Em ter­mos mais ou menos for­mais, o do seu sítio na Net, apresenta-​se como um cole­ti­vo edi­to­ri­al, mas A Besta é mui­to mais do que isso. Congrega uma série de pro­je­tos musi­cais, com cer­ca de uma deze­na de gru­pos a fun­ci­o­nar, e orga­ni­za con­cer­tos e fes­ti­vais. O que ain­da não é con­tar tudo.

A Besta jun­ta um punha­do de músi­cos que, além des­sa óbvia con­di­ção quan­do se segue os prin­cí­pi­os do Do It Yourself, tem outra menos pre­vi­sí­vel.

A mai­or par­te dos seus mem­bros fez ou está a fazer ciên­ci­as polí­ti­cas na uni­ver­si­da­de e par­ti­lha o mes­mo ideá­rio: o anar­quis­ta.

Tanto assim que estão envol­vi­dos na atu­al recu­pe­ra­ção de duas publi­ca­ções his­tó­ri­cas do pen­sa­men­to liber­tá­rio em Portugal, o jor­nal A Batalha e a revis­ta A Ideia.

Aliás, no cole­ti­vo há aque­les que se dedi­cam qua­se exclu­si­va­men­te à músi­ca, como é o caso do bate­ris­ta, gui­tar­ris­ta e mani­pu­la­dor de ele­tró­ni­ca João Sousa, figu­ra pre­sen­te em qua­se todas as ban­das des­ta tru­pe, e há quem con­tri­bua só a nível con­cep­tu­al, como António Baião.

Pelo meio, com um pé na músi­ca e o outro na pro­du­ção pen­san­te, está o bate­ris­ta, gui­tar­ris­ta e bai­xis­ta André Calvário, tam­bém omni­pre­sen­te em mui­tos des­ses gru­pos.

Quem não se iden­ti­fi­ca como anar­ca na A Besta (o cog­no­me de Aleister Crowley, para quem não sai­ba) acre­di­ta, no entan­to, na ideia de cri­ar ou pro­mo­ver «músi­ca live para gen­te liber­ta ou com dese­jo de se liber­tar».

E que músi­ca é esta? Bom, as bases estão no punk, vin­do depois o res­to que defi­ne a impro­vi­sa­ção expe­ri­men­tal per­fi­lha­da por pra­ti­ca­men­te todas as «bes­ti­ais» for­ma­ções: rock pro­gres­si­vo, psi­ca­de­lis­mo, free jazz, ele­tró­ni­ca expe­ri­men­tal & etc.

Negritude e luz

ParPar - Stosto

É o mais recen­te inves­ti­men­to de A Besta. Trata-​se do duo ParPar, com Sousa na bate­ria (e nos strobs, com um pé a ligar e des­li­gar luzes quan­do os riffs são mais for­tes) e Pedro Arelo no saxo­fo­ne barí­to­no.

Este está liga­do a uma peda­lei­ra e a um ampli­fi­ca­dor de gui­tar­ra, de onde saem linhas de bai­xo e dro­nes elec­tró­ni­cos além dos sons pro­ces­sa­dos do sax.

O que tocam pare­ce um cru­za­men­to entre Van Der Graaf Generator e Lightning Bolt, algo que nun­ca ima­gi­na­ría­mos pos­sí­vel… Tirem as vos­sas pró­pri­as con­clu­sões.

João Sousa dizia há tem­pos na sua pági­na do Facebook, em comen­tá­rio a um clip dos King Crimson, que tinha «nas­ci­do na déca­da erra­da». Não é bem assim: traz a déca­da cer­ta para a erra­da, e pron­to.

Impróprio para

Cardíaco

Outro dos mais insis­ten­tes inves­ti­men­tos das bes­tas chama-​se Cardíaco, que é como que um rock psi­ca­dé­li­co enchar­ca­do no hard­co­re, «negri­tu­de e luz no fun­do de um túnel em ruí­na», como os pró­pri­os defi­nem.

Esses «pró­pri­os» podem ser quais­quer mem­bros do gang, vari­an­do con­so­an­te as dis­po­ni­bi­li­da­des pes­so­ais.

