Este um post atra­vés do qual se divul­ga a ban­da sono­ra de 2001: Odisseia no Espaço, rea­li­za­do em 1968, e até à data o melhor fil­me de fic­ção cien­tí­fi­ca algu­ma vez fei­to.

A ter­mi­nar, ain­da ten­to escre­ver qual­quer coi­sa sobre o fil­me: não sen­do crí­ti­co de cine­ma nem ten­do pre­ten­sões a sê-​lo, 2001 marcou-​me de tal for­ma que não pos­so dei­xar de lhe dedi­car uma aden­da. Para já, e tão mara­vi­lho­sa como a obra-​prima de mes­tre Stanley Kubrick, deixo-​vos a músi­ca.

2001: Odisseia no Espaço

Alvorecer

Also Sprach Zarathustra

Also Sprach Zarathustra

Este é um poe­ma sin­fó­ni­co com­pos­to em 1896 por Richard Strauss, que esta­va fas­ci­na­do com as idei­as do filó­so­fo Friedrich Nietzsche (bio­gra­fia) no livro Also Sprach Zarathustra. (Assim Falou Zarathustra: Wikipedia). A sec­ção de Abertura – Dawn – foi usa­da por Kubrick três vezes, mas a mais conhe­ci­da é a que acom­pa­nha a sequên­cia ini­ci­al do fil­me.

Zarathustra, livro, defen­de a ideia de que os seres huma­nos são ape­nas a tran­si­ção entre os maca­cos e o que Nietzsche cha­mou de Übermensch (Além-​do-​homem, nor­mal­men­te tra­du­zi­do como Super-​homem).

Embora esta ideia tenha ori­gi­na­do cri­mi­no­sas inter­pre­ta­ções (ler estas rela­ções entre Nazismo e Nietzsche), Kubrick sou­be apropriar-​se do des­per­tar do Übermensch, cele­bra­ção de Strauss, geni­al com­po­si­tor, e dar-​nos uma visão subli­me e huma­nis­ta do enig­ma enfren­ta­do por seres huma­nos de exis­tên­cia fini­ta mas capa­zes de com­pre­en­der que, para além de Júpiter, de qual­quer Júpiter, exis­te sem­pre o Infinito: pre­ten­der alcan­çar o limi­te do conhe­ci­men­to é como ten­tar alcan­çar a linha do hori­zon­te.

Monolito

Requiem for Soprano, Mezzo Soprano, Two Mixed Choirs & Orchestra

Requiem for Soprano, Mezzo Soprano, Two Mixed Choirs & Orchestra

E então Kubrick sur­pre­en­deu os espec­ta­do­res. Quando todos espe­ra­vam um fil­me de fic­ção cien­tí­fi­ca mos­tran­do uma sofis­ti­ca­da cida­de do sécu­lo XXI, Kubrick deu-​lhes maca­cos e fez recu­ar a Humanidade 4 milhões de anos na sequên­cia ini­ci­al «O Alvorecer do Homem».

Sob a influên­cia do mono­li­to, o pri­ma­ta torna-​se capaz de fabri­car um ins­tru­men­to de guer­ra a par­tir de um peda­ço de osso. O sal­to de 4 milhões de anos para o futu­ro é dado por uma das mon­ta­gens mais famo­sas da his­tó­ria do cine­ma quan­do o pri­ma­ta, triun­fan­te, lan­ça o osso ao ar e ele é subs­ti­tuí­do pela visão de uma nave espa­ci­al.

A pre­sen­ça do mono­li­to e a sua influên­cia na evo­lu­ção do Homem é o mis­té­rio que atra­ves­sa todo o fil­me – sem nun­ca ser expli­ca­do.

Kubrick usa a músi­ca de Gyorgy Ligeti, fabu­lo­so com­po­si­tor de van­guar­da que mere­ce­rá um post por si só.

