O The Walking Dead e o Game of Thrones têm um mote em comum: «qual­quer um pode mor­rer». No pri­mei­ro caso já esta­mos far­tos de saber que é tre­ta, como aliás qua­se tudo nes­sa série. No que res­pei­ta a Game of Thrones, a inse­gu­ran­ça dos fãs já é mai­or, sobre­tu­do des­de o céle­bre epi­só­dio do Red Wedding.

Westworld não pre­ci­sa daque­le mote — reti­ra-lhe qual­quer sig­ni­fi­ca­do prá­ti­co, pelo menos em rela­ção aos prin­ci­pais pro­ta­go­nis­tas da his­tó­ria, os androi­des.

Por exem­plo, é a segun­da vez em dois epi­só­di­os que o pis­to­lei­ro Teddy Flood (James Marsden) é mor­to a tiro, sem ape­lo nem agra­vo.

Os seres frá­geis e fini­tos de car­bo­no que com­pu­nham a audi­ên­cia no pri­mei­ro epi­só­dio ain­da caí­ram nas espar­re­la, mas nes­te já esta­vam fami­li­a­ri­za­dos com o ciclo de fal­sa vida e mor­te e renas­ci­men­to em Westworld.

Ressurreição: reinstalação do Sistema Operativo

Teddy Flood (James Marsden)

Teddy Flood (James Marsden)

Dado que Teddy é uma máqui­na e nun­ca este­ve vivo, bas­ta uma rege­ne­ra­ção dos teci­dos bio­ló­gi­cos em que está embru­lha­do, uma lim­pe­za dos «bad sec­tors» no dis­co rígi­do e uma reins­ta­la­ção de sis­te­ma para o fazer regres­sar ao mun­do dos que pare­cem vivos.

Mas ver o pobre Teddy ser alve­ja­do à trai­ção por um turis­ta huma­no bêba­do à pro­cu­ra de diver­são, agar­rar-se à vida como qual­quer ser bio­ló­gi­co e pas­sar pela expe­ri­ên­cia trau­ma­ti­zan­te de saber que mor­re­rá e a mor­te é o seu fim, man­tém-nos emo­ci­o­nal­men­te liga­dos à cena.

No pro­blem. Teddy esta­rá de vol­ta para reco­me­çar o ciclo: acor­da­rá no com­boio a vapor que con­duz os hós­pe­des a Westworld, boce­ja­rá, obser­va­rá a pai­sa­gem pela jane­la como se tives­se esta­do ausen­te mui­to tem­po e vol­ta­rá a entrar ale­gre­men­te no salo­on onde foi alve­ja­do horas antes. A ver­da­dei­ra mor­te para os «anfi­triões» não é mor­rer, mas ser desa­ti­va­do. Claro que nem isso eles sabem.

E como por esta altu­ra já criá­mos algu­ma afei­ção por estes androi­des explo­ra­dos, os «loops» infin­dá­veis das suas fal­sas vidas aca­bam por tor­nar-se tris­tes. A igno­rân­cia dos idi­o­tas mani­fes­ta-se quan­do alguém se gaba de que exis­tem segui­do­res da teo­ria da Terra pla­na espa­lha­dos pelo glo­bo intei­ro, como li há uns dias no Facebook, mas a igno­rân­cia des­tes pobres robôs deve-se ape­nas à sua ino­cên­cia.

Se tirar­mos do cená­rio os hós­pe­des huma­nos deses­ta­bi­li­za­do­res, Westworld não é mais do que uma metá­fo­ra do Jardim do Éden, povo­a­do por Adãos e Evas que nun­ca pro­va­ram da Árvore do Conhecimento, com os enge­nhei­ros e pro­gra­ma­do­res a faze­rem de deu­ses. Mas como diz o dire­tor cri­a­ti­vo, Robert Ford (Anthony Hopkins), «não se pode ser Deus sem se ser apre­sen­ta­do ao Diabo».

Os androides não sonham com carneiros elétricos

Elsie Hughes (Shannon Woodward)

Elsie Hughes (Shannon Woodward) e dois androi­des em fim de ciclo.

O Diabo de Westworld não ofe­re­ce uma trin­ca na maçã, faci­li­ta-lhes o aces­so às memó­ri­as. Alguém está a sabo­tar os androi­des e a per­mi­tir-lhes recor­dar frag­men­tos de expe­ri­ên­ci­as pas­sa­das.

