Leonard Cohen sem­pre foi um cri­a­dor len­to. Exasperadamente len­to, nas suas pró­pri­as pala­vras. Certa oca­sião, em mea­dos da déca­da de 80, Cohen foi tomar um café com Bob Dylan depois de ter assis­ti­do, em Paris, a um exce­len­te con­cer­to do atu­al Prémio Nobel da Literatura.

Dylan esta­va espe­ci­al­men­te inte­res­sa­do em falar do tema «Hallelujah». A can­ção espi­ri­tu­al que o for­mi­dá­vel Jeff Buckley ele­va­ria à estra­tos­fe­ra do reco­nhe­ci­men­to, alguns anos depois, já era inten­sa­men­te admi­ra­da por Dylan.

«Quanto tem­po demo­ras­te a fazê-​la? — Quis saber. «Dois anos», men­tiu Cohen. Na ver­da­de tinha demo­ra­do cin­co, mas não quis par­ti­lhar os soli­tá­ri­os momen­tos pas­sa­dos em quar­tos de hotel, de pija­ma, a bater indig­na­men­te com a cabe­ça nas pare­des até a dar como aca­ba­da.

«Gosto mui­to da tua can­ção ‘I and I’» — dis­se, por sua vez, Cohen. — «Quanto tem­po demo­ras­te tu a fazê-​la?» «Uns quin­ze minu­tos», res­pon­deu Dylan.

Não há quartos iguais na torre da canção

Tower of Song, U2

O pro­ces­so cri­a­ti­vo é tra­ma­do e tenho aqui uma his­tó­ria de Tom Waits que não me dei­xa men­tir. Waits esta­va a con­du­zir o car­ro numa auto­es­tra­da em Los Angeles quan­do, de repen­te, lhe veio à cabe­ça um peque­no frag­men­to de melo­dia. Era uma melo­dia elu­si­va, irre­sis­tí­vel, bela. Desejava-​a, não a podia per­der. Dentro do car­ro, sem papel ou lápis, não con­se­guia fazer ano­ta­ções.

«Vou per­der isto e vou ser assom­bra­do para sem­pre por esta can­ção» — pen­sou Tom Waits, já ansi­o­so. Resolveu parar o car­ro e, num ápi­ce, deci­diu tra­var aque­le pro­ces­so men­tal que o come­ça­va a con­su­mir.

Em vez de per­se­guir uma melo­dia fan­tas­ma­gó­ri­ca, saiu do car­ro, fixou os céus e dis­se: «Desculpa, não vês que eu esta­va a con­du­zir? Pareço-​te em con­di­ções de ano­tar uma ideia ago­ra? Se que­res mes­mo exis­tir, vol­ta numa altu­ra mais apro­pri­a­da, quan­do eu te puder dar aten­ção. Caso con­trá­rio, vai cha­te­ar outro hoje. Vai cha­te­ar o Leonard Cohen».

Tom Waits não se diri­gia a Deus, mas à Criatividade. E a Criatividade visi­tou de fac­to Cohen, mui­tas vezes, duran­te déca­das. Visitas demo­ra­das mas dis­cre­tas, chei­as de lon­gos silên­ci­os, duran­te os quais mui­tas vezes esten­dia a mão ape­nas para lhe cobrar o alu­guer do quar­to onde vivia na tor­re da can­ção.

«Perguntei a Hank Williams/​Quão soli­tá­rio isto pode ser?/Hank Williams ain­da não me respondeu\Mas ouvi-​o tos­sir a noi­te toda\Cem anda­res aci­ma, na Torre da Canção.»

Aleluia, aleluia, não é o Jeff Buckley

Hallelujah, Rufus Wainwright

Não, a cover de « Hallelujah» não é a de Jeff Buckley. Os que se inte­res­sam por músi­ca já a conhe­cem, de cer­te­za. E os que se inte­res­sam já têm uma ideia do que Buckley fez com a can­ção: arrancou-​lhe as asas de anjo da ver­são ori­gi­nal, tornou-​a crua, vis­ce­ral, sua­da, numa pala­vra: pro­fun­da­men­te sen­su­al.

«Quem ouvir ‘Hallelujah’ com aten­ção per­ce­be que é uma can­ção sobre sexo, sobre o amor, sobre a vida na Terra.» — Explicou o pró­prio Jeff Buckley. — «Não é uma home­na­gem a uma pes­soa sagra­da, a um ído­lo ou a um deus, mas é um ale­luia do orgas­mo. Uma ode à vida e ao amor.»

Buckley, és real­men­te o mai­or. Obrigado pelos dias em que exis­tis­te na Terra, dema­si­a­do pou­cos. Mas para não tor­nar esta sele­ção tão óbvia, esco­lhi uma ver­são mui­to espe­ci­al can­ta­da por Rufus Wainwright e um espan­to­so coro de 1500 volun­tá­ri­os que se jun­ta­ram para gra­var o vídeo.

Rufus vol­ta­rá a sur­gir nes­ta sele­ção por­que é um artis­ta extra­or­di­ná­rio e por­que a liga­ção a Cohen era pro­fun­dís­si­ma. Por ago­ra, retoma-​se a visão mais ecle­siás­ti­ca da can­ção. Os anjos vol­tam a ganhar as suas asi­nhas nes­ta ver­são. E é tão difí­cil de resis­tir como ao fil­me «Do Céu Caiu uma Estrela», de Frank Capra.

R.E.M.

«Fui sen­ten­ci­a­do a vin­te anos de tédio/​Por ten­tar mudar o sis­te­ma por dentro/​Estou a che­gar agora,/Estou a che­gar para os recompensar/​Primeiro toma­mos Manhattan, depois toma­mos Berlim».