O Requiem de Ligeti trans­mi­te à cena em que o pri­ma­ta encon­tra o mono­li­to um carác­ter qua­se reli­gi­o­so. Arthur C. Clarke é ateu, e nos livros que publi­cou com as diver­sas con­ti­nu­a­ções da his­tó­ria, aca­bou por reve­lar o Monolito – 3001: Odisseia Final – como sen­do ape­nas uma máqui­na mane­já­vel pelo Homem. Mas Kubrick, judeu, tinha outra visão: o pri­ma­ta que ten­ta tocar no mono­li­to assu­me uma posi­ção seme­lhan­te à de Adão e Deus na pin­tu­ra de Miguel Ângelo da Capela Cistina, em Roma.

Observamo-​lo na sequên­cia esten­den­do a mão para o mono­li­to como o faz Adão na cri­a­ção do pin­tor renas­cen­tis­ta e como, de res­to, qua­tro milhões de anos depois no fil­me, o faz Heywood R. Floyd quan­do inves­ti­ga outro mono­li­to que fora enter­ra­do na Lua. Bowman tam­bém esten­de a mão ao mono­li­to, no final do fil­me. [Fonte: A Odisseia Musical de 2001, de Miguel Andrade]

Danças cósmicas

The Blue Danube

The Blue Danube

Quando Johann Strauss II (filho mais novo da famí­lia de com­po­si­to­res Strauss) compôs o seu Danúbio Azul, já era conhe­ci­do em Viena como o Rei das Valsas. A fama e o reco­nhe­ci­men­to públi­co levaram-​no a via­jar pela Europa e Estados Unidos onde, em 1876, por oca­sião das come­mo­ra­ções dos 100 anos da inde­pen­dên­cia ame­ri­ca­na, con­du­ziu uma orques­tra de 1000 músi­cos na cida­de de Boston.

Embora não seja con­si­de­ra­da a melhor val­sa de Strauss, Danúbio Azul (nome abre­vi­a­do pela pas­sa­gem dos sécu­los, pois o ori­gi­nal é No Belo Danúbio Azul) con­quis­tou ilus­tres admi­ra­do­res: Wagner afirmou-​se «encan­ta­do» e Brahms escre­veu num guar­da­na­po o seguin­te comen­tá­rio sobre a obra: «Infelizmente não é minha.»

Esta val­sa acom­pa­nha a dan­ça das naves espa­ci­ais no fil­me de Kubrick e pare­ce trans­for­mar as leis de Newton em par­ti­tu­ras. São qua­se 15 minu­tos sem diá­lo­gos, ape­nas a visão de uma nave do esti­lo Vai-​Vem em sua­ve apro­xi­ma­ção à Estação Orbital e, depois, na segun­da par­te, duran­te a via­gem que leva o inves­ti­ga­dor Heywood R. Floyd da Estação à Lua. Fãs de fic­ção cien­tí­fi­ca de acção pode­rão achar esta sequên­cia enfa­do­nha: é con­tem­pla­ti­va, sem mon­ta­gens fre­né­ti­cas, lasers ou sabres de luz.

Kubrick que­ria fazer um fil­me tão rea­lis­ta que teve como con­sul­to­res espe­ci­a­lis­tas da NASA (para toda a panó­plia de efei­tos espe­ci­ais rela­ci­o­na­dos com a nave, os astro­nau­tas e a Cosmologia) e da IBM (para os com­pu­ta­do­res uti­li­za­dos). Não admi­ra, por­tan­to, que um fil­me pro­du­zi­do em 1968 tenha sido capaz de ante­ci­par, com exac­ti­dão, pro­jec­tos como o Space Shuttle ou a Estação Orbital Internacional.

O apoio da IBM não durou mui­to tem­po. Quando a empre­sa sou­be que o prin­ci­pal com­pu­ta­dor da nave – HAL 9000 – se tor­na­ria o mau da fita, retirou-​se do pro­jec­to. Por isso se diz que o nome HAL é uma refe­rên­cia vela­da (e iró­ni­ca) à IBM: H aci­ma do I, A aci­ma do B, L aci­ma do M. Kubrick afas­tou estas espe­cu­la­ções, afir­man­do tratar-​se ape­nas de uma coin­ci­dên­cia.

