O con­cei­to do androi­de fei­to à nos­sa ima­gem e seme­lhan­ça foi cri­a­do só para nos dei­xar roí­dos de inve­ja. Quem viu o epi­só­dio des­ta sema­na de Westworld per­ce­be onde que­ro che­gar.

Não há com­pe­ti­ção pos­sí­vel. Os robôs têm van­ta­gem na par­te físi­ca, mas tam­bém na meta­fí­si­ca. Os cren­tes bio­ló­gi­cos rezam aos deu­ses, mas quan­tos se podem gabar de comu­ni­car dire­ta­men­te? Os cren­tes implo­ram às boas gra­ças divi­nas, mas quan­tos se podem gabar de obter resul­ta­dos?

Mais. Melhores que os humanos

Thandie Newton

Os androi­des são dife­ren­tes. Nunca enve­lhe­cem, para come­çar. Só esta van­ta­gem é sufi­ci­en­te para dei­xar os hós­pe­des huma­nos de Westworld res­sen­ti­dos. Talvez alguns optem pelo jogo da vio­lên­cia por não con­se­gui­rem resol­ver a con­tra­di­ção entre o que acham que são, o que a Natureza lhes per­mi­te e a visão que têm daque­les seres infe­ri­o­res que lhes são supe­ri­o­res em qua­se tudo.

Eles, os deu­ses huma­nos, estão con­de­na­dos ao enve­lhe­ci­men­to e  mor­te. Os outros, os bone­cos falan­tes, não enve­lhe­cem. Não mor­rem, são rei­ni­ci­a­dos. Alguns de nós acre­di­tam na reen­car­na­ção. Eles vivem-na em ciclos cien­ti­fi­ca­men­te deter­mi­na­dos. Tanto quan­to sabe­mos, até podem ser imor­tais. Só pre­ci­sam de manu­ten­ção, subs­ti­tuir peças e teci­dos.

Blade Runner apre­sen­tou-nos repli­can­tes «mais huma­nos que os pró­pri­os huma­nos». Westworld faz dos repli­can­tes melho­res huma­nos que os pró­pri­os huma­nos.

Os androi­des em cons­tru­ção têm os bra­ços ergui­dos como o homem de Vitrúvio, o dese­nho de Leonardo da Vinci sím­bo­lo da pro­por­ção ide­al do cor­po huma­no. Não é uma coin­ci­dên­cia.

Estou con­ven­ci­do que a moti­va­ção do homem de negro (Ed Harris) em encon­trar o labi­rin­to é a von­ta­de de se tor­nar como eles, imor­tal. A espe­ran­ça de des­co­brir, no cen­tro, o segre­do da vida eter­na. A fusão entre homem e máqui­na. O segre­do do mis­te­ri­o­so Arnold.

Fazer ou não fazer, eis a questão

Thandie Newton

Maeve Millay (Thandie Newton — um Emmy para ela, sff), até então a mada­me de uma casa de pros­ti­tu­tas, des­ven­dou o mis­té­rio da sua natu­re­za e do mun­do que a rodeia.

Não obs­tan­te as van­ta­gens da sua con­di­ção e do seu tem­pe­ra­men­to inde­pen­den­te e obs­ti­na­do, a exis­tên­cia que lhe foi dada não per­mi­te o livre-arbí­trio. Ela não é.

Maeve des­co­bre-o quan­do é liga­da a um com­pu­ta­dor e este, em tem­po real, repro­duz os seus pen­sa­men­tos com pre­ci­são divi­na. A reve­la­ção cho­ca-a. Maeve dese­ja ser robus­ta como um Linux, mas aca­ba por crashar como um Windows.

Acho com­pre­en­sí­vel. Se esti­vés­se­mos liga­dos «pro­gra­ma­ção» da Natureza e nos fos­se reve­la­do que mui­to do que con­si­de­ra­mos espon­tâ­neo é deter­mi­na­do por milhões de anos de Evolução, tal­vez tam­bém entrás­se­mos em para­fu­so.

Sempre vi o par­que de Westworld como uma metá­fo­ra do Jardim do Éden. Este epi­só­dio refor­çou esta ideia. Comer o fru­to da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal é o peca­do ori­gi­nal, asso­ci­a­do a sen­ti­men­tos de cul­pa e de ver­go­nha.