Não há estru­tu­ras nem com­bi­na­ções pré­vi­as às atu­a­ções da ban­da: tudo acon­te­ce naque­le lim­bo que exis­te entre cons­ci­ên­cia e incons­ci­ên­cia, conduzindo-​nos para o mun­do quân­ti­co que den­tro de nós equi­va­le à dimen­são do cos­mos.

Abrindo, abrindo e abrindo

André Calvário

André Calvário

Depois, temos os A-​nimal, com o seu regres­so tan­to ao blues-​rock dos Sessentas como ao prog dos Setentas, mas adap­tan­do tudo ao tem­po das desig­ner drugs. Este.

Reparem só: João Sousa está na gui­tar­ra, Tiago Eira no sin­te­ti­za­dor e na segun­da gui­tar­ra, José Santos no bai­xo e André Calvário na bate­ria.

Deslize | Foto: Nuno Mangas Viegas

Deslize | Foto: Nuno Mangas Viegas

O leque de abor­da­gens abre ain­da mais com os Deslize e a sua sono­ri­da­de folky, resul­ta­do da cum­pli­ci­da­de de Sousa com Hélder José.

Pode, por vezes, incluir spo­ken word, mas nun­ca com a cons­tân­cia que a fór­mu­la tem na vari­an­te O Poema (A)Corda. Aliás, como suge­rem o pró­prio nome e a inter­ven­ção do poe­ta Nuno Mangas-​Viegas, assu­min­do por intei­ro o fac­tor decla­ma­ção.

Tiago Eira

Tiago Eira

Há mais. Há, por exem­plo, Subasement, solo de ele­tró­ni­ca do já refe­ri­do Eira (tam­bém dos A-​nimal) ao jei­to do trip-​hop.

E há Verme, outro solo com dis­po­si­ti­vos digi­tais, este do impa­rá­vel João Sousa e mais pas­sa­do da cor­ne­ta.

Cicuta, par­ce­ria de Sousa com DV, estra­nha­men­te (pelo que dele se ouve nes­te con­tex­to) um dos tipos que por cá mais sabem sobre black metal. Ó para eles numa trans­mis­são em direc­to pela Stress FM.

Por falar em DV, há ain­da a Saraband, uma des­ci­da aos infer­nos para des­co­brir que aqui­lo não é assim tão quen­te.

Juntem a isto o novís­si­mo Uivo Zebra, trio de João Sousa com dois não-​bestas, o psico-​astronauta da gui­tar­ra Jorge Nuno (Signs of the Silhouette) e o bai­xis­ta de free improv (con­tra­bai­xis­ta no Red Trio) Hernâni Faustino.

Não esque­cer igual­men­te o Projéctil, «cor­po embru­lha­do num len­çol dei­xa­do na fábri­ca aban­do­na­da» e «for­te odor a quei­ma­do vin­do do quar­to». É uma cola­bo­ra­ção entre André Calvário e Tiago Eira, não haven­do, infe­liz­men­te, ima­gens da dita.

Pois aten­tem bem nes­tes «ego­ma­nía­cos de esqui­zo­fré­ni­ca ato­mi­za­ção» (pala­vras deles, não minhas): vem des­ta célu­la ter­ro­ris­ta mui­to do que de mais desa­fi­an­te anda a ser fei­to musi­cal­men­te na Tugolândia.

Ah, e aqui mes­mo ao pé de casa: mui­tos dos delin­quen­tes político-​sonoros de que aqui vos falo são de S. Domingos de Rana. Quem não é, põe-​se à estra­da na dire­ção do bur­guês con­ce­lho de Cascais: o seu escon­de­ri­jo está mon­ta­do na Estudantina (bófi­as, fuck off).

Até logo que vou beber uma jola lá em cima e ver o que a rapa­zi­a­da de A Besta anda a fazer de novo. Na vol­ta, tal­vez tenha de acres­cen­tar alguns pará­gra­fos a este post, por­que eles não param.

Rui Eduardo Paes

­ Rui Eduardo Paes

Jornalista cultural e crítico de música. Editor da Jazz.pt. Quer dizer-me alguma coisa?