Zappancadas

Autoria: Marco Santos [2/Junho/2008] [57]

Eu gosto de partilhar as minhas descobertas. Sou generoso. Se acabo de conhecer um disco fabuloso do Zappa às duas da manhã, o meu entusiasmo leva-me a querer que a vida do meu vizinho seja também tocada pelos sublimes sons do mestre. Sobretudo os que envolvem experimentalismos sonoros que lembram uma mistura de Varèse, Ligeti, Jimi Hendrix e pitas histéricas.
Às duas da manhã a sensibilidade artística do meu vizinho costuma estar apurada. Acho que ele apreciava o facto de ser acordado por Zappa a altos berros. Aquilo não acontecia de propósito. Há pessoas sem noção da força que têm – a minha aparelhagem era assim. Aumentava-lhe só um bocadinho o volume e as minhas colunas Mission bicabladas de 150 watts por canal rebentavam em cheio na almofada do tipo e as penas de ganso voavam pelo ar de tal forma que o gajo devia pensar que estava a ver a própria mioleira.
Às vezes alinhava na orquestra. Pegava na vassoura e punha-se a agitá-la como um baterista de Trash Metal. Eu ouvia os batuques no tecto e achava que o gajo até tinha bom ouvido, pois entrava bem no ritmo. Até punha a música mais alta, não fosse ele perder o balanço por não conseguir ouvir os pianíssimos.
Só não gostava quando lhe apetecia cantar. Na percussão safava-se com mérito, mas como vocalista era uma desgraça. Às vezes acontecia, pronto. Acordava com o som de Zappa e punha-se a cantar Baixa essa merda cabrão do caralho. O homem que me perdoe que eu não gosto de ferir a sensibilidade artística de ninguém – mas quando ele abria as goelas eu era obrigado a aumentar um bocadinho mais o volume só para não me estragar a música.
Eu já sabia que, mais tarde ou mais cedo, o tipo haveria de descer as escadas e bater-me à porta. O Zappa tem esse efeito nas pessoas. O meu vizinho vestia o pijama e abria a porta de casa devagarinho – o elemento surpresa é sempre importante nestes casos. Chinelava pelas escadas abaixo com tanto cuidado que parecia um atleta a transportar uma tocha olímpica. Bem, no caso dele era um bastão de basebol – o que não deixa de ser um objecto relacionado com o desporto. Batia-me à porta com estrondo – o elemento melodramático da surpresa, lá está – e gritava Ó meu cabrão tu estás-me a provocar não estás.
É verdade. A arte provoca. A arte desatrofia. É uma espécie de viagem. Confronta-te contigo próprio. Faz-te pensar na esterilidade da tua vida e obriga-te a questionar a tua posição na sociedade. Acima de tudo, acorda-te.
O meu vizinho aprendeu muito nestes anos de perplexa convivência. Evoluiu. Digamos que foi contagiado. Não só falou a toda a gente do prédio sobre o génio musical do Zappa como, na noite seguinte, não se conteve e chamou a polícia. Eu por acaso estava a ouvir um disco ao vivo – e veio mesmo a calhar, pois os concertos precisam sempre de policiamento. Sabe-se lá a loucura que um fã pode fazer quando espuma pela boca.

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