Esta é a ver­são ener­gé­ti­ca dos extin­tos R.E.M., uma ver­são ade­qua­da aos tem­pos que vive­mos, uma can­ção que podia ser escu­ta­da em todos os can­tos onde se luta pela Democracia, pela Ciência e pelos Direitos Humanos nos Estados Unidos.

«First we take Manhattan» esta­va num dos car­ta­zes da mani­fes­ta­ção de Nova Iorque con­tra o pró­xi­mo pre­si­den­te elei­to, o ogre Donald Trump. Faz todo o sen­ti­do, sobre­tu­do se pen­sar­mos no que o pró­prio Leonard Cohen tem a dizer sobre a can­ção.

«É uma res­pos­ta dire­ta ao tédio, à ansi­e­da­de, à impon­de­ra­bi­li­da­de que sin­to no meu dia-​a-​dia. Não sei se mais alguém se sen­te assim. Suspeito que algu­mas pes­so­as, sim. Sentem-​se como se o mun­do tives­se desa­pa­re­ci­do. Que uma catás­tro­fe já tives­se acon­te­ci­do. Que a inun­da­ção já tenha che­ga­do. Que já não pre­ci­sa­mos de espe­rar por um holo­caus­to nucle­ar. Que, de algu­ma for­ma, o mun­do já foi des­truí­do.»

Leonard Cohen mor­reu a 7 de novem­bro. Donald Trump ven­ceu as elei­ções um dia depois. Dupla der­ro­ta.

Lover Lover Lover, The Districts

The Districts é uma ban­da rock indie ame­ri­ca­na for­ma­da quan­do os seus qua­tro ele­men­tos ain­da anda­vam no liceu. Só qua­tro anos, dois EP e um álbum depois come­ça­ram a ser conhe­ci­dos. A cover de «Lover Lover Lover», divul­ga­da pela ban­da em janei­ro des­te ano, foi o pri­mei­ro sinal de que os The Districts con­ti­nu­a­vam ati­vos des­de que lan­ça­ram o dis­co «A Flourish and a Spoil», em 2015.

Um hino de reconciliação no meio da guerra

A can­ção foi com­pos­ta por Leonard Cohen, judeu, quan­do se jun­tou a sol­da­dos isra­e­li­tas no deser­to do Sinai, em 1973, duran­te a guer­ra do Yom Kippur. A 6 de outu­bro, dia do feri­a­do reli­gi­o­so Yom Kippur, uma coli­ga­ção de paí­ses ára­bes lide­ra­da por Egipto e Síria ata­cou de sur­pre­sa Israel.

«Lover Lover Lover» é Leonard Cohen a con­ver­sar com Deus enquan­to o mun­do assis­te ao con­fli­to: «Perguntei ao meu pai/​Disse-​lhe: Pai, muda o meu nome/​O que uso ago­ra está cober­to de medo, suji­da­de, cobar­di­ce e ver­go­nha».

O «Lover» do refrão não sig­ni­fi­ca «aman­te» no sen­ti­do român­ti­co. É mais abran­gen­te, espi­ri­tu­al. É uma refe­rên­cia a um poe­ta per­sa do sécu­lo XIII, Muhammad Rumi, um sufis­ta, que nos seus poe­mas se diri­gia a Deus da mes­ma for­ma. O sufis­mo é a cor­ren­te mais mís­ti­ca e medi­ta­ti­va do Islão, uma ten­ta­ti­va de desen­vol­ver uma rela­ção mais ínti­ma e dire­ta com Deus.

Leonard Cohen dis­se vári­as vezes que a can­ção era dedi­ca­da aos dois pro­ta­go­nis­tas do con­fli­to, isra­e­li­tas e ára­bes, não usan­do nas letras qual­quer refe­rên­cia a acon­te­ci­men­tos espe­cí­fi­cos daque­la guer­ra. A res­pos­ta de Deus é típi­ca de Cohen: «Tranquei-​te nes­se corpo/​Pensei-​o como uma espé­cie de julgamento/​Podes torná-​lo numa arma/​Ou usá-​lo para fazer uma mulher sor­rir.»

Diagrams

Os Diagrams são a ban­da do músi­co bri­tâ­ni­co Sam Genders. Os res­tan­tes ele­men­tos são rota­ti­vos: cola­bo­ra­do­res fre­quen­tes, cola­bo­ra­do­res oca­si­o­nais, músi­cos con­vi­da­dos.

Sam Genders pode não ser mui­to conhe­ci­do fora do cir­cui­to de rock alter­na­ti­vo inglês, mas dá-​nos uma bela cover des­ta can­ção de Cohen, das melho­res que ouvi — e ouvi deze­nas, só des­te tema.

The Future, Teddy Thompson

Teddy Thompson é um músi­co inglês que com­bi­na influên­ci­as rock e folk na sua músi­ca. Vem de uma famí­lia de artis­tas: os pais, Richard e Linda Thompson, são ambos can­to­res de folk-​rock, dos nomes mais conhe­ci­dos da músi­ca folk bri­tâ­ni­ca das déca­das de 70 e 80. A irmã, Kamila, é tam­bém can­to­ra.

Thompson par­ti­ci­pou numa série de con­cer­tos em tri­bu­to a Leonard Cohen cha­ma­dos «Came So Far for Beauty». Os con­cer­tos foram fei­tos em Nova Iorque, Brighton, Dublin e Sydney. Este últi­mo foi fil­ma­do e lan­ça­do sob o títu­lo « Leonard Cohen: I’m Your Man». Alguns dos nomes envol­vi­dos estão aqui nes­ta lis­ta.