A doce e ingé­nua Dolores (Evan Rachel Woods) come­ça a pres­sen­tir que algo está erra­do no mun­do e a pros­ti­tu­ta Maeve (Thandie Newton) recor­da frag­men­tos de uma vida em que foi pro­gra­ma­da para ser uma pes­soa com­ple­ta­men­te dife­ren­te.

Como tais expe­ri­ên­ci­as e recor­da­ções são qua­se todas hor­rí­veis e trau­ma­ti­zan­tes, acom­pa­nhar esta tem­po­ra­da é como obser­var a for­ma­ção de nuvens negras num hori­zon­te lon­gín­quo. Mas elas estão a apro­xi­mar-se.

«Que sen­ti­do faria dar-lhes sonhos? Sonhos são, na sua mai­o­ria, memó­ri­as» — expli­ca a pro­gra­ma­do­ra Elsie Hughes (Shannon Woodward) a um assis­ten­te curi­o­so em saber se aque­les androi­des são capa­zes de sonhar. — «Imagina como seria doen­tio se per­mi­tís­se­mos que estes pobres dia­bos se lem­bras­sem do que lhes fazem os hós­pe­des?»

«Mas damos-lhes o con­cei­to de sonho» — res­sal­va. — «Especificamente, pesa­de­los. Para o caso de alguém se esque­cer de lhes apa­gar as memó­ri­as no fim de uma ses­são de manu­ten­ção.»

William (Jimmi Simpson)

William (Jimmi Simpson)

Para um visi­tan­te, é um admi­rá­vel mun­do novo. E este segun­do epi­só­dio apre­sen­ta-nos William (Jimmi Simpson), um dos pou­cos seres huma­nos decen­tes a visi­tar o par­que de Westworld — have­rá outros, mas a série não lhes dá mui­ta impor­tân­cia.

Através do olhar ain­da ver­di­nho de William, o bom, acom­pa­nha­mos a rece­ção aos hós­pe­des do par­que e a for­ma como a tran­si­ção é fei­ta — das ins­ta­la­ções assép­ti­cas e ultra­mo­der­nas em que são pre­pa­ra­dos à car­ru­a­gem tre­pi­dan­te e poei­ren­ta onde ini­ci­am a tra­ves­sia final. Dica: é uma exce­len­te cena, embo­ra con­ti­nue sem saber que soci­e­da­de de futu­ro é aque­la. Mas ain­da vamos no segun­do epi­só­dio, há tem­po.

O com­pa­nhei­ro de via­gem de William, Logan (Ben Barnes), que esco­lhe ves­tir-se de negro, é um vete­ra­no do turis­mo de Westworld de cará­ter mui­to duvi­do­so: só lhe fal­ta um cra­chá no pei­to a dizer «Eu sou um cre­ti­no» para que o retra­to fique tira­do. E jan­tar com ele não é uma expe­ri­ên­cia agra­dá­vel para huma­nos ou androi­des.

Expor ou não expor, eis a questão

Anthony Hopkins e Ed Harris

Richard Ford (Anthony Hopkins) e o mis­te­ri­o­so homem de negro (Ed Harris)

No pri­mei­ro epi­só­dio atu­rei alguns diá­lo­gos que não pas­sa­vam de expo­si­ção. Sabem como é: ima­gi­ne­mos dois téc­ni­cos da mes­ma área de espe­ci­a­li­za­ção a con­ver­sar, expli­can­do con­cei­tos bási­cos um ao outro como se fos­sem ambos prin­ci­pi­an­tes.

Dito de outra manei­ra: se um deter­mi­na­do per­so­na­gem diz qual­quer coi­sa que sabe­mos nun­ca diria, em cir­cuns­tân­cia algu­ma, não esta­mos a pre­sen­ci­ar diá­lo­go mas sim­ples expo­si­ção — expli­ca­ções para nos aju­dar a com­pre­en­der o enre­do, o cená­rio, as cir­cuns­tân­ci­as.

Por exem­plo, logo no pri­mei­ro epi­só­dio o che­fe da Divisão de Programação Bernard Lowe (o sem­pre exce­len­te Jeffrey Wright) expli­ca que as memó­ri­as dos androi­des «são apa­ga­das no fim de cada ciclo nar­ra­ti­vo mas ain­da estão lá, à espe­ra de serem rees­cri­tas.»

