Há quem defen­da a exis­tên­cia de uni­ver­sos para­le­los. Há até quem, faná­ti­co da fic­ção cien­tí­fi­ca mais puris­ta, advo­gue que coa­bi­ta­mos com a «Twilight Zone», a tal cele­bri­za­da pela popu­lar série tele­vi­si­va. Ou seja, mun­dos e rea­li­da­des para­le­las onde todos os cená­ri­os podem ser ima­gi­na­dos.

Mundos e rea­li­da­des que podem desem­bo­car no mais sur­pre­en­den­te (ou não) uni­ver­so de rela­ções e con­ta­mi­na­ções. Imaginem, por um ins­tan­te, que con­se­gui­mos pas­sar a bar­rei­ra da rea­li­da­de físi­ca tal como a conhe­ce­mos. E entra­mos numa rea­li­da­de na qual pode­mos conhe­cer, cara a cara, per­so­na­li­da­des famo­sas já fale­ci­das. Mais: pode­mos trazê-​las de vol­ta ao mun­do dos vivos, este mun­do real, empí­ri­co e pal­pá­vel. 

A ima­gi­na­ção é o limi­te para pen­sar­mos como alguns artis­tas mor­tos pode­ri­am vol­tar ao mun­do dos vivos e cola­bo­rar com os artis­tas vivos. E todo um novo mun­do de pos­si­bi­li­da­des se abri­ria. Confusos? Nada como exer­ci­tar a ima­gi­na­ção.

1 Eisenstein faz um filme sobre a guerra da Síria

Sergei Eisenstein

O olhar intré­pi­do e visi­o­ná­rio do rea­li­za­dor rus­so Sergei Eisenstein mos­tra­ria uma rea­li­da­de fre­né­ti­ca da guer­ra, fei­ta de uma mon­ta­gem sóni­ca capaz de eston­te­ar o espe­ta­dor menos ini­ci­a­do na sua lin­gua­gem visu­al. Filme-​testamento.


2 Orson Welles filma O Livro do Desassossego

Orson Welles e Fernando Pessoa

Dois géni­os em con­fron­to. Um do cine­ma e outro da lite­ra­tu­ra uni­ver­sal. Poderia Orson Welles pas­sar para o cine­ma uma obra lite­rá­ria tida como ina­dap­tá­vel? Não só seria capaz, como enri­que­ce­ria a ima­gem de Fernando Pessoa como escri­tor e poe­ta.


3 Stravinsky compõe para coreografia de Pina Bausch

Pina Bausch

Sabemos como foi con­tro­ver­sa e revo­lu­ci­o­ná­ria a estreia da «Sagração da Primavera» de Stravinsky no quen­te ano de 1913 em Paris. Será o com­po­si­tor rus­so capaz de vol­tar a revo­lu­ci­o­nar para uma core­o­gra­fia da não menos revo­lu­ci­o­ná­ria Pina Bausch? Mais bien sûr.


4 James Dean num filme de Francis Coppola

James Dean num filme de Francis Coppola

James Dean foi um ator-​furacão que ape­nas fez 3 fil­mes em vida. Poderia ago­ra redimir-​se entran­do num fil­me de Francis Ford Coppola, cine­as­ta tão seden­to de regres­so à boa for­ma. Dean pode­rá inter­pre­tar o neto de Michael Corleone no quar­to epi­só­dio da saga «O Padrinho».


5 Montgomery Clift é o galã culto e tímido de Woody Allen

Montgomery Clift e Woody Allen

Montgomery Clift teve um dos ros­tos mais belos de todo o cine­ma clás­si­co de Hollywood. Entrando num fil­me de Woody Allen, con­ti­nu­a­rá a des­ti­lar char­me eru­di­to e sapi­ên­cia inte­lec­tu­al, tão ao jei­to do rea­li­za­dor nova-​iorquino.


6 Elvis Presley faz um disco com canções de Leonard Cohen

Elvis Presley faz um disco com canções de Leonard Cohen

Foi com Elvis Presley que come­çou a his­tó­ria da músi­ca popu­lar do sécu­lo XX. Por um lado, Presley efu­si­vo e expan­si­vo, por outro, Cohen inti­mis­ta e con­tem­pla­ti­vo. O resul­ta­do musi­cal des­ta par­ce­ria só pode resul­tar em can­ções eter­nas.


7 Frank Sinatra em dueto com Tom Waits

Frank Sinatra e Tom Waits

O mai­or cro­o­ner da segun­da meta­de do sécu­lo XX, Sinatra, em due­to com o mai­or tro­va­dor de voz rou­ca da América do final do sécu­lo XX e iní­cio do XXI. Imaginem Waits a tocar uma melo­dia cir­cen­se ao pia­no enquan­to Sinatra deam­bu­la vocal­men­te com letras a con­tar uma sór­di­da dis­cus­são notur­na num bar de Nova Iorque.


8 Jim Morrison colabora num álbum dos Radiohead

Jim Morrison colabora num álbum dos Radiohead

O íco­ne da con­tra­cul­tu­ra dos anos 60, em con­fron­to com a ban­da mais «alternativa-​mainstream» do sécu­lo XXI. A voz elo­quen­te de Jim Morrison a fazer pare­lha com a voz deli­co­do­ce de Thom Yorke. Lindo.


9 Kafka escreve argumento para filme de Polanski

Kafka escrevesse um argumento para um filme de Polanski

Só podia ser Franz Kafka a escre­ver um argu­men­to ori­gi­nal para um fil­me de Polanski. Este cine­as­ta explo­rou em toda a sua car­rei­ra a men­te huma­na retor­ci­da, num fino equi­lí­brio entre o delí­rio sur­re­a­lis­ta e a rea­li­da­de mais ter­re­na. O fil­me só pode ser… per­tur­ba­dor.