Participantes, além de Teddy Thompson: Nick Cave, The McGarrigles, Martha Wainwright, Rufus Wainwright, Jarvis Cocker, Beth Orton, Laurie Anderson, a mãe Linda Thompson, Antony Hegarty (ago­ra Anohni) e duas das can­to­ras do coro femi­ni­no ori­gi­nal de Cohen, Perla Batalla e Julie Christensen.

Anohni, If It Be Your Will

Anohni, a artis­ta ante­ri­or­men­te conhe­ci­da pelo nome de nas­ci­men­to, Antony Hegarty, viu o seu talen­to reco­nhe­ci­do quan­do atu­a­va como voca­lis­ta na ban­da Antony and the Johnsons.

Anohni nas­ceu homem por mero capri­cho da Natureza, nas­ceu homem con­tra a sua von­ta­de, mas as mara­vi­lhas da ciên­cia restituíram-​lhe a liber­da­de e o poder de esco­lha. Ela é ago­ra do géne­ro que sem­pre dese­jou ser. O que não mudou foi a sua for­mi­dá­vel voz, como veri­fi­ca­rão quan­do escu­ta­rem a ver­são que fez des­ta can­ção de Leonard Cohen.

Chelsea Hotel No. 2, Rufus Wainwright

Rufus Wainwright é um can­tor e com­po­si­tor nas­ci­do em Nova Iorque. A cover mais conhe­ci­da de «Chelsea Hotel Nº2» é a que Lana Del Rey lan­çou em abril de 2013. Prefiro esta, de lon­ge. Não supor­to a voz e a dic­ção de Lana Del Rey, que me des­cul­pem os fãs.

Wainwright tem uma bela voz e não des­li­za pelos por­me­no­res mais ínti­mos da can­ção com delei­te libi­di­no­so como faz Del Rey, cap­ta a tris­te­za e a soli­dão sub­ja­cen­te ao humor e leve­za da situ­a­ção des­cri­ta por Cohen.

Reagindo à mor­te de Cohen, Wainwright escre­veu no The Guardian: «Para mim, tal como para mui­tos de nós, ele vivia numa cama­da mais alta, habi­ta­da por alguns seres vivos — íco­nes. Seres que pare­cem ter uma liga­ção dire­ta com a galá­xia ao mes­mo tem­po que sabem exa­ta­men­te quan­do devem ir lá fora des­pe­jar o lixo. Formidável, tan­to no sagra­do como no pro­fa­no».

Leonard Cohen, o profano

A can­ção é a his­tó­ria do encon­tro sexu­al entre Leonard Cohen, então com 38 anos, e Janis Japlin, no auge da fama. Aconteceu no Hotel Chelsea, em Manhatten.

As pare­des des­te hotel estão cober­tas de his­tó­ri­as devi­do aos hós­pe­des que por lá pas­sa­ram. Mark Twain e William S. Burroughs vive­ram lá duran­te os tem­pos. Bob Dylan ficou na sui­te núme­ro 2011. Arthur C. Clarke escre­veu «2001: Odisseia no Espaço» enquan­to lá este­ve. Jack Kerouac escre­veu «On the Road» numa das sui­tes. Tom Waits, os Grateful Dead, Jimi Hendrix, todos pas­sa­ram por lá. Até alguns dos sobre­vi­ven­tes do nau­frá­gio do Titanic ali fica­ram algu­mas noi­tes, devi­do à pro­xi­mi­da­de das docas.

E era no Hotel Chelsea que Cohen e Joplin se cos­tu­ma­vam encon­trar às tan­tas da manhã, geral­men­te nos ele­va­do­res. Uma noi­te, ela pro­cu­ra­va Kris Kristofferson, ele ten­ta­va conhe­cer Brigitte Bardot. Nenhum dos dois con­se­guiu. Acabaram por cair nos bra­ços um do outro, por «um pro­ces­so de eli­mi­na­ção», como con­tou Cohen.

«Lembro-​me bem de ti no Hotel Chelsea» — can­ta Cohen. — «Eras famo­sa, o teu cora­ção uma lenda/​Disseste-​me outra vez que pre­fe­ri­as homens bonitos/​Mas que ias abrir uma exce­ção para mim».

«E cer­ran­do os punhos por pes­so­as como nós/​Oprimidas por mode­los de beleza/​Arranjaste-​te e disseste/​Não inte­res­sa. Somos fei­os, mas temos a músi­ca».

Alguns anos depois de ter lan­ça­do a can­ção, já Joplin tinha mor­ri­do, Leonard Cohen lamen­tou ter reve­la­do a iden­ti­da­de da mulher. As refe­rên­ci­as explí­ci­tas a sexo oral na letra incomodaram-​no.

«Uma indis­cri­ção de que me arre­pen­do mui­to. Não gos­to des­se ele­men­to de con­ver­sa de bal­neá­rio. Nunca falei em ter­mos con­cre­tos de uma rela­ção ínti­ma que tenha tido com uma mulher. E se há for­ma de pedir des­cul­pa a um fan­tas­ma, então peço des­cul­pa pela indis­cri­ção que come­ti».

Tinham vol­ta­do a encontrar-​se só numa oca­sião, alguns meses depois de terem ido para a cama. Janis Joplin cumprimentou-​o assim: «Então? Ainda con­ti­nu­as a escre­ver poe­sia para as velhi­nhas?»

There is a War, Cold War Kids

Cold War Kids é mais uma ban­da norte-​americana de indie rock a entrar nes­ta lis­ta de covers. São oriun­dos de Long Beach, na Califórnia, mas não pare­cem mui­to entu­si­as­tas do surf. Seja como for, a ver­são que fize­ram de «There Is War» é memo­rá­vel, de uma ener­gia rock que não jul­ga­ría­mos pos­sí­vel na rein­ter­pre­ta­ção de uma can­ção de Cohen. Mas é, e resul­ta bem.