Abismos

Gayane Ballet Suite

Gayane Ballet Suite

Combine-​se a sequên­cia em que uma peque­na nave espa­ci­al nave­ga entre os abis­mos do Espaço ruman­do em direc­ção a Júpiter e o adá­gio de Gayane Ballet Suite, do com­po­si­tor geor­gi­a­no Aram Khachaturian, e tem-​se a visão subli­me da soli­dão. Penso que foi o que Kubrick e o escri­tor de fic­ção cien­tí­fi­ca Arthur C. Clarke (co-​autor do argu­men­to) qui­se­ram mos­trar: não a soli­dão no sen­ti­do indi­vi­du­al, mas a soli­dão da espé­cie huma­na.

É uma con­tra­di­ção evi­den­te, qua­se impos­sí­vel de resol­ver, a for­ma como a nos­sa inte­li­gên­cia con­se­gue abar­car espa­ços e tem­pos tão vas­tos e, ao mes­mo tem­po, a nos­sa exis­tên­cia físi­ca como indi­ví­du­os ser tão peque­na e insig­ni­fi­can­te. Ao entrar­mos no inte­ri­or da nave espa­ci­al, a sen­sa­ção de soli­dão que nos trans­mi­te o silên­cio gela­do do Cosmos per­ma­ne­ce na inex­pres­si­vi­da­de dos astro­nau­tas Dave Bowman e Frank Poole, entre­gues a tare­fas de roti­na de manu­ten­ção e sem dize­rem uma pala­vra um ao outro.

Apenas HAL, a inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al que coman­da os des­ti­nos da nave, mais expres­si­va e emo­ci­o­nal que os huma­nos, conhe­ce a ver­da­dei­ra natu­re­za da mis­são: ir ao encon­tro do gigan­tes­co mono­li­to que se encon­tra em órbi­ta de Júpiter.

Mistérios Lunares

Lux Aeterna

Lux Aeterna

Ligeti, com­po­si­tor de ori­gem hún­ga­ra, judeu, fale­ci­do a 12 de Junho des­te ano, em Viena, escre­veu Lux Aeterna em 1966, um ano antes da estreia de 2001. A peça foi com­pos­ta de acor­do com uma téc­ni­ca conhe­ci­da como Massa Sonora para um coro de 16 vozes solis­tas. É uma estru­tu­ra que pres­cin­de do rit­mo e da melo­dia e uti­li­za a har­mo­nia com o objec­ti­vo de pro­du­zir vari­a­ções de tim­bres vocais ao lon­go do tem­po. Ligeti inven­tou o ter­mo micro­po­li­fo­nia para des­cre­ver esta téc­ni­ca com­po­si­ci­o­nal. (Fonte: Wikipédia)

Kubrick usou mui­tas com­po­si­ções de Ligeti nos seus fil­mes: em 2001, mas tam­bém em Shining ou Eyes Wide Shut.

A uti­li­za­ção das peças de Ligeti – com­po­si­tor vir­tu­al­men­te des­co­nhe­ci­do do gran­de públi­co – ajudou-​o a fil­mar a cin­zen­ta deso­la­ção da Lua e o carác­ter qua­se divi­no, trans­cen­den­tal, do mono­li­to.

Não exis­tem mui­tos diá­lo­gos em 2001. Ao con­trá­rio dos fil­mes de fic­ção cien­tí­fi­ca da épo­ca, não temos per­so­na­gens cuja exis­tên­cia se jus­ti­fi­ca ape­nas para expli­car ao espec­ta­dor o que está a ver: Kubrick deixa-​nos sozi­nhos com a sua visão e a músi­ca que esco­lheu.

2001 foi rea­li­za­do cer­ca de um ano antes de outra odis­seia – a dos astro­nau­tas da Apollo 11 que, a 20 de Julho de 1969, alu­na­ram no Mar da Tranquilidade – o cul­mi­nar de uma cor­ri­da espa­ci­al entre os Estados Unidos e a União Soviética ini­ci­a­da em 1957 quan­do os rus­sos colo­ca­ram em órbi­ta o pri­mei­ro ser vivo – uma cade­la Laika a bor­do da Sputnik II – e, em 1961, ven­ce­ram os Estados Unidos colo­can­do o pri­mei­ro homem no Espaço, Yuri Gagarin, num voo orbi­tal de 48 minu­tos a bor­do da nave Vostok I. À seme­lhan­ça de Neil Armstrong, o pri­mei­ro homem a pisar a Lua, tam­bém Gagarin have­ria de dizer uma fra­se céle­bre: «A Terra é azul, e eu não vi Deus».

