Dolores, Dolores. Quo va­dis, Dolores? Dolores, in­ter­pre­ta­da pe­la en­can­ta­do­ra Evan Rachel Wood, dirige-se pa­ra o cen­tro de um la­bi­rin­to on­de po­de­rá con­quis­tar a sua li­ber­da­de.

Que sig­ni­fi­ca es­sa con­quis­ta, no seu ca­so? Se é li­ber­da­de pa­ra ser igual a si pró­pria, en­tão é uma fal­sa pro­mes­sa: ela na­da tem de pró­prio. Se é li­ber­da­de pa­ra fu­gir do es­pa­ço fí­si­co em que se en­con­tra, en­tão po­de ser um be­co sem saí­da, uma ar­ma­di­lha. Oitenta por cen­to da his­tó­ria de Westworld é a da bus­ca por uma no­va iden­ti­da­de que nin­guém sa­be qual se­rá.

Dolores (Evan Rachel Wood) e William (Jimmi Simpson)

Dolores (Evan Rachel Wood) e William (Jimmi Simpson)

William, William. Quo va­dis, William? William é o he­rói dis­cre­to de Westworld.

O seu sen­ti­do de de­cên­cia é qua­se ana­cró­ni­co e ele pa­re­ce sabê-lo. É um pá­ria no mun­do cí­ni­co e cru­el que dei­xou pa­ra trás e des­co­bre que no par­que, na­que­le lu­gar on­de to­dos po­dem fa­zer o que lhes dá na ga­na, a sua cons­ci­ên­cia mo­ral é al­vo de jo­co­sos co­men­tá­ri­os de de­sa­pro­va­ção por par­te do seu com­pa­nhei­ro de vi­a­gem Logan.

Logan (Ben Barnes)

Logan (Ben Barnes)

Logan, Logan. Quo va­dis, Logan? Logan é uma cri­an­ça num cor­po de ho­mem. Forçado no mun­do re­al a re­pre­sen­tar o pa­pel que a so­ci­e­da­de re­ser­va aos mem­bros adul­tos de uma ri­ca e res­pei­tá­vel fa­mí­lia de em­pre­sá­ri­os, des­co­briu em Westworld o re­creio on­de po­de brin­car sem ser re­cri­mi­na­do.

No mun­do dos hu­ma­nos, Logan é um an­droi­de; no mun­do dos an­droi­des, Logan transforma-se num hu­ma­no cí­ni­co, vi­o­len­to e cru­el, co­mo o mun­do que o fez.

Bernard

Bernard (Jeffrey Wright)

Bernard, Bernard. Quo va­dis, Bernard? Ainda não con­se­gui per­ce­ber o que raio an­das tu a fa­zer. És um sa­bo­ta­dor ou um ro­mân­ti­co? Um cons­pi­ra­dor ou um sen­ti­men­tal?

Quem é Dolores pa­ra ti, uma fi­lha, uma ex­pe­ri­ên­cia, um meio pa­ra atin­gir um fim que ain­da não so­mos ca­pa­zes de des­cor­ti­nar? Bernard, o mes­tre da ob­ser­va­ção, o bri­lhan­te pro­gra­ma­dor, de­se­ja aju­dar Dolores a con­quis­tar a sua li­ber­da­de pe­lo en­can­to de uma me­ni­na per­di­da no mun­do? Um ho­mem tão in­te­li­gen­te não se aper­ce­be­ria da ir­ra­ci­o­na­li­da­de de usar um an­droi­de pa­ra ta­par uma bre­cha na sua vi­da emo­ci­o­nal?

Robert Ford (Anthony Hopkins)

Robert Ford (Anthony Hopkins)

Ford, Ford. Quo va­dis? Não se te apli­ca. Há mui­to que atin­gis­te a po­si­ção no Cosmos que de­se­ja­vas: a de um deus. Para com­ple­tar a trans­for­ma­ção, pre­ci­sas de ser imor­tal.

Desconfio que a gran­de e mis­te­ri­o­sa nar­ra­ti­va que an­das a en­gen­drar tem mais a ver com es­se de­se­jo de imor­ta­li­da­de do que em agra­dar aos hós­pe­des, por quem de res­to não tens gran­de con­si­de­ra­ção.

Ford é ar­ti­cu­la­do, gen­til, frio, a in­te­li­gên­cia brilha-lhe nos olhos. Percebo por que ra­zão es­co­lhe­ram Anthony Hopkins pa­ra o pa­pel. Ninguém sa­be ser tão edu­ca­da­men­te si­nis­tro co­mo ele.

O Homem de Negro (Ed Harris)

O Homem de Negro (Ed Harris)

O hós­pe­de sem iden­ti­da­de que va­gueia por Westworld co­mo um an­jo da mor­te é um mul­ti­mi­li­o­ná­rio com uma Fundação res­pon­sá­vel até por sal­var a vi­da das pes­so­as, co­mo sou­be­mos nes­te epi­só­dio. O per­so­na­gem de Ed Harris é ne­gro por fo­ra, mas tal­vez não o se­ja tan­to por den­tro.