Dance me to the end of love, Pieter Embrechts & The New Radio Kings

Pieter Embrechts é um bel­ga dos sete ofí­ci­os: can­tor e com­po­si­tor, ator, rea­li­za­dor, ence­na­dor e apre­sen­ta­dor de pro­gra­mas de tele­vi­são. Também deu a voz para as ver­sões bel­gas de fil­mes da Disney e da Pixar.

Como can­tor, notabilizou-​se no seu país com as ban­das El Tattoo del Tigre e The New Radio Kings, cujos temas foram todos com­pos­tos por ele. Foi com esta últi­ma ban­da que cri­ou esta ale­gre ver­são de bai­le de «Dance Me to the End of Love» — uma esco­lha curi­o­sa, como mui­tas outras antes dele, ten­do em con­ta os fac­tos que ins­pi­ra­ram a can­ção.

As coisas não são como parecem. Esta é uma dança macabra

A can­ção pare­ce ser uma cele­bra­ção do amor atra­vés da dan­ça, mas a ima­gem de vio­li­nos a arder indi­ca que esta­mos numa ter­ra onde o amor mor­reu. É um tema pro­fun­da­men­te iró­ni­co e sar­cás­ti­co. É como deci­dir orga­ni­zar uma gran­de jan­ta­ra­da para lamen­tar em con­jun­to a fome no mun­do.

A ima­gem do vio­li­no em cha­mas foi ins­pi­ra­da por um fac­to que nada tem a ver com val­sas român­ti­cas. Nos cam­pos de con­cen­tra­ção, era habi­tu­al os nazis jun­ta­rem peque­nas orques­tras. Os músi­cos eram obri­ga­dos a tocar enquan­to as pes­so­as eram inci­ne­ra­das ou gase­a­das. «Se se inter­pre­tar a can­ção des­te pon­to de vis­ta, torna-​se qual­quer coi­sa de mui­to dife­ren­te», afir­mou Cohen.

Everybody Knows, Tori Sparks

Tori Sparks é uma can­to­ra e com­po­si­to­ra norte-​americana. Nasceu no ber­ço do coun­try em Nashville, mas emancipou-​se. Esteve em Portugal em abril des­te ano. Se não a conhe­cem, inves­ti­guem. Vale a pena. Mulher cora­jo­sa  na for­ma inde­pen­den­te como gere a sua car­rei­ra, ori­gi­nal nas letras, sem­pre ati­vis­ta das cau­sas difí­ceis, sem­pre a mis­tu­rar folk, rock, blu­es e, des­de que se mudou para Barcelona, o fla­men­co.

A cover de «Everybody Knows» está incluí­da no seu últi­mo dis­co, «El Mar», lan­ça­do no ano pas­sa­do e pro­du­zi­do pela pró­pria.

Toda a gente sabe que não é para levar demasiado a sério. Mas é.

A can­ção é pes­si­mis­ta, mas tam­bém tem humor.

O pes­si­mis­mo: «Toda a gen­te sabe que os dados estão lan­ça­dos. Toda a gen­te sabe que a guer­ra aca­bou e os bons per­de­ram. Toda a gen­te sabe que o com­ba­te foi com­bi­na­do. Os pobres per­ma­ne­cem pobres. Os ricos enri­que­cem. É assim que fun­ci­o­na, toda a gen­te sabe.»

O humor: «Toda a gen­te sabe que me amas. Toda a gen­te sabe que me amas, mes­mo. Toda a gen­te sabe que fos­te fiel (tiran­do uma ou duas noi­tes). Toda a gen­te sabe que fos­te dis­cre­to. Mas havia tan­ta gen­te com quem tinhas de te encon­trar sem rou­pa. E toda a gen­te sabe.»

Leonard Cohen sobre esta can­ção: «Sem a músi­ca e as rimas absur­das, a qua­li­da­de funes­ta do tema seria difí­cil de dige­rir. Exagero, por vezes, para a tor­nar mais diver­ti­da, miti­gar uma visão mais som­bria.»

Jarvis Cocker, I Can't Forget

O inglês Jarvis Cocker é mais conhe­ci­do por ser o líder de uma ban­da de cul­to da déca­da de 90, os Pulp, mas a sua car­rei­ra a solo tem sido diver­si­fi­ca­da. Além da músi­ca, Cocker apre­sen­ta um pro­gra­ma de rádio na BBC 6 Radio Music, «Jarvis Cocker's Sunday Service». Leonard Cohen foi entre­vis­ta­do por ele em finais de janei­ro de 2012, numa edi­ção espe­ci­al de duas horas.

Preparado para a luta, se me lembrar de quem eu sou

Cocker tam­bém é recor­da­do por ter inva­di­do o pal­co dos Brit Awards, edi­ção 1996, em pro­tes­to con­tra a atu­a­ção de Michael Jackson. Jackson esta­va a inter­pre­tar a can­ção «Earth Song», rode­a­do por cri­an­ças e um rabi. Cocker foi deti­do, mas liber­ta­do a seguir por não haver quei­xa apre­sen­ta­da con­tra ele. Jackson foi bon­zi­nho... Ou mag­nâ­ni­mo, tal­vez.

A revis­ta Melody Maker publi­cou um arti­go joco­so defen­den­do que lhe devia ser con­ce­di­do o títu­lo de Cavaleiro. Noel Gallagher, dos Oasis, dis­se que ele «era uma estre­la».

Cocker expli­cou mais tar­de por que razão inva­di­ra o pal­co: «Protestei con­tra o fac­to de Micheal Jackson se ver como um Cristo com a capa­ci­da­de de curar os outros».