Tudo isto é infor­ma­ção fun­da­men­tal que pre­ci­sa­mos de saber, só é pena que a pes­soa com quem ele está a falar seja uma das prin­ci­pais pro­gra­ma­do­ras da divi­são, o que tor­na a expli­ca­ção ridí­cu­la, de tão implau­sí­vel, e trans­for­ma o diá­lo­go em mera expo­si­ção.

Fazer expo­si­ção atra­vés do diá­lo­go é como dar uma colher de sopa a uma cri­an­ci­nha. Se lhe enfi­ar­mos a colher pela boca expli­can­do-lhe as pro­pri­e­da­des nutri­ti­vas da sopa, duvi­do que a infor­ma­ção tor­ne a expe­ri­ên­cia mais agra­dá­vel. Se dis­ser­mos que é um avião­zi­nho que pre­ci­sa de ater­rar e que a boca da cri­an­ça é o aero­por­to, ele até se esque­ce que a sopa não sabe tão bem como um gela­do.

Por outras pala­vras: sejam mais cri­a­ti­vos, por­ra. Sabem como é uma das pri­mei­ras cenas fala­das do fil­me Apocalypse Now? Pura expo­si­ção. O per­so­na­gem do Martin Sheen levan­ta-se da cama, esprei­ta pela jane­la e, em voz off, ouvi­mo-lo dizer: «Saigão. Merda». Com ape­nas duas pala­vras, fica­mos a saber onde está e quais os seus sen­ti­men­tos em rela­ção ao sítio onde está.

A expo­si­ção tole­ra-se em doses peque­nas e ima­gi­na­ti­vas. Neste caso até em doses um boca­di­nho mai­o­res, ten­do em con­ta que a HBO gas­tou 100 milhões de dóla­res na série e pre­ci­sa man­ter entre a audi­ên­cia uma gera­ção que só con­se­gue con­cen­trar-se de for­ma inter­mi­ten­te, duran­te os cur­tos perío­dos de tem­po em que não está a rece­ber men­sa­gens no tele­mó­vel.

Mas para a mal­ta mais esqui­si­ta capaz de se des­li­gar das mer­das do Facebook e dos SMS, e con­cen­trar-se exclu­si­va­men­te naqui­lo que está a ver no ecrã, a sobre-expo­si­ção aca­ba por fazer uma pes­soa pen­sar que está a ser tra­ta­da como par­va.

Caros cri­a­do­res e argu­men­tis­tas: a série tem uma exce­len­te pre­mis­sa. Está ser mui­to melhor que o fil­me em que se baseia. Não é um por­ten­to de ori­gi­na­li­da­de, mas é fic­ção cien­tí­fi­ca da boa. A músi­ca é exce­len­te. Os ato­res são fabu­lo­sos. O cená­rio e os efei­tos espe­ci­ais são um luxo em tele­vi­são. Gostei des­te segun­do epi­só­dio e que venha o ter­cei­ro.

Agora que a nos­sa aten­ção já foi con­quis­ta­da e as regras do mun­do esta­be­le­ci­das, dei­xem lá os per­so­na­gens serem iguais a si pró­pri­os. Não os colo­quem a expli­car em dema­sia as suas moti­va­ções, como fez o mis­te­ri­o­so «homem de negro» Ed Harris nes­te epi­só­dio. A gen­te per­ce­be. O pró­prio Harris tam­bém, de cer­te­za. E ele é exce­len­te, desen­ras­ca-se bem. A par­tir de ago­ra façam de con­ta que nós não esta­mos aqui. Combinado?


A HBO ante­ci­pou em dois dias o segun­do epi­só­dio de Westworld, dis­po­ni­bi­li­zan­do-o nos ser­vi­ços HBO Now, HBO Go e HBO On Demand. O segun­do deba­te pre­si­den­ci­al entre o men­te­cap­to Donald e a Hillary Clinton calha­va à mes­ma hora da série, pelo que a HBO pre­fe­riu adi­an­tar-se para não per­der audi­ên­ci­as.

Poucas horas depois, já o epi­só­dio esta­va a ser par­ti­lha­do nos síti­os da pira­ta­ria — e a HBO terá tido mais uma opor­tu­ni­da­de de ver em fun­ci­o­na­men­to um dos sis­te­mas de dis­tri­bui­ção mais efi­ci­en­tes do mun­do.

Marco Santos

 Marco Santos

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