­ter­res­tres.

Os extra­ter­res­tres, já ago­ra, pare­cem pol­vos gigan­tes­cos. As mãos lem­bram estrelas-​do-​mar. A escri­ta faz lem­brar bor­ras de café, mas isso é a minha pobre limi­ta­ção de huma­no não-​linguista. Seja como for, estes encon­tros resul­tam mui­to bem visu­al­men­te.

Falta-​lhe qualquer coisa, pois

Amy Adams e Jeremy Renner

O sus­pen­se, a ten­são des­te pri­mei­ro encon­tro, a músi­ca de Jóhann Jóhannsson, a cine­ma­to­gra­fia, até os efei­tos espe­ci­ais — exce­len­tes. Chega a pare­cer um cru­za­men­to bizar­ro entre Terrence Malick e o M. Night Shyamalan dos seus melho­res tem­pos.

Sei que a crí­ti­ca tem dito mara­vi­lhas do fil­me e per­ce­bo porquê. Quanto a mim, há qual­quer coi­sa que não me fez gos­tar tan­to do fil­me como espe­ra­ria. Talvez o foco da his­tó­ria não fos­se aque­le que mais dese­ja­va. E esse «qual­quer coi­sa» tam­bém não o pos­so defi­nir, por­que reve­la­ria a revi­ra­vol­ta final.

Talvez nes­ta fase da minha vida não este­ja tão inte­res­sa­do em pen­sar sobre o que seria a minha esco­lha numa situ­a­ção impos­sí­vel de acon­te­cer. Não, não me refi­ro ao apa­re­ci­men­to de extra­ter­res­tres, mas ao dra­ma que Louise é for­ça­da a enfren­tar.

Já me bas­tam as esco­lhas que tenho de fazer em situ­a­ções pos­sí­veis do dia-​a-​dia. Não me ape­te­ce pen­sar sobre a éti­ca ou a mora­li­da­de de esco­lhas fei­tas em situ­a­ções cien­ti­fi­ca­men­te pou­co plau­sí­veis. Mais uma vez, é difí­cil ser mais espe­cí­fi­co sem reve­lar dema­si­a­do.

Talvez o pro­ble­ma este­ja em mim e não no fil­me. Talvez daqui a uns anos o reve­ja e con­clua que afi­nal é uma obra-​prima  que não esta­va pre­pa­ra­do para com­pre­en­der. Por ago­ra, não é uma pre­sen­ça mui­to for­te nas minhas memó­ri­as cine­ma­to­grá­fi­cas. Gostei, mas não saí do cine­ma des­lum­bra­do.

Marco Santos

­Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?