Esta com­pe­ti­ção entre Estados Unidos e União Soviética – uma de entre as mui­tas faces da Guerra Fria – atra­ves­sou toda a déca­da de 60. O pró­prio 2001, pos­si­vel­men­te con­tra a von­ta­de de Kubrick e sobre­tu­do de Arthur C. Clarke, aca­ba­ria por entrar nas con­tas des­sa guer­ra quan­do foi suge­ri­do no Ocidente que Solaris, de Andrei Tarkovski, base­a­do no livro de Stanislaw Lem, era a res­pos­ta cine­ma­to­grá­fi­ca da URSS ao fil­me ame­ri­ca­no. Steven Soderbergh, que rea­li­zou a rema­ke de Solaris, afir­mou numa entre­vis­ta ao New York Times ter ima­gi­na­do «o pla­ne­ta (Solaris) como o equi­va­len­te ao mono­li­to do 2001». Tarkovsky viu 2001 antes de ini­ci­ar as fil­ma­gens de Solaris e não gos­tou: «É um fil­me frio e esté­ril».

2001 levou mui­tas pes­so­as à Lua e rumo ao futu­ro mas, não obs­tan­te o conhe­ci­do fei­tio per­fec­ci­o­nis­ta de Kubrick, não con­se­guiu esca­par a alguns erros. Por for­ça do des­co­nhe­ci­men­to ain­da exis­ten­te sobre a Lua, não foi pos­sí­vel recre­ar com per­fei­ção os efei­tos da ausên­cia de gra­vi­da­de sobre os astro­nau­tas. A altu­ra das mon­ta­nhas é exces­si­va e os efei­tos da ero­são sobres­ti­ma­dos – seja como for, não foram estas peque­nas defi­ci­ên­ci­as do fil­me que moti­va­ram as crí­ti­cas nega­ti­vas que rece­beu. Pauline Kael, da revis­ta The New Yorker, conhe­ci­da pelas suas crí­ti­cas eru­di­tas, elo­quen­tes e saga­zes, clas­si­fi­cou 2001 como um fil­me «monu­men­tal­men­te pou­co ima­gi­na­ti­vo». A monu­men­tal Kael mor­reu em 2001.

Mas sobre esta pecu­li­ar raça – os crí­ti­cos – já o gran­de com­po­si­tor Erik Satie se pro­nun­ci­a­ra de for­ma apro­pri­a­da [ver tex­to Elogio dos Críticos].

A responsabilidade de HAL

Hal Montage

Hal Montage

Não se tra­ta des­ta vez de uma músi­ca, mas de uma cola­gem (9:41) dos diá­lo­gos do com­pu­ta­dor HAL no fil­me. A voz per­ten­ce ao actor Douglas Rain. Rain, nas­ci­do no Canadá, actor de tea­tro aci­ma de tudo, nun­ca che­gou a pisar o local de fil­ma­gens.

HAL, a máqui­na, é o resul­ta­do daqui­lo que, em 1968, se pen­sa­va sobre a evo­lu­ção dos com­pu­ta­do­res: quan­to mais sofis­ti­ca­dos, mai­o­res seri­am. Sabemos ago­ra que a pre­vi­são falhou, pois caminhou-​se no sen­ti­do opos­to – o da mini­a­tu­ri­za­ção dos com­po­nen­tes elec­tró­ni­cos.

O pri­mei­ro cir­cui­to elec­tró­ni­co mini­a­tu­ri­za­do sur­gi­ra em finais dos anos 50, na Texas Instruments, quan­do o enge­nhei­ro Jack Kilby fun­diu cin­co tran­sís­to­res numa bar­ra de 1,5 cen­tí­me­tros qua­dra­dos. O que não se podia supor é que fôs­se­mos capa­zes de dimi­nuir até mil vezes o tama­nho dos cir­cui­tos (Ver Nanotecnologia).

