Em infor­má­ti­ca, um «eas­ter egg» é um segre­do escon­di­do, uma sur­pre­sa, a fava no bolo-rei, uma recom­pen­sa a ser des­co­ber­ta pelos paci­en­tes e pers­pi­ca­zes. As mulhe­res conhe­cem-no por pon­to G. Os pro­gra­ma­do­res cri­a­ram a sua pró­pria ver­são.

Dolores pare­ce uma mulher, mas tam­bém é um androi­de. A série nada diz sobre o pon­to G de Dolores, embo­ra a sua rea­ção de repul­sa às cenas de orgia no bor­del mos­tre que foi pro­gra­ma­da para ser uma rapa­ri­ga decen­te do Velho Oeste. É sexu­al, mas sem incli­na­ção para o jog­ging hori­zon­tal cole­ti­vo.

Os easter egg de Dolores

Dolores, como qual­quer pro­gra­ma, tem vári­os «eas­ter-egg». Traços de per­so­na­li­da­de escon­di­dos pelo seu cri­a­dor, o mis­te­ri­o­so par­cei­ro de Robert Ford (Anthony Hopkins) desa­pa­re­ci­do há 35 anos.

Anthony Hopkins

Arnold, assim se cha­ma o sócio de Ford, é o «ghost in the machi­ne» de Dolores. Sobreviveu como uma série de ins­tru­ções. Código que a incen­ti­va a aju­dá-lo a con­cre­ti­zar um últi­mo dese­jo: des­truir Westworld.

«Algures nes­sas atu­a­li­za­ções, ele ain­da está aí. Perfeitamente pre­ser­va­do.» — Ford per­ce­be-o ao ana­li­sar Dolores, admi­tin­do a sua inca­pa­ci­da­de em cor­ri­gir o pro­ble­ma. — «A tua men­te é um jar­dim mura­do. Nem a mor­te con­se­gue tocar nas flo­res que aí desa­bro­cham.»

A morte da donzela em perigo

Eis a nova Dolores: ves­ti­da à cau­bói, col­dre e arma, já sem a fati­o­ta de «E Tudo o Vento Levou» mas ain­da com cara de bone­ca. Numa das melho­res cenas des­te epi­só­dio, a rapa­ri­ga ino­fen­si­va des­pa­cha à bala vári­os ini­mi­gos de uma só vez. E sal­va William (Jimmi Simpson) como uma ver­da­dei­ra «bad ass».

Deve ter sido uma cena épi­ca para a atriz. Tal como a per­so­na­gem que inter­pre­ta, Evan Rachel Wood liber­tou-se dos per­pé­tu­os ciclos nar­ra­ti­vos em que são encer­ra­das a mai­o­ria das atri­zes. Em Westworld, o prin­ci­pal papel femi­ni­no não exis­te em fun­ção do pro­ta­go­nis­ta mas­cu­li­no.

Se hou­ve um momen­to em que Evan Rachel Wood sen­tiu mes­mo o que era estar na pele de Dolores, foi quan­do ani­qui­lou adver­sá­ri­os e cli­chés.

Evan Rachel Wood e Jimmi Simpson

Quando o per­ple­xo William quis saber o que acon­te­ce­ra, a voz e a expres­são eram as de uma atriz sabo­re­an­do os pra­ze­res da eman­ci­pa­ção nar­ra­ti­va.

«Disseste que as pes­so­as vinham aqui para mudar a his­tó­ria das suas vidas. Eu ima­gi­nei uma his­tó­ria onde não tives­se de ser a don­ze­la.»

Dolores é Alice a des­cer a toca do coe­lho em dire­ção ao labi­rin­to das mara­vi­lhas. Um Wyatt Earp a mane­jar as pis­to­las len­dá­ri­as. Exterminador Implacável para quem lhe bar­re o cami­nho para a liber­da­de. É este o seu ciclo, ago­ra, mas não sabe­mos se algu­ma vez lhe per­ten­ce­rá.

O humano que não gosta de humanos

O úni­co exter­mi­na­dor impla­cá­vel da série até ago­ra tem sido um ser huma­no, inter­pre­ta­do por Ed Harris. O pis­to­lei­ro sem nome vagueia livre­men­te pelo par­que de Westworld e pro­cu­ra, tal como Dolores, um míti­co labi­rin­to que encer­ra ver­da­des que mais nin­guém vê.

Ed Harris

Agora per­ce­be­mos por que razão o che­fe da segu­ran­ça do par­que diz que «aque­le cava­lhei­ro pode fazer o que qui­ser». No mun­do exte­ri­or, o real, o per­so­na­gem de Ed Harris é um mul­ti­mi­li­o­ná­rio. Há 35 anos, por altu­ra do desa­pa­re­ci­men­to de Arnold, sal­vou a empre­sa que gere o par­que de cair na ban­car­ro­ta.

Por que razão meteu lá dinhei­ro não se sabe, mas já se enten­de melhor o com­por­ta­men­to para com os androi­des. «Ao prin­cí­pio, vocês eram belos, fei­tos de um milhão de peque­nas peças per­fei­tas. Depois tor­na­ram-vos huma­nos, de car­ne e osso como nós» — expli­ca, qua­se repug­na­do.

Talvez ele seja um tipo dife­ren­te de racis­ta. Alguém que acre­di­ta que tan­tos huma­nos como androi­des se devem man­ter puros.

Tal como o desa­pa­re­ci­do Arnold, o homem de negro não tem gran­de con­si­de­ra­ção pela espé­cie huma­na. E não gos­ta de máqui­nas fei­tas à nos­sa ima­gem e seme­lhan­ça.

Dolores pro­cu­ra o labi­rin­to na espe­ran­ça de des­co­brir uma for­ma de ser livre. O homem de negro pro­cu­ra o labi­rin­to para encon­trar uma for­ma de se livrar deles todos. Os cami­nhos estão pres­tes a cru­zar-se. E ela já não é a don­ze­la em peri­go dos últi­mos 35 anos.

Marco Santos

­ Marco Santos

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