Ninguém co­nhe­ce me­lhor o par­que do que ele. Para os res­pon­sá­veis de Westworld, é um cli­en­te VIP a quem to­dos os de­se­jos, por prin­cí­pio, são sa­tis­fei­tos.

O ho­mem de ne­gro parece-nos mau, sá­di­co e cru­el por aba­ter, tor­tu­rar e vi­o­lar os an­droi­des, mas que ava­li­a­ção mo­ral po­de­rá ele fa­zer a tais ações se nos úl­ti­mos trin­ta anos os vê re­gres­sar co­mo se na­da fos­se, sem me­mó­ria dos hor­ro­res por que pas­sa­ram?

O ho­mem de ne­gro é um dos in­con­tá­veis mis­té­ri­os de Westworld. Quais as su­as in­ten­ções? Descobrir o mis­te­ri­o­so la­bi­rin­to pa­ra ser o li­ber­ta­dor dos an­droi­des, co­mo deu a en­ten­der nes­te epi­só­dio? É uma de­ci­são mo­ral ou ape­nas a úni­ca for­ma que vê de ven­cer o jo­go? E que jo­go é es­se? Destruir Westworld por sa­ber que não po­de­rá re­gres­sar?

A sé­rie pro­vo­ca mui­tas in­ter­ro­ga­ções e é par­ca nas res­pos­tas, mas pa­re­ce ter atin­gi­do um dos seus ob­je­ti­vos: deixar-nos a to­dos com um fra­qui­nho por Dolores e fa­zer da per­so­na­gem o cen­tro emo­ci­o­nal da his­tó­ria. Ela é, em si, um la­bi­rin­to.

Trágicos pombinhos sem asas

Dolores é um la­bi­rin­to fas­ci­nan­te. William, o de­cen­te, mantém-se a seu la­do, o que é pre­vi­sí­vel. A fi­de­li­da­de à mu­lher que dei­xou no mun­do «re­al» pa­re­ce ser mais mo­ti­va­da por prin­cí­pi­os mo­rais do que por amor. William deixa-se en­fei­ti­çar: vê-a co­mo uma pes­soa, respeita-a co­mo a uma pes­soa, deseja-a co­mo a uma pes­soa.

Dolores pa­re­ce ter si­do con­ce­bi­da de pro­pó­si­to pa­ra ele. Programaram-na com o mes­mo sen­ti­do de de­cên­cia, fizeram-na bo­ni­ta, sim­pá­ti­ca, ino­cen­te, in­gé­nua e, pa­ra tor­nar as coi­sas ain­da mais ir­re­sis­tí­veis, ago­ra é tam­bém uma don­ze­la em pe­ri­go.

 William (Jimmi Simpson), Dolores (Evan Rachel Wood) e Logan (Ben Barnes)

William (Jimmi Simpson), Dolores (Evan Rachel Wood) e Logan (Ben Barnes)

William, o ina­dap­ta­do, o pá­ria, o si­len­ci­o­so, o ho­mem que fi­ca sem­pre a um can­to dos acon­te­ci­men­tos, é mo­vi­do ago­ra pe­la ter­nu­ra lân­gui­da do ma­cho pro­te­tor. Se a can­ção «I Put a Spell on You» co­me­ças­se a to­car sem­pre que os dois es­tão jun­tos, nem acha­ria mui­to des­pro­po­si­ta­do.

A re­la­ção dos dois pom­bi­nhos per­mi­te al­guns mo­men­tos de en­can­to na sé­rie, mas par­te de um equí­vo­co ób­vio: Dolores não tem iden­ti­da­de. Dolores ain­da não é. O «ser ou não ser» não se lhe apli­ca. E o fu­tu­ro é tão in­cer­to co­mo a lo­ca­li­za­ção do la­bi­rin­to.

Mas a vi­a­gem de Dolores é se­me­lhan­te à de Walter White do Breaking Bad.

Walter White co­me­çou co­mo um pa­ca­to e amar­gu­ra­do pro­fes­sor de Química, mas cir­cuns­tân­ci­as ex­ce­ci­o­nais fizeram-no tri­lhar um ca­mi­nho to­tal­men­te ines­pe­ra­do até se re­des­co­brir atra­vés da no­va iden­ti­da­de co­mo o te­mí­vel ba­rão da dro­ga Heisenberg.

Dolores co­me­ça co­mo uma cri­a­tu­ra en­can­ta­do­ra, me­ta­de an­jo, me­ta­de prin­ce­sa, mas no pro­ces­so de des­co­ber­ta da sua iden­ti­da­de não po­nho de par­te a pos­si­bi­li­da­de de se trans­for­mar num de­mó­nio de­ter­mi­na­do em der­ru­bar o seu Criador do tro­no. Se is­so acon­te­cer… Pobre William, não con­se­gui­rá ser fe­liz ou re­a­li­zar os seus so­nhos em ne­nhum dos mun­dos.

Marco Santos

Bitaite de Marco Santos

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