A ideia de um com­pu­ta­dor capaz de falar como um ser cons­ci­en­te tam­bém está lon­ge do que é pos­sí­vel conseguir-​se hoje em dia. Por outro lado, um com­pu­ta­dor capaz de jogar xadrez e, ain­da por cima, ven­cer um ser huma­no (como no jogo con­tra um dos tri­pu­lan­tes, Frank Poole), era impen­sá­vel na épo­ca – e temos todos bem cons­ci­ên­cia das par­ti­das em que o super-​computador Deep Blue ven­ceu o cam­peão Gary Kasparov.

HAL, a per­so­na­gem, é mui­to mais com­ple­xa. O com­pu­ta­dor tem a seu car­go a manu­ten­ção da nave e, ao mes­mo tem­po, a ava­li­a­ção psi­co­ló­gi­ca dos tri­pu­lan­tes. Encerra nos seus cir­cui­tos um segre­do: o ver­da­dei­ro objec­ti­vo da mis­são, que é a de ir ao encon­tro do gigan­tes­co mono­li­to que se encon­tra em órbi­ta de Júpiter.

Depois de falhar uma pre­vi­são de ava­ria numa das ante­nas da nave (impos­sí­vel de acon­te­cer, segun­do o pró­prio HAL, pois não exis­tem regis­tos de quais­quer falhas de fun­ci­o­na­men­to no seu mode­lo de com­pu­ta­do­res), Dave Bowman e Frank Poole come­çam a cons­pi­rar con­tra a máqui­na admi­tin­do, mes­mo, a hipó­te­se de a des­li­gar. HAL, apercebendo-​se da inten­ção dos tri­pu­lan­tes (con­se­gue ler-​lhes nos lábi­os o diá­lo­go que tra­vam), aca­ba por matar Boole quan­do este efec­tua uma saí­da para o Espaço, embo­ra falhe na ten­ta­ti­va de eli­mi­nar Bowman.

Clay Waldrop, no arti­go «The Kubrick Site: The Case For HAL’s Sanity», dis­ser­ta sobre a psi­co­lo­gia de HAL e par­te pre­ci­sa­men­te do jogo de xadrez com Poole para defen­der a teo­ria segun­do a qual o com­pu­ta­dor não enlou­que­ceu: o erro de HAL duran­te o jogo não é uma falha de Kubrick – além de per­fec­ci­o­nis­ta, era um faná­ti­co do xadrez -, mas sim um ato pro­po­si­ta­do do com­pu­ta­dor. Waldrof afir­ma tam­bém que as acções de HAL são resul­ta­do da Razão e da Lógica, ori­gi­nan­do toma­das de posi­ções que são depois exe­cu­ta­das com a fri­e­za de uma máqui­na super-​inteligente.

São inú­me­ras as inter­pre­ta­ções e carac­te­ri­za­ções de HAL. A mais curi­o­sa – embo­ra late­ral­men­te, pois o foco não é o com­pu­ta­dor mas o fil­me como um todo – é a de Michel Jalil Fauza no arti­go inti­tu­la­do «O Paralelo da Consciência em Hamlet e 2001: Odisseia no Espaço». Outro site ofe­re­ce tex­tos – incluin­do do pró­prio Arthur C. Clark – com todos os tipos pos­sí­veis de abor­da­gem, entre arti­gos e entre­vis­tas: HAL’s Legacy.

Para os inte­res­sa­dos, é lei­tu­ra não para horas, mas para dias.

A tripe

Atmospheres

Atmospheres

HAL, o super-​computador final­men­te ven­ci­do pelo ins­tin­to huma­no de sobre­vi­vên­cia, cho­ra a ino­cên­cia per­di­da enquan­to o astro­nau­ta Dave Bowman inva­de o com­par­ti­men­to onde estão arma­ze­na­dos os cir­cui­tos sen­sí­veis da memó­ria do com­pu­ta­dor e desactiva-​os, um a um, tor­nan­do a ago­nia final de HAL len­ta e per­tur­ba­do­ra­men­te huma­na.

HAL vai-​se des­va­ne­cen­do aos pou­cos e con­fes­sa, nos momen­tos finais: «Tenho medo, Dave. Tenho medo.»