Talvez alguns huma­nos dese­jem secre­ta­men­te não serem donos do seu des­ti­no. Ajustarem-se a nar­ra­ti­vas pré-deter­mi­na­das por outros. Ter uma vida mais con­for­tá­vel no paraí­so da igno­rân­cia.

Os androi­des não têm cons­tran­gi­men­tos supers­ti­ci­o­sos. Maeve dese­ja esse conhe­ci­men­to. Está dis­pos­ta a lutar para o con­se­guir. Vê a expul­são do «paraí­so» e a per­da da ino­cên­cia como uma liber­ta­ção, não um cas­ti­go.

É notá­vel que sejam duas figu­ras femi­ni­nas — ela e Dolores — as pro­ta­go­nis­tas des­te pro­ces­so de liber­ta­ção e de bus­ca por uma iden­ti­da­de. No Jardim do Éden de Westworld, elas não são sím­bo­los da ten­ta­ção demo­nía­ca ou res­pon­sá­veis por arras­ta­rem o Homem para a des­gra­ça. Maeve e Dolores são líde­res da eman­ci­pa­ção. Westworld é uma série femi­nis­ta.

Todos os segredos do Universo

Thandie Newton

Livre de sen­ti­men­tos de cul­pa, Maeve recu­pe­ra rapi­da­men­te. Descobre que cada carac­te­rís­ti­ca da sua per­so­na­li­da­de é deter­mi­na­da por parâ­me­tros ajus­tá­veis. Jonathan Nolan, irmão do famo­so Christopher, foi o coau­tor do argu­men­to de «Insterstellar» e é um dos cri­a­do­res de Westworld. A per­so­na­li­da­de do robô des­se fil­me tam­bém era ajus­ta­da segun­do os mes­mos prin­cí­pi­os.

Estão a ver como a vida deles é mais fácil, com­pa­ra­da com a dos pobres deu­ses bio­ló­gi­cos que os cri­a­ram? Imaginem as pos­si­bi­li­da­des. Acham-se dema­si­a­do tei­mo­sos? Ajustem o parâ­me­tro da tei­mo­sia para níveis mais bai­xos. Demasiado cré­du­los? Baixa. Querem ser mais char­mo­sos? Força aí no maní­pu­lo digi­tal.

Como se não lhes bas­tas­se terem vidas infi­ni­tas, os androi­des têm a pos­si­bi­li­da­de de se ajus­ta­rem até serem como dese­jam. Um luxo que a Evolução nun­ca nos deu.

Pela pri­mei­ra vez dona do seu des­ti­no, Maeve sabo­reia a vitó­ria esco­lhen­do subir a pró­pria inte­li­gên­cia até ao nível máxi­mo per­mi­ti­do.

Aos dois téc­ni­cos huma­nos for­ça­dos pelo char­me, mani­pu­la­ção e chan­ta­gem a satis­fa­zer-lhe o pedi­do, fazia bem um maní­pu­lo da inte­li­gên­cia, já ago­ra. Digam-me, por favor, o que os impe­diu de fazer o con­trá­rio, tor­nan­do-a estú­pi­da ao pon­to de não per­ce­ber nada do que se pas­sa­va à sua vol­ta? A não ser que me tenha esca­pa­do algu­ma sub­ti­le­za, nada os impe­dia de se livra­rem dela assim.

Nada — a não ser as con­ve­ni­ên­ci­as do argu­men­to.

Mas a série é exce­len­te, já me con­quis­tou e eu tenho ten­dên­cia para des­cul­par estes peque­nos «glit­ches in the matrix».

A impro­vá­vel, mas poé­ti­ca, cami­nha­da de Maeve Millay pelas salas do design é pun­gen­te, embo­ra tam­bém pou­co plau­sí­vel. Ninguém repa­ra? Ninguém acha estra­nho? Ninguém exi­ge uma expli­ca­ção?

Mas que inte­res­sam essas coi­sas quan­do obser­va­mos a mag­ní­fi­ca Thandie Newton olhan­do em redor como se esti­ves­se a des­co­brir todos os segre­dos do Universo?

O que ela des­co­bre é um uni­ver­so fini­to, fal­so, imper­fei­to, con­tro­la­do por deu­ses igual­men­te fini­tos, fal­sos e imper­fei­tos. E tudo isto ao som de uma belís­si­ma ver­são para quar­te­to de cor­das de «Motion Picture Soundtrack», dos Radiohead. Não é para todos.

Marco Santos

­ Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?