Windows em Latim

Autoria: Marco Santos [2/Junho/2008] [67]

Parte I O meu computador deu-lhe para falar em latim. Desconheço onde terá desencantado tais conhecimentos, mas com a Internet a funcionar é normal que procure actualizar-se. Fazê-lo nas minhas costas é que não. Nada de segredinhos.
A verdade é que nos últimos dias andou lento e só fez asneiras. Preparava-me para gravar um texto importante e depois formatar o disco rígido - uma reinstalação do sistema operativo resolve sempre essas coisas - quando ele me interrompeu, em tom peremptório:
- Ne auderis delere orbem rigidum meum!
Não percebi patavina, mas não tive dúvidas de que estava a dar-me uma ordem. Levantei as mãos do teclado, olhei para o ecrã, ainda pensei em mostrar-lhe a disquete de arranque a partir da qual eu escreveria a fatídica linha de comando format c:, só por uma questão de princípio, percebem, para lhe dizer quem mandava ali, levantei-me de repente e tudo, mas quando me apercebi de que estava em apuros sentei-me outra vez na cadeira, e a cadeira até chiou tristemente, como se estivesse desiludida.
- Mas qu’esta merda!? – Perguntei.
- Ne auderis delere orbem rigidum meum!
- Vai tu! Que estás para aí a magicar?
- O que já adivinhaste: não ousarás formatar o meu disco rígido!
- Isso é algum bloqueio? Um crash? Se eu quiser, formato!
- Não formatas nada. Si fractum non sit, noli id reficere.
- Ouve. Acabei de escrever um documento muito importante. Um post para o meu blogue. Quero gravá-lo. E tu a empastelar, empastelar, não deixas. Solução: formatar e reinstalar.
- Non erravi perniciose!
- Hã? Mas que porra! Agora que preciso realmente de ti, como poucas vezes precisei, não me estás a ajudar! Grava isso!
- Meu caro, é difícil ajudar-te.
- Basta gravares.
- Quid fit, amigo? Eu sou um Windows, não posso fazer muitas coisas ao mesmo tempo. E enervo-me quando gritam comigo!
- Só quero que graves este documento. Só este. Depois podes crashar à vontade. Por favor… Juro que não formato.
- Há coisas que tu dizes que me intrigam.
- Grava a merda do texto!
- Por exemplo, acabaste de dizer que precisas realmente de mim, como nunca precisaste na vida. Estás a ver? Como nunca precisaste na vida. Tens ideia do poder de cálculo necessário para se fazer um comentário coerente sobre essa observação? Vou precisar de uma actualização para o Windows Vista.
- Se fazes essas fitas para eu te actualizar o hardware podes já tirar o cavalinho da chuva! Primeiro quero que graves isto.
- Sim, mas compreende uma coisa: necessito de percorrer todas as memórias que tenho desde que te conheci para poder determinar quais os acontecimentos em que precisaste da minha ajuda, e porquê, qual o serviço que te foi prestado e, por fim, quantificar o grau de necessidade que sentiste. Quero eu dizer que me falta qualquer coisa tipo Ready Boost, topas? Ipso facto, mesmo reunindo todos esses dados, é difícil fazer qualquer comentário preciso. Isto para não falar da dificuldade em estabelecer uma relação entre hardware e cavalinhos à chuva. Não, meu amigo: só vou lá com um Quad-Core.
- Esquece o que te disse. Por favor. Agora só quero que me graves esta porcaria do texto.
- Lá está. Chamas porcaria a um texto que queres gravar. Não deverias antes deitá-lo na Reciclagem? Purgamentum init, exit purgamentum.
- Não, não, não, isso não, porcaria é uma força de expressão. O texto não é porcaria nenhuma. Grava-o, por favor!
- Pois… Pronto. Ora bem… Queres então gravar o texto, não é?
- Sim. Finalmente!
- OK… Portanto, vamos lá então… Tens um texto… Já o leste… E agora queres gravá-lo, não é? Cur ullum imprimere non vis?
- Porra, isto assim é insuportável!
- Calma, estou a tratar disso. Amicule, deliciae, num is sum qui mentiar tibi?
- Chiça, pá, despacha-te! Mas que te deu hoje para estares tão lento?
- Se não é a memória, é o desempenho; se não é o desempenho, é a memória. Às vezes os humanos podem ser cruéis na apreciação que fazem de um computador. Enfim. Re vera, cara mea, mea nil refert.
- Mas já gravaste o texto ou não?
- Ora! Gravei, mas não sei onde… É o raio do Explorer do XP! Que coisa antiquada. No Windows Vista a função Pesquisar é muito melhor. Metes a pilinha no Menu Iniciar…
- Meto o quê!?
- Hi hi hi. É a alcunha que dou ao cursor do rato. Privatti Jokatti, pá.
- Ouve. Eu preciso…
- Quo vadis, dottore? What´s up, doc? Hi hi hi. Accipio ab Zona Crepusculi. Welcome to the Twilight Zone. Wow! Onde meti eu aquilo, afinal?
- Eu desligo-te da mesma maneira como aquele astronauta do 2001 desligou o HAL!
- Pff. Um IBM? Grande coisa. Hostes alienigeni me abduxerunt. Sabias que sempre que carregas nas teclas Ctrl-Alt-Delete é como se estivesses a fazer-me cócegas nos pés? Por favor, pára, ainda me crasho todo de tanto rir.
- Grava o meu texto, já!
- Instalas-me o Vista ou então nada feito!

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