Momentos em que nos ele­va­mos com os nos­sos prin­cí­pi­os.  Momentos em que luta­mos para saber quem somos, real­men­te.

Momentos de Cohen na can­ção «I Can’t Forget» que Cocker inter­pre­ta: «Tropecei para fora da cama/​Preparado para a luta/​ Acendi um cigarro/​E aper­tei as entranhas./Disse: Isto não pos­so ser eu/​Deve ser o meu duplo./E não pos­so esque­cer, não pos­so esquecer/​Não pos­so esque­cer, mas não me lem­bro do quê.»

«Soa belo, mesmo que não perceba»

Joan of Arc, Anna Calvi

Anna Calvi é uma can­to­ra ingle­sa de indie rock. Ainda o pri­mei­ro dis­co não tinha sido lan­ça­do, já Brian Eno se lhe refe­ria como «a melhor coi­sa que acon­te­ceu des­de Patti Smith».

A cover de Calvi da can­ção «Joan of Arc» é sur­pre­en­den­te, pois reti­ra o ele­men­to pelo qual Leonard Cohen é mais conhe­ci­do: as pala­vras.

A pró­pria expli­cou a deci­são de trans­for­mar o tema num ins­tru­men­tal: «Achei-​as tão atmos­fé­ri­cas que me sen­ti ins­pi­ra­da a recri­ar na gui­tar­ra o ambi­en­te suge­ri­do pelas letras».

Tal como todos os outros músi­cos que fize­ram ver­sões de Cohen, veneram-​se as pala­vras. «Às vezes não faço ideia do que ele está a falar, mas soa inte­li­gen­te e belo». Calvi referia-​se à can­ção «True Love Leaves No Traces», do dis­co que o cana­den­se fez com o pro­du­tor Phil Spector em 1977, «Death of a Ladies Man».

«Mas tam­bém suce­de mui­tas vezes soa­rem belas e inte­li­gen­tes, e eu per­ce­ber exa­ta­men­te o que ele quer dizer. Por exem­plo, quan­do can­ta: 'Tal como o nevo­ei­ro não dei­xa mar­cas nas coli­nas verde-​escuras, tam­bém o meu cor­po não dei­xa mar­cas em ti — e nun­ca dei­xa­rá'. Tem uma qua­li­da­de hip­nó­ti­ca».

Hey, That's No Way To Say Goodbye, Phosphorescent

O gru­po de rock alter­na­ti­vo Phosphorescent é a ban­da do com­po­si­tor Matthew Houck, um ame­ri­ca­no nas­ci­do na Geórgia e que se mudou para Brooklyn, Nova Iorque. Os pri­mei­ros três dis­cos eram mais inti­mis­tas, mais vira­dos para o folk. O quar­to dis­co, dedi­ca­do a Willie Nelson, fez Houck explo­rar o ter­ri­tó­rio do country-​rock, uma explo­ra­ção que pros­se­gue até hoje.

Omnia, Teachers

Omnia é uma ban­da holan­de­sa e a músi­ca que fazem resul­ta de uma mis­tu­ra de raí­zes. Um folk pagão neo­cél­ti­co, pode dizer-​se assim, com ori­gens irlan­de­sas, ingle­sas, ale­mãs, bre­tãs, bel­gas, per­sas e, cla­ro, holan­de­sas.

As suas can­ções são um refle­xo des­tas múl­ti­plas ori­gens. Cantam em inglês, irlan­dês, bre­tão, fin­lan­dês, ale­mão, latim e até na lín­gua hin­du. Tocam har­pa cel­ta, har­pa de boca, vio­lão, flau­ta e vári­os tipos de bate­ria pou­co comuns, bem como outros ins­tru­men­tos de per­cus­são exó­ti­cos.

O que os atrai na músi­ca de Cohen são os tra­ba­lhos mais «depres­si­vos», como os pró­pri­os afir­mam. «The Teacher» é uma can­ção de home­na­gem a todos aque­les que o músi­co cana­den­se con­si­de­rou pro­fes­so­res, mas para os ele­men­tos dos Omni Leonard Cohen é, em si, «o pro­fes­sor».

«Ontem pas­sei a noi­te a ouvir algu­mas das minhas can­ções pre­fe­ri­das de Leonard Cohen.» — Escreveu Steve "Sic" Evans van der Harten, voca­lis­ta e ins­tru­men­tis­ta da ban­da, no dia em que sou­be do fale­ci­men­to. «Já não o ouvia há alguns meses, mas esta­va numa daque­las noi­tes. Precisava de ouvir as pala­vras de sabe­do­ria e lou­cu­ra des­te poe­ta sua­ve.»

«De manhã, vejo a notí­cia. Tinha mor­ri­do o mes­tre da depres­são, da melan­co­lia, do sui­cí­dio, do roman­tis­mo. As tuas lições ter­mi­na­ram, mes­tre, mas serás sem­pre o nos­so pro­fes­sor».

Seems so long ago, Nancy, Bradford Cox-bradford-cox

O norte-​americano Bradford Cox é conhe­ci­do prin­ci­pal­men­te como voca­lis­ta e gui­tar­ris­ta de uma ban­da de indie rock cha­ma­da Deerhunter. Nos pro­je­tos a solo assi­na como Atlas Sound — a expres­são que usa des­de ado­les­cen­te para defi­nir a sua músi­ca.

Na Casa do Mistério

Não foi uma ado­les­cên­cia nada fácil. Cox sofre de uma doen­ça do teci­do con­jun­ti­vo cha­ma­da Síndrome de Marfan. É uma desor­dem gené­ti­ca. Os que a têm cos­tu­mam ser mui­to altos, exces­si­va­men­te magros, com dedos mui­to lon­gos e finos. Têm pro­ble­mas car­di­o­vas­cu­la­res, den­tá­ri­os, ocu­la­res. Não há cura para o sín­dro­ma, embo­ra os seus sin­to­mas pos­sam ser con­tro­la­dos.