Já sem cons­ci­ên­cia de si pró­prio e ins­ti­ga­do por Bowman, HAL can­ta Bicycle Built For Two?, can­ção infan­til, sim, mas uma mera roti­na que tinha sido gera­da num IBM 7094 em 1961 pelos pro­gra­ma­do­res John Kelly e Carol Lockbaum. Mais um toque de rea­lis­mo.

Silenciada a máqui­na, Bowman, úni­co repre­sen­tan­te da raça huma­na nes­ta odis­seia espa­ci­al, che­ga a Júpiter, onde se encon­tra o mono­li­to, e des­co­bre, para além de Júpiter, o Infinito.

Os quin­ze minu­tos finais de 2001 assom­bram os espec­ta­do­res pela espec­ta­cu­la­ri­da­de dos efei­tos espa­ci­ais e pelo mis­té­rio que, em vez de ficar resol­vi­do, ain­da mais se aden­sa.

Primeiro, a sequên­cia em que Bowman pare­ce dei­xar de estar sujei­to às res­tri­ções da nos­sa tec­no­lo­gia e via­ja pelo Espaço e pelo Tempo como se esti­ves­se sen­ta­do num car­ri­nho per­cor­ren­do uma montanha-​russa cós­mi­ca. Luzes, cores e for­mas des­fi­lam dian­te de nós, o mun­do está reple­to de estre­las, galá­xi­as e mun­dos des­co­nhe­ci­dos. Tão estra­nha como as ima­gens é a músi­ca esco­lhi­da pelo rea­li­za­dor, mais uma peça orques­tral de Ligeti, ato­nal e dis­so­nan­te.

Para quem vive o sécu­lo da ani­ma­ção com­pu­to­ri­za­da, os efei­tos visu­ais usa­dos nes­ta sequên­cia pode­rão pare­cer rudi­men­ta­res – na épo­ca em que sur­gi­ram, porém, des­lum­bra­ram. Não eram um mero espec­tá­cu­lo visu­al, dizia-​se, mas uma ver­da­dei­ra expe­ri­ên­cia – o mais pró­xi­mo que se podia estar de uma trip de LSD sem con­su­mir a dro­ga.

Aventura do Tempo

Adventures (for 3 Voices and 7 Instruments)

Adventures (for 3 Voices and 7 Instruments)

Depois de uma via­gem psi­ca­dé­li­ca pelo Espaço, o astro­nau­ta Dave Bowman encontra-​se numa sala sete­cen­tis­ta. O fil­me torna-​se ain­da mais estra­nho, mis­te­ri­o­so. Ouvem-​se sons, vozes, que pare­cem indi­car pre­sen­ças ali­e­ní­ge­nas na sala. Não são efei­tos sono­ros, mas excer­tos de uma das peças mais arro­ja­das de Ligeti, Adventures.

Nessa peça o com­po­si­tor propôs aos músi­cos uma expe­ri­ên­cia musi­cal dife­ren­te – cri­ar sons estra­nhos com a sua pró­pria voz – e incor­po­rou e mon­tou os sons con­se­gui­dos. Recursos des­te tipo já os conhe­cia em expe­ri­men­ta­ções mais arro­ja­das de outro génio da músi­ca, Frank Zappa. Kubrick usa-​as para aumen­tar ain­da mais a sen­sa­ção de estra­nhe­za e mis­té­rio naque­la sala. O que é aque­la sala, e qual o sig­ni­fi­ca­do de tudo o que vere­mos pos­te­ri­or­men­te, é algo que o rea­li­za­dor nun­ca mos­trou inte­res­se em expli­car: «Há cer­tas áre­as da rea­li­da­de – ou da irre­a­li­da­de, ânsia inte­ri­or, chame-​lhe o que qui­ser – que são par­ti­cu­lar­men­te ina­ces­sí­veis às pala­vras», afir­mou uma vez.

Kubrick rara­men­te dava entre­vis­tas, mas alguns foram capa­zes de que­brar o gelo. Jeremy Bernstein, em Novembro de 1966, visi­tou a casa do rea­li­za­dor. Não só con­se­guiu a dese­ja­da entre­vis­ta como pôde registá-​la em cas­se­te. Bernstein não era pro­pri­a­men­te um jor­na­lis­ta, mas um pro­fes­sor de Física autor de mais de uma deze­na de livros de divul­ga­ção cien­tí­fi­ca e que tam­bém escre­via arti­gos para a New Yorker.

