Estão a ver o ho­mem do gon­go dos fil­mes pro­du­zi­dos pe­la Rank? Este aqui. Considere-se es­ta in­tro­du­ção um avi­so pa­ra quem ain­da não viu o epi­só­dio nú­me­ro se­te de Westworld. Gong, spoi­lers nos pa­rá­gra­fos que se se­guem! Depois não se quei­xem.

Dito is­to, es­te foi um epi­só­dio me­mo­rá­vel. Pobre Bernard! Eu e o Bernard te­mos al­gu­mas coi­sas em co­mum. Ou tal­vez não. Ele não con­se­gue ver a por­ta, eu não con­si­go ver o Wally. Ele foi pro­gra­ma­do, eu já nas­ci as­sim. Ele não po­de ver coi­sas que o ma­go­am, eu são as que ve­jo me­lhor. Ele fi­ca pa­ra­li­sa­do com a voz do Ford. Eu com a vi­tó­ria do Trump.

Ford coloca-o em mo­do stand-by ao dizer-lhe pa­ra não se exal­tar. Eu é ao con­trá­rio: se me di­zem pa­ra não me exal­tar, fi­co ener­va­do. Porque não es­tou re­al­men­te exal­ta­do, es­tou é em­pe­nha­do na con­ver­sa.

Mas o Bernard, aque­le que nos ha­bi­tuá­mos a ver co­mo um dos pou­cos se­res hu­ma­nos de­cen­tes da his­tó­ria, afi­nal é um de­les. Ou um dos nos­sos, por­que a gen­te tor­ce pe­los robôs, não é?

Mas é cho­can­te vê-lo a en­trar em mo­do stand-by con­tra a sua pró­pria von­ta­de. No pre­ci­so mo­men­to em que pro­cu­ra de­ses­pe­ra­da­men­te com­pre­en­der ver­da­des es­sen­ci­ais so­bre a sua exis­tên­cia. Poucas coi­sas são mais vi­o­la­do­ras do que ne­gar a um in­di­ví­duo o di­rei­to à exal­ta­ção. O di­rei­to de ques­ti­o­nar. O di­rei­to à re­a­li­da­de. O di­rei­to a si pró­prio.

Estamos con­ti­go, ami­go Bernard. Ford acha-se um deus be­ne­vo­len­te, mas o que ele ofe­re­ce é ali­e­na­ção co­man­da­da à dis­tân­cia. Ford transforma-o num te­les­pec­ta­dor de pro­gra­mas des­por­ti­vos de fu­te­bol. No ti­po que tor­ra os mi­o­los só pa­ra des­co­brir se um idi­o­ta cus­piu ou ati­rou fu­mo à ca­ra de ou­tro idi­o­ta. Pobre Bernard, de pro­gra­ma­dor a pro­gra­ma­do.

Especulações desenfreadas

Bernard (Jeffrey Wright) e Ford (Anthony Hopkins)

Bernard (Jeffrey Wright) e Ford (Anthony Hopkins)

Ford es­tá em mo­do Hannibal Lecter. Não há nin­guém que en­tre me­lhor em mo­do Hannibal Lecter do que Anthony Hopkins. A es­ta­tu­e­ta do Óscar que ele tem lá na pra­te­lei­ra sor­riu com apro­va­ção du­ran­te o clí­max do epi­só­dio. Ford so­le­tra as pa­la­vras «un­der my con­trol» e pro­lon­ga o «l» co­mo se o sa­bo­re­as­se com uns «fa­va be­ans and a ni­ce chi­an­ti».

Lecter ca­ni­ba­li­za­va cor­pos, Ford ca­ni­ba­li­za es­pí­ri­tos. Ford é um ti­ra­no, além de as­sas­si­no. Ford é tão dés­po­ta que ofe­re­ce li­ber­da­de na con­di­ção de a po­der con­tro­lar. Ford não quer ser um deus di­vi­no, de­se­ja ser um deus hu­ma­no, o que é in­fi­ni­ta­men­te mais pe­ri­go­so.

E, sus­pei­to, quer po­vo­ar o seu mun­do de có­pi­as. Cópias sub­mis­sas dos ori­gi­nais que ten­ta­ram co­lo­car em pe­ri­go o mun­do que cons­truiu. Theresa e Elsie, são vo­cês a se­guir, vão ser as du­as ber­nar­da­ri­za­das.

Mas a re­ve­la­ção des­te epi­só­dio vem dar ra­zão a es­pe­cu­la­ções de­sen­fre­a­das que cir­cu­lam na Internet há umas se­ma­nas. Existem dois tem­pos na his­tó­ria: o tem­po de Arnold, há 35 anos, e o tem­po de Ford, atu­al. O tem­po de William e Dolores, os dois pom­bi­nhos, e o tem­po do Homem de Negro, que bem po­de­rá ser William, 35 anos de­pois, me­nos pom­bi­nho e mais abu­tre.

Sim, preparem-se: a te­o­ria atu­al de­fen­de que William é o Homem de Negro, ain­da em ver­são jo­vem, pu­ra e ino­cen­te.

E quem tem si­do o elo de li­ga­ção en­tre um pe­río­do tem­po­ral e ou­tro? Bernard. 

Porquê? Porque Bernard foi fei­to por Ford à ima­gem e se­me­lhan­ça do par­cei­ro Arnold. É Arnold quem con­ver­sa com Dolores, não Bernard. Arnold con­ver­sa com Dolores no mes­mo es­pa­ço on­de Bernard le­vou Theresa nes­te epi­só­dio. Não po­de ser es­te Bernard. Este Bernard não é ca­paz de ver a por­ta, lembram-se? Hold the do­or não é com ele. Por fa­lar nis­so: po­bre Hodor.

Revejam os epi­só­di­os. As pis­tas es­tão lá to­das. O Wally es­prei­ta a ca­da ce­na. É pre­ci­so é descobri-lo.

Marco Santos

Bitaite de Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?