Cox desis­tiu do liceu, os pais divorciaram-​se, pas­sou o fim da infân­cia e o iní­cio da ado­les­cên­cia fecha­do em casa na mai­or par­te do tem­po. Sem ami­gos, inca­paz de soci­a­li­zar devi­do ao seu «aspe­to esqui­si­to», come­çou a pro­cu­rar músi­ca que refle­tis­se o seu esta­do de espí­ri­to: melan­có­li­co, nos­tál­gi­co, des­gos­to­so. Identificava-​se com o per­so­na­gem prin­ci­pal de «Eduardo Mãos de Tesoura», de Tim Burton.

Cox é gay, o que lhe trou­xe ain­da mais pro­ble­mas. Ou pelo menos assim o dizia. Continua a assumir-​se «que­er», mas pre­fe­re definir-​se como asse­xu­al: «Não tenho gran­de auto­es­ti­ma, por isso ser asse­xu­al é uma zona de con­for­to para mim, um sítio onde não me sin­to rejei­ta­do.»

Bradford Cox esco­lheu a can­ção «Seems So Long Ago, Nancy» e a esco­lha é apro­pri­a­da à sua pró­pria vida. Fala de soli­dão, de casas em que nos encer­ra­mos, da inca­pa­ci­da­de dos outros em abrir por­tas, da nos­sa inca­pa­ci­da­de em abri-​las para os outros.

Cohen can­ta sobre uma rapa­ri­ga que conhe­ceu no Canadá em 1961: «Ela dor­mia com toda a gen­te. Toda a gen­te. Teve um filho, mas o filho foi-​lhe reti­ra­do. Então dis­pa­rou con­tra si pró­pria na casa de banho.»

O sui­cí­dio afetou-​o pro­fun­da­men­te, pois sen­tiu que o des­fe­cho podia ter sido evi­ta­do pelos ami­gos. «Dissemos-​lhe que ela era bela/​Dissemos-​lhe que ela livre/​Mas nenhum de nós se quis encon­trar com ela/​ Na Casa do Mistério».

Coisas profanas sempre foram boas para abanar a carola

Master Song, Beck

O que Beck e com­par­sas fize­ram a «Master Song» é um sacri­lé­gio para alguns. Talvez Cohen tives­se gos­ta­do da ousa­dia. Muitas vezes apre­sen­ta­va a can­ção da seguin­te for­ma: «É uma can­ção sobre uma trin­da­de [a Santíssima], mas dei­xe­mos isso para os aca­dé­mi­cos. É uma can­ção sobre três pes­so­as.»

A ver­são de Beck é sobre três pes­so­as, sem dúvi­da. A Santíssima Trindade que Cohen evo­ca (e deli­ci­o­sa­men­te sub­ver­te) na ver­são ori­gi­nal ficou à por­ta do estú­dio.

A cover de Beck e ami­gos faz par­te de um pro­je­to que ele ini­ci­ou em 2008. «Record Club» con­sis­te em gra­var, num úni­co dia, de for­ma fluí­da e infor­mal, covers de um álbum intei­ro de um deter­mi­na­do músi­co. Beck esco­lheu, para come­çar, o dis­co de estreia «Songs of Leonard Cohen», lan­ça­do em 1967.

O «Master Song» nas mãos dele e dos ami­gos talen­to­sos é uma jam cheia de funk. Um rit­mo de dan­ça hip­nó­ti­co mar­ca­do pelo bai­xo elé­tri­co e a per­cus­são ele­tró­ni­ca. E as pala­vras de Cohen são usa­das para fazer um cartoon-​rap, como se esti­ves­sem des­pro­vi­das de sig­ni­fi­ca­do espe­ci­al. Um gozo, uma des­bun­da típi­ca de músi­cos.

Nem os fãs para quem as pala­vras de Cohen são sagra­das podem achar que Beck foi des­res­pei­to­so. Sobretudo ten­do em con­ta o que ele escre­veu aquan­do da notí­cia do fale­ci­men­to.

Eis os seus ver­da­dei­ros sen­ti­men­tos em rela­ção à obra do músi­co e poe­ta:

«Adeus, Leonard, obri­ga­do pelas pala­vras, pelas can­ções, pela tua vida — um cava­lhei­ro, um mes­tre, um herói. Obrigado por olha­res de for­ma tão pro­fun­da. Por par­ti­lha­res os teus dia­man­tes bela­men­te lapi­da­dos. Por ilu­mi­na­res os can­tos mais obs­cu­ros onde vivem as nos­sas almas. Por tra­du­zi­res o 'outro' que pode­mos reco­nhe­cer, mas rara­men­te con­se­gui­mos expres­sar.»

Suzanne, Scott Helman

Scott Helman é um miú­do de 21 anos nas­ci­do no Canadá, como Cohen, can­tor e com­po­si­tor como ele.

A sua músi­ca é vis­ta como um cru­za­men­to entre o aus­tra­li­a­no Vance Joy e do já men­ci­o­na­do Jeff Buckley, esse estu­pen­do artis­ta que pro­du­ziu uma inter­pre­ta­ção tão vis­ce­ral de «Hallelujah» que mui­tos músi­cos que se segui­ram fize­ram covers à sua cover.

Helman ouve músi­cos como Sun Kil Moon ou Hozier, mas a sua devo­ção pas­sa sobre­tu­do pelo que se fazia nas déca­das de 60 e 70. «Músicos como Leonard Cohen, Pink Floyd, Bob Marley, Bod Dylan ou Neil Young tinham uma liga­ção com a músi­ca que é, hoje em dia, com­ple­ta­men­te ali­e­ní­ge­na. Acho que nun­ca vol­ta­rei a ter o mes­mo grau de apre­ci­a­ção por novos artis­tas que tenho por estes».

