Os cri­a­do­res de Westworld têm a me­lhor jus­ti­fi­ca­ção pos­sí­vel pa­ra se des­cul­pa­rem dos cli­chés que nos im­pin­gem quan­do a fic­ção ci­en­tí­fi­ca é subs­ti­tuí­da pe­lo «wes­tern»: não são os seus cli­chés ou as su­as his­tó­ri­as, mas nar­ra­ti­vas ar­ti­fi­ci­ais que pro­gra­ma­do­res e en­ge­nhei­ros do par­que im­põem aos seus anfitriões.

Essas nar­ra­ti­vas con­ce­bi­das pa­ra en­tre­ter os hós­pe­des hu­ma­nos — e às quais os ino­cen­tes an­droi­des res­pon­dem co­mo se fos­sem even­tos na­tu­rais — ocu­pam tan­to es­pa­ço nos epi­só­di­os que fi­co sem sa­ber qual é a his­tó­ria que Westworld quer contar.

Os mis­té­ri­os — os fal­sos e os ver­da­dei­ros — vão-se amon­to­an­do so­bre os en­re­dos, co­mo os so­nhos do fil­me do Christopher Nolan. Que an­da o Ford a ma­gi­car? Quem an­da a sa­bo­tar os an­droi­des? Ele? Bernard? Estará Bernard a pro­je­tar em Dolores a ex­pe­ri­ên­cia da pa­ter­ni­da­de, in­ter­rom­pi­da quan­do o fi­lho mor­reu? Que la­bi­rin­to é es­se que o per­so­na­gem de Ed Harris an­da à pro­cu­ra? E qual é a his­tó­ria do per­so­na­gem de Ed Harris, já agora?

Não são os mis­té­ri­os que mais me atra­em em Westworld, mas es­te ter­cei­ro epi­só­dio já nos deu uma pis­ta so­bre uma pos­sí­vel ori­gem dos pro­ble­mas com os an­fi­triões: du­ran­te uma im­por­tan­te con­ver­sa en­tre Ford (Anthony Hopkins) e Bernard (Jeffrey Wright), fi­ca­mos a sa­ber que há trin­ta anos um fa­le­ci­do en­ge­nhei­ro e par­cei­ro de Ford tra­ba­lhou pa­ra cri­ar uma cons­ci­ên­cia artificial.

O pro­je­to fa­lhou — a em­pre­sa que­ria mon­tar um par­que com cri­a­tu­ras pro­gra­ma­das pa­ra en­tre­ter e sa­tis­fa­zer as pes­so­as, não povoá-lo com au­tó­ma­tos pre­sos em di­le­mas exis­ten­ci­ais —, mas seg­men­tos do có­di­go en­tão cri­a­do não fo­ram des­truí­dos e po­dem ser os res­pon­sá­veis pe­los «glit­ches in the Matrix» que es­tão a acon­te­cer des­de o pri­mei­ro episódio.

Agarra o comprimido, Dolores, agarra o comprimido

A re­fe­rên­cia ao Matrix não é des­ca­bi­da. Bernard é o Morpheus de Dolores (Evan Rachel Wood): não ofe­re­ce um com­pri­mi­do ver­me­lho, mas uma es­co­lha en­tre du­as ver­sões de­la pró­pria, a que faz per­gun­tas e a que se sen­te em se­gu­ran­ça. E testa-a com uma pas­sa­gem do li­vro «Alice no País das Maravilhas» igual­men­te reveladora:

«Que es­tra­nho tu­do es­tá ho­je. E on­tem as coi­sas cor­re­ram co­mo de cos­tu­me. Pergunto-me se te­rei si­do mu­da­da du­ran­te a noi­te. Era a mes­ma, quan­do me le­van­tei es­ta ma­nhã? Quase re­cor­do ter-me sen­ti­do um pou­co di­fe­ren­te. Mas se não sou a mes­ma, a pró­xi­ma per­gun­ta é: quem sou eu?»

James Marsden e Evan Rachel Wood

James Marsden e Evan Rachel Wood

Dolores é a per­so­na­gem mais pa­re­ci­da com o Neo do fil­me Matrix: tam­bém ela vi­ve uma exis­tên­cia ar­ti­fi­ci­al sem o sa­ber e, mais tar­de ou mais ce­do, te­rá de en­fren­tar a feia re­a­li­da­de do mun­do em que vive.

Dolores é tam­bém a Alice à bei­ra de cair pe­lo bu­ra­co da to­ca do co­e­lho, o que no ca­so de­la sig­ni­fi­ca des­cer aos abis­mos pa­ra des­co­brir a sua ver­da­dei­ra iden­ti­da­de. Esta parece-me ser a ver­da­dei­ra his­tó­ria de Westworld. E é fascinante.

Sabemos que as per­so­na­li­da­des, me­mó­ri­as, sen­ti­men­tos dos po­bres an­droi­des são de­ter­mi­na­das pe­los pro­gra­ma­do­res. Chega a ser con­fran­ge­dor vê-los a re­pe­tir a mes­ma nar­ra­ti­va dia após dia, epi­só­dio após epi­só­dio, co­mo ma­ri­o­ne­tas do bem e do mal. E é con­fran­ge­dor por­que por es­ta al­tu­ra já co­me­çá­mos a vê-los co­mo se­res vi­vos e não máquinas.

Se as fa­lhas e os seg­men­tos de «có­di­go ma­li­ci­o­so» (não re­sis­ti a usar es­ta ex­pres­são) os le­va­rem a de­sen­vol­ver cons­ci­ên­cia, em que ti­po de pes­so­as se tor­na­rão? O ban­di­do per­ma­ne­ce­rá ban­di­do? O cau­bói de­cen­te e ín­te­gro (James Marsden) pro­gra­ma­do pa­ra pro­te­ger Dolores con­ti­nu­a­rá de­cen­te e ín­te­gro? E qual se­rá o la­do ne­gro de Dolores, a do­ce oti­mis­ta, me­ta­de Alice, me­ta­de prin­ce­sa Disney? Não é to­dos os di­as que uma sé­rie nos po­de mos­trar tan­tos renascimentos.

«Another glit­ch in the Matrix» nes­te epi­só­dio: Dolores já re­cor­da. Dolores já pla­neia a de­fe­sa. Programada pa­ra não con­se­guir dis­pa­rar, Dolores já foi ca­paz de pre­mir o ga­ti­lho. Os di­as em que ela op­ta­va por não ver a fe­al­da­de do mun­do es­tão a terminar.

Marco Santos

Bitaite de Marco Santos

Editor @Sapo. Blogger @Bitaites. Legendas @LegDivx. Pai em todo o lado. Queres contactar-me?