Da par­te da entre­vis­ta dedi­ca­da ao fil­me, o que aca­ba por ser mais inte­res­san­te é a for­ma como Kubrick inter­pre­ta e sen­te a obra do escri­tor de fic­ção cien­tí­fi­ca Arthur C. Clarke, co-​autor do argu­men­to e em cujo con­to The Sentinel a his­tó­ria de 2001 se ins­pi­rou. Sobre o fil­me aca­ba por falar mui­to pou­co.

Intelectualmente com­pli­ca­do não é bem a melhor des­cri­ção para 2001. Strangelove era um fil­me inte­lec­tu­al­men­te mais com­pli­ca­do, envol­via dis­cus­sões com­ple­xas, e idei­as abs­trac­tas, cómi­ca ou cla­ra­men­te repre­sen­ta­das. 2001 não é um fil­me com­ple­xo em ter­mos de idei­as apre­sen­ta­das, idei­as real­men­te expos­tas, per­ce­be?

O regis­to áudio des­ta (cur­ta) entre­vis­ta pode ser des­car­re­ga­do aqui.


2001: quando a história acaba primeiro que o filme

2001: quando a história acaba primeiro que o filme

A his­tó­ria de 2001: Odisseia no Espaço é fácil de con­tar.

Divide-​se em três par­tes: o alvo­re­cer do Homem, da Terra à Lua, do osso-​ferramenta à nave espa­ci­al; a mis­são a Júpiter por cau­sa do mono­li­to e todos os acon­te­ci­men­tos que se veri­fi­cam a bor­do da nave; a che­ga­da a Júpiter.

A quar­ta par­te – a sequên­cia final com o astro­nau­ta Bowman – já não faz par­te da his­tó­ria por­que se situa numa dimen­são em que as his­tó­ri­as, pri­si­o­nei­ras da pas­sa­gem do Tempo, não exis­tem.

1

Quando ain­da éra­mos maca­cos, há uns qua­tro milhões de anos, apa­re­ceu na Terra um mis­te­ri­o­so objec­to em for­ma de mono­li­to. O objec­to ins­pi­rou o maca­co a usar um peda­ço de osso como uma fer­ra­men­ta de guer­ra con­tra maca­cos de tri­bos rivais. Daí até às naves espa­ci­ais foi um pulo.

Agora que já somos seres civi­li­za­dos e tec­no­lo­gi­ca­men­te avan­ça­dos, des­co­bri­mos um mono­li­to seme­lhan­te que esta­va enter­ra­do na Lua há milhões de anos. Tal como os maca­cos, con­ti­nu­a­mos sem per­ce­ber nada, a não ser que o mono­li­to está a envi­ar sinais rádio para Júpiter.

2

A nave espa­ci­al Discovery par­te com o objec­ti­vo de des­co­brir o que lá se encon­tra. Os mem­bros da tri­pu­la­ção – dois astro­nau­tas e três cien­tis­tas ain­da em esta­do de hiber­na­ção – des­co­nhe­cem todos os por­me­no­res crí­ti­cos da mis­são mas HAL, o super-​computador de bor­do, capaz de falar como uma pes­soa, encar­re­gue da manu­ten­ção da nave e do esta­do psi­co­ló­gi­co dos seus ocu­pan­tes huma­nos, está ao cor­ren­te da exis­tên­cia do mono­li­to.

Quando HAL con­clui que os seres huma­nos podem colo­car em ris­co a mis­são, resol­ve eliminá-​los. Mata todos menos um – o coman­dan­te Dave Bowman, lutan­do pela sobre­vi­vên­cia como outro­ra o fize­ram os maca­cos seus ante­pas­sa­dos, con­se­gue des­li­gar o com­pu­ta­dor.