The Stranger Song, The Miserable Rich

The Miserable Rich é uma ban­da de um géne­ro a que se con­ven­ci­o­nou cha­mar de «cham­ber pop». Este, por sua vez, é um sub­gé­ne­ro do indie pop, seja o que for que todas essas coi­sas sig­ni­fi­ca­rem. E não sig­ni­fi­cam mui­to, na ver­da­de.

A ban­da usa prin­ci­pal­men­te o vio­lon­ce­lo e o vio­li­no como ins­tru­men­tos prin­ci­pais — e ain­da bem que o fazem, por­que a ver­são de «The Stranger Song» é belís­si­ma.

Aliás, esta é melo­di­ca­men­te a minha pre­fe­ri­da de Cohen. A que mais me toca. Arrepia-​me, de tão bela que é. Questão de gos­tos, cla­ro. Mas nun­ca as pala­vras de Bob Dylan fize­ram tan­to sen­ti­do como quan­do oiço esta can­ção: «Quando as pes­so­as falam sobre o Leonard esquecem-​se de men­ci­o­nar as suas melo­di­as. Para mim, jun­ta­men­te com as letras, são a sua mai­or geni­a­li­da­de. Tanto quan­to sei, nin­guém na músi­ca moder­na lhe che­ga per­to».

Já que esta­mos tão melo­di­o­sos, apro­vei­to para par­ti­lhar o que Leonard Cohen dis­se quan­do Dylan ganhou o Prémio Nobel da Literatura: «Senti-​me como se tives­sem entre­gue uma meda­lha ao Monte Evereste por ser a mon­ta­nha mais alta do mun­do».

I'm Your Man, Nick Cave

Não é de admi­rar a pre­sen­ça de Nick Cave nes­ta lis­ta, dada a sua lon­ga devo­ção por Leonard Cohen. «Era impos­sí­vel de imi­tar» — escre­veu. — «O melhor de todos nós».

O poe­ta, roman­cis­ta, autor de can­ções, voca­lis­ta, gui­tar­ris­ta e teclis­ta aus­tra­li­a­no tem o seguin­te para dizer sobre a impor­tân­cia de Leonard Cohen na sua vida: «Foi o pri­mei­ro artis­ta que des­co­bri sozi­nho. Antes só ouvia a músi­ca que o meu irmão me mos­tra­va, era como uma ove­lha num reba­nho. Ele tornou-​se o sím­bo­lo da minha inde­pen­dên­cia musi­cal.»

«A tris­te­za de Cohen era ins­pi­ra­do­ra. Deu-​me imen­sas ener­gi­as. Lembro-​me sem­pre dis­to quan­do alguém diz que os meus dis­cos são mór­bi­dos ou depri­men­tes — exa­ta­men­te o mes­mo tipo de coi­sas que alguns dos meus ami­gos dizi­am quan­do lhes ten­ta­va mos­trar dis­cos do Leonard Cohen».

Who by Fire, Lhasa De Sela

Lhasa de Sela, belís­si­ma can­to­ra, esta­va des­ti­na­da a inter­pre­tar Leonard Cohen. Digo-​o por­que a úni­ca con­vic­ção irra­ci­o­nal que tenho é a ideia de que, de uma for­ma dire­ta ou indi­re­ta, os bons músi­cos aca­bam sem­pre por encontrar-​se.

Chamavam-​lhe a can­to­ra nóma­da por cau­sa da sua infân­cia: os pais de Lhasa, ele mexi­ca­no, ela ame­ri­ca­na, tam­bém artis­tas, vivi­am numa car­ri­nha de esco­la trans­for­ma­da em cara­va­na. A sua infân­cia foi pas­sa­da em cons­tan­tes via­gens entre os Estados Unidos e o México. Encorajada pelos pais, can­ta­va e impro­vi­sa­va peque­nas peças de tea­tro.

Nunca fre­quen­tou a esco­la. Foi a mãe que se encar­re­gou da sua for­ma­ção. E foi sufi­ci­en­te. Lhasa cres­ceu num mun­do vira­do para a des­co­ber­ta artís­ti­ca, lon­ge da cul­tu­ra con­ven­ci­o­nal.

Lhasa de Sela mor­reu a 1 de Janeiro de 2010. Cancro da mama, essa puta de doen­ça que anda a matar tan­tas mulhe­res.

As pri­mei­ras notí­ci­as sur­gi­ram no Twitter. Horas depois, a edi­to­ra que repre­sen­ta a can­to­ra des­men­tia: «Por res­pei­to para com Lhasa, fica­re­mos mui­to agra­de­ci­dos se aca­ba­rem com esse rumor». Em Junho, Lhasa tive­ra de can­ce­lar uma digres­são euro­peia devi­do aos pro­ble­mas de saú­de e às exi­gên­ci­as do tra­ta­men­to. «Por uma ques­tão de pru­dên­cia, não pode­mos sujeitá-​la ao stress que estas digres­sões acar­re­tam», foi então expli­ca­do.

A edi­to­ra precipitara-​se no des­men­ti­do e pro­va­vel­men­te sabia tan­to como os fãs. A notí­cia difun­di­da no Twitter, afi­nal, cor­res­pon­dia à ver­da­de. Falecera pou­co antes da meia-​noite do dia 1 de Janeiro na sua casa em Montreal, Canadá.