10 Marlon e Charlize como par romântico num filme de Scorsese

Se os artistas mortos regressassem à vida

Marlon Brando, o mai­or ator de todos os tem­pos; Charlize Theron, a mais sexy e talen­to­sa atriz da sua gera­ção. Juntos a man­do de Scorsese, len­da vida do cine­ma mun­di­al. Filme sobre man­tei­ga de amen­doim com gangs­ters em pano de fun­do?


11 Amon Tobin faz a música do novo filme de Andrei Tarkovski

Amon Tobin faz a música do novo filme de Andrei Tarkovski

Um dos pri­mei­ros fil­mes a ter músi­ca ele­tró­ni­ca ori­gi­nal foi «Solaris”»(1972) de Tarkovski. Logo, Tarkovski gos­ta de músi­ca ele­tró­ni­ca e a cola­bo­ra­ção com o génio de Amon Tobin faz todo o sen­ti­do e as ima­gens meta­fí­si­cas do cine­as­ta rus­so ganha­ri­am outra dimen­são.


12 Charlie Chaplin participa numa comédia com Jerry Lewis

Charlie Chaplin participasse numa comédia com Jerry Lewis

Jerry Lewis tem 90 anos aca­ba­dos de fazer, mas cer­ta­men­te esta­rá ain­da dis­po­ní­vel para cola­bo­rar com Chaplin. Talvez num rema­ke agri­do­ce de «Tempos Modernos», com Lewis a inter­pre­tar um patrão auto­ri­tá­rio e Chaplin um ope­rá­rio tra­pa­lhão que mon­ta smartpho­nes numa fábri­ca em Taiwan.


13 Jacques Tati filma impacto das tecnologias digitais

Jacques Tati

Tati foi um visi­o­ná­rio que sati­ri­zou a soci­e­da­de depen­den­te da tec­no­lo­gia da cha­ma­da vida moder­na. Regressando ago­ra à vida, o seu fil­me será sobre os milha­res de sel­fi­es que Kim Kardashian faz por hora e o sub­se­quen­te efei­to no nível de feli­ci­da­de do mun­do oci­den­tal.

14 Levi escreve documentário sobre Hitler filmado por Lanzmann

Maurizio Cattelan

«Him», escul­tu­ra de Maurizio Cattelan

Claude Lanzmann rea­li­zou o épi­co docu­men­tá­rio «Shoah» sobre o Holocausto. Primo Levi escre­veu a obra semi­nal sobre Auschwitz. O argu­men­to sobre Hitler terá 23 horas de dura­ção e nun­ca vamos ver o ros­to do dita­tor nazi no ecrã.


15 Frank Zappa num disco de Mike Patton

Frank Zappa num disco de Mike Patton

Combustão espon­tâ­nea é o que cer­ta­men­te sur­ge da cola­bo­ra­ção de dois géni­os irre­ve­ren­tes e ico­no­clas­tas como Patton e Zappa. O dis­co só pode con­ter algu­mas das mais impre­vi­sí­veis can­ções des­cons­truí­das de todo o milé­nio.


16 George Orwell escreve ensaio sobre estado da política atual

Donald Trump

1984 já foi há 32 anos. Nos tem­pos que cor­rem pre­ci­sa­mos de outro 1984. Mas com mais crí­ti­ca áci­da, mais acu­ti­lân­cia ana­lí­ti­ca, mais visão dis­tó­pi­ca do pre­sen­te e do futu­ro. Para que o adje­ti­vo «orwel­li­a­no» faça cada vez mais sen­ti­do.


17 O Império dos Sentidos com Scarlett Johansson e Sean Penn

Scarlett Johansson e Sean Penn

Nagisa Oshima não pode­ria esco­lher melhor dupla de ato­res para o seu rema­ke de «O Império dos Sentidos». A rela­ção de amor-​ódio, com cenas de sexo explí­ci­to dos per­so­na­gens, será bem encar­na­do pela volup­tu­o­si­da­de de Scarlett e o toque machão de Penn. Fervilhante.


18 Baudelaire e Rimbaud escrevem para Elliott e Banhart

Devendra Banhart

Devendra Banhart

Dois dos mai­o­res poe­tas fran­ce­ses de cul­to a escre­ve­rem poe­mas para dois gran­des tro­va­do­res do nos­so tem­po, Matt Elliott e Devendra Banhart, cada um na sua abor­da­gem musi­cal. A arte da can­ção subi­ria uns degraus pro­e­mi­nen­tes.


19 Leni Rifenstahl realiza documentário épico sobre Euro 2016

Leni Rifenstahl realiza documentário épico sobre Euro 2016

Quem fil­mou com tan­to esme­ro esté­ti­co «Olympia» e «O Triunfo da Vontade» pode­rá facil­men­te rea­li­zar um docu­men­tá­rio épi­co sobre o Euro 2016, com espe­ci­al enfo­que na bele­za meta­fí­si­ca, estra­tos­fé­ri­ca, sump­tu­o­sa do golo do desen­gon­ça­do do Éder.


20 Jackson Pollock pinta totalmente a fachada do Parlamento

Jackson Pollock

O expo­en­te do expres­si­o­nis­mo abs­tra­to a pin­tar a facha­da do par­la­men­to Português, eis o zéni­te da cri­a­ção artís­ti­ca sub­ver­si­va e revo­lu­ci­o­ná­ria (mas sem ide­o­lo­gia). A ema­na­ção expres­si­va e visu­al des­sa pin­tu­ra ser­vi­rá cer­ta­men­te de ins­pi­ra­ção cri­a­ti­va para os polí­ti­cos lusos. Ou não.

Victor Afonso

­Victor Afonso

Músico. Professor. Cinéfilo.