3

Chegado a Júpiter, Bowman des­co­bre que o mono­li­to desen­ter­ra­do na Lua apon­ta para uma série de milha­res de mono­li­tos esta­ci­o­na­dos em órbi­ta do pla­ne­ta gaso­so gigan­te. Quando entra no casu­lo espa­ci­al e se diri­ge aos estra­nhos objec­tos… Acaba a his­tó­ria.

Infinito

Se pen­sar­mos que a his­tó­ria do Universo tam­bém é fácil de con­tar (até a um cer­to pon­to, e a esse pon­to que depois se expan­de num Big Bang cha­ma­mos sin­gu­la­ri­da­de), facil­men­te per­ce­be­mos que tudo o que este­ja para além des­sa linha do hori­zon­te onde ter­mi­nam todas as his­tó­ri­as é impos­sí­vel de ser alcan­ça­do pela nos­sa com­pre­en­são. Perguntar o que sig­ni­fi­ca o final de 2001 é o mes­mo que que­rer saber o que exis­tia antes do Big Bang. Qual antes, se não exis­tia Tempo?

A his­tó­ria aca­bou e, con­tu­do, o fil­me con­ti­nua.

A sequên­cia final da via­gem psi­ca­dé­li­ca é tão espec­ta­cu­lar como se esti­vés­se­mos numa montanha-​russa cós­mi­ca e via­jás­se­mos no car­ri­nho do Einstein.

Piscamos os olhos e tudo aqui­lo desa­pa­re­ce. De repen­te Bowman encontra-​se numa sala deco­ra­da com mobi­liá­rio do sécu­lo XVII, mas bran­ca e fria como como os cor­re­do­res de um hos­pi­tal. O chão, todo aos qua­dra­dos, lem­bra um tabu­lei­ro de xadrez. A cada pas­so que dá, o astro­nau­ta pare­ce tornar-​se um peão de for­ças infi­ni­ta­men­te pode­ro­sas e invi­sí­veis.

Ouvem-​se vozes e sons inde­ci­frá­veis. O astro­nau­ta vê-​se a si pró­prio mui­to mais velho enquan­to o mui­to mais velho Bowman, num sor­ri­so sar­cás­ti­co de reco­nhe­ci­men­to, se vê a si pró­prio mais novo. Tem iní­cio o jogo do Infinito, o xeque-​mate às capa­ci­da­des huma­nas. A sala pode­rá ser a repre­sen­ta­ção cine­ma­to­grá­fi­ca do que os cien­tis­tas desig­nam por sin­gu­la­ri­da­de.

David Bowman

Temos Bowman dei­ta­do na cama, na mes­ma sala, seco como uma múmia, à bei­ra da mor­te, esten­den­do a mão ao mono­li­to como Adão esten­deu a mão a Deus no qua­dro de Miguel Ângelo pin­ta­do na Capela Cistina.

A ima­gem já faz mais sen­ti­do, está-​nos na memó­ria, na nos­sa e em milhões antes de nós – e então jul­ga­mos ver, mas mes­mo assim não temos a cer­te­za, uma repre­sen­ta­ção sur­re­a­lis­ta da ori­gem divi­na do Homem. Deus então é o mono­li­to, mono­li­to é Deus.

Bowman desa­pa­re­ce para sur­gir trans­for­ma­do num gigan­tes­co feto este­lar – e já não nos pare­ce exis­tir nada de tão obvi­a­men­te divi­no, mas ape­nas nova repre­sen­ta­ção de uma ver­da­de quí­mi­ca que em 1968, ano de estreia do fil­me, era já conhe­ci­da: somos fei­tos da mes­ma maté­ria das estre­las.

Qualquer das inter­pre­ta­ções que se pos­sa dar a 2001 é cor­rec­ta e, ao mes­mo tem­po, neces­sá­ria para que o fil­me, mais de trin­ta anos depois, ain­da não tenha ter­mi­na­do. Sem a nos­sa espe­cu­la­ção, o fil­me teria aca­ba­do ao mes­mo tem­po que a his­tó­ria, ou seja, quan­do Bowman dei­xou o mun­do tal e qual o conhe­ce­mos. Mas Kubrick que­ria fil­mar a nos­sa con­di­ção de eter­nos e ansi­o­sos per­gun­ta­do­res das galá­xi­as.

Marco Santos

­ Marco Santos

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