Bird on a Wire, Marc Ribot & My Brightest Diamond

So Long Marianne, Bill Callahan

Marc Ribot é um dos melho­res gui­tar­ris­tas da atu­a­li­da­de, seja qual for a área musi­cal em que deci­de movimentar-​se: jazz, rock, funk, impro­vi­sa­ção livre.

Estudou com o mes­tre da gui­tar­ra havai­a­na Frantz Casseus, tra­ba­lhou com Tom Waits e John Lurie nos Lounge Lizards, gra­vou e subiu ao pal­co com gen­te como Elvis Costello, Robert Plant (o dos Led Zeppelin), Laurie Anderson, Caetano Veloso, Wilson Pickett, Chuck Berry, McCoy Tyner, pia­nis­ta de Coltrane, James Carter, Norah Jones e Elton John.

My Brightest Diamond é o pro­je­to da can­to­ra e com­po­si­to­ra Shara Nova. Nova cru­za as influên­ci­as da músi­ca clás­si­ca que estu­dou exten­si­va­men­te com o rock alter­na­ti­vo que come­çou a des­co­brir.

Compositores como Sarah Kirkland Snider, David Lang, Steve Mackey ou Bryce Dessner escre­ve­ram peças exclu­si­va­men­te para a voz dela. Shara Nova gra­vou com David Byrne, Laurie Anderson, The Decemberists, Sufjan Stevens, Jedi Mind Tricks, The Blind Boys of Alabama e os Stateless, entre outros.

Bill Calahan, que faz a cover de «So Long Marianne», é um can­tor folk de Maryland. O seu esti­lo é lo-​fi: gra­va álbuns intei­ros em casa usan­do ape­nas gra­va­do­res de qua­tro pis­tas. Tal como o Leonard Cohen dos pri­mei­ros anos, os seus arran­jos são mini­ma­lis­tas, redu­zi­dos ao osso.

Marianne, a mulher, a musa, o pássaro livre

Cohen com Marianne Ihlen

Cohen com Marianne Ihlen

«Bird on a Wire» e «So Long Marianne» têm em comum uma mulher: Marianne Ihlen, a pri­mei­ra musa de Cohen, tal­vez a úni­ca. Ele descreveu-​a como «per­fei­ta». A «mulher mais bela que algu­ma vez vira». Foi duran­te o tem­po em que vive­ram jun­tos que Cohen pas­sou de poe­ta, a poe­ta e can­tor.

Estiveram jun­tos duran­te dez anos, mas a nova vida de Cohen, as digres­sões, as mulhe­res for­tui­tas às quais não resis­tia por ser um mulhe­ren­go, aca­ba­ram a pou­co e pou­co por minar a rela­ção.

Marianne ain­da se mos­trou dis­pos­ta a tole­rar as infi­de­li­da­des, mas quan­do o visi­tou, em Montreal, sen­tiu que já não era pos­sí­vel fazer par­te da vida dele. E par­tiu.

Foram man­ten­do con­tac­to até ao res­to da vida, mas sem­pre sepa­ra­dos. Norueguesa de nas­ci­men­to, ela regres­sou à Europa. Ele ficou por Montreal, por Nova Iorque, no hotel Chelsea, na sui­te onde fez amor com Janis Joplin.

Nunca esque­ceu Marianne. Falando das duas can­ções que lhe dedi­cou, Cohen escre­veu: «As pes­so­as mudam. Os seus cor­pos mudam. Os cabe­los tornam-​se cin­zen­tos. Os cor­pos entram em deca­dên­cia e mor­rem. Mas há qual­quer coi­sa que não muda, quan­do se tra­ta de amor e dos sen­ti­men­tos que se tem pelos outros».

«Marianne, a mulher das can­ções, quan­do lhe oiço a voz ao tele­fo­ne sin­to que algo se man­te­ve intac­to. Sinto que o amor nun­ca mor­re. E quan­do há emo­ção sufi­ci­en­te for­te para a trans­for­mar em can­ções, há qual­quer coi­sa nes­sa emo­ção que é indes­tru­tí­vel».

Marianne mor­reu a 29 de julho des­te ano, com leu­ce­mia. Tinha 81 anos. Dois dias antes, uma ami­ga comum, a docu­men­ta­ris­ta Jan Christian Mollestad, con­tac­ta­ra Cohen para o infor­mar do que esta­va para acon­te­cer. Duas horas depois, o can­tor envi­ou uma men­sa­gem. Mollestad leu-​a a Marianne, que ain­da esta­va cons­ci­en­te mas já não con­se­guia levantar-​se da cama:

«Chegámos ao momen­to em que os nos­sos cor­pos estão tão velhos que se des­mo­ro­nam. Acho que te segui­rei em bre­ve. Quero que sai­bas que estou tão per­to de ti que, se esten­de­res uma mão, pode­rás alcan­çar a minha.»

«Sabes que sem­pre te amei pela tua bele­za e sabe­do­ria. Mas não pre­ci­so de dizer nada por­que tu sabes tudo sobre isso. Só que­ro desejar-​te uma boa jor­na­da. Adeus, velha ami­ga. Amor eter­no, ver-​te-​ei ao lon­go do cami­nho.»

Mollestad con­tou que ao che­gar à par­te em que Cohen men­ci­o­na­va que a segui­ria em bre­ve e, se esten­des­se uma mão, alcan­ça­ria a dele, Marianne sor­riu e esten­deu o bra­ço.

Nos momen­tos finais da sua vida, Mollestad cantou-​lhe o «Bird on a Wire», a can­ção com a qual ela mais se iden­ti­fi­ca­va. E quan­do final­men­te par­tiu, beijou-​a na tes­ta e sussurrou-​lhe as úni­cas pala­vras de des­pe­di­da que lhe pare­ce­ram apro­pri­a­das: «So long Marianne».

Marco Santos

­ Marco Santos

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