Gosto do Terror e do Fantástico. De séries que usam géneros considerados menores como pretexto para nos falar da condição humana.

De arquétipos que nos surpreendem por se tornarem pessoas. Cenas de ação entre neurónios. Histórias de amores subentendidos que nos fazem esperar por uma resolução que nunca chegará, como nas aberturas de Wagner.

Gosto de séries em que personagens conversam com eloquência irrealista umas com as outras, mesmo sendo vampiros, bruxas ou lobisomens. Gosto de ação que não atrapalhe o diálogo. De séries que usam a violência e morbidade típicas do género de forma operática, como fez Coppola quando filmou o Drácula de Bram Stoker. E sou um completo devoto de Eva Green, a santa padroeira das tentações demoníacas.

Eva Green como Vanessa Ives

Eva Green como Vanessa Ives

Por tudo isto e mais que não posso spoilar, gosto muito de Penny Dreadful. É uma das minhas séries preferidas. A terceira temporada começa a 1 maio e só tenho pena que não seja já amanhã.

Aterroriza, mas não é bem uma série de terror

Penny Dreadful tem uma audiência tão escassa que mencionar os seus méritos é como partilhar um segredo.

Estou convencido que a culpa de ter passado despercebida a tanta gente é do embrulho, muito enganador.

Penny Dreadful — criada e escrita pelo dramaturgo, argumentista e produtor John Logan — é a designação da literatura barata que se publicava em folhetins semanais no século XIX em Inglaterra. Eram histórias sensacionalistas, sangrentas e macabras envolvendo detetives, criminosos, assassinos e criaturas do mundo sobrenatural.

Os que à conta desta referência esperam uma típica série de terror repleta de violência, sustos e cenas de ação acham-na demasiado maçadora, lenta e palavrosa. Os que poderiam gostar precisamente por ser demasiado maçadora, lenta e palavrosa pensam que é apenas uma típica série de terror repleta de violência, sustos e cenas de ação, e evitam-na.

O elenco de Penny Dreadful na segunda temporada.

O elenco de Penny Dreadful na segunda temporada.

É pena. Não sabem o que perdem, uns e outros.

Penny Dreadful mistura mitologia egípcia com personagens clássicas da literatura e do cinema góticos, da criatura de Frankenstein ao Dorian Gray de Oscar Wilde, do lobisomem de Lon Chaney Jr. no filme «The Wolf Man» aos vampiros de Bram Stoker.

Todos interagem entre si e com novas personagens saídas da cabeça de Logan: Vanessa Ives (Eva Green), possuída pelos seus demónios, os dela e os sobrenaturais, Ethan Chandler (Josh Hartnett), pistoleiro americano refugiado na Londres do século XIX ou Sir Malcolm Murray (Timothy Dalton), caçador e explorador de coração enegrecido.

As bruxas de Penny Dreadful.

As bruxas de Penny Dreadful.

Penny Dreadful é a série que usa a transformação de uma mulher em monstro como metáfora da emancipação feminina no rígido contexto vitoriano.

Que nos mostra uma criatura de Frankenstein (Rory Kinnear, primeiro-ministro em «The Black Mirror») refugiada na poesia para entender o mundo hostil que a discrimina, dividida entre a força redentora das palavras e o seu ímpeto violento de monstro vingativo.

Que nos conta como uma poderosa bruxa adoradora do Diabo se revela uma mulher de meia-idade insegura em relação à imortalidade prometida, pois julga-se incapaz de suportar a solidão eterna.

Que coloca um dos vilões a prometer: «o sangue da Humanidade regará o nosso jardim». É preciso ter lata, querer dominar o mundo com eloquência. Penny Dreadful é Drácula lendo Shakespeare entre refeições, enquanto se delicia com os temas que o polaco Abel Korzeniowski fez só para ele.

A propósito de delícias: carreguem aqui no play, se fazem favor.

E se quiserem ver o primeiro «sneak peek» da próxima temporada, façam favor.

Se forem na minha conversa e decidirem experimentar ver Penny Dreadful, talvez estejam dispostos a desculpar-lhe as falhas. A primeira temporada teve momentos em que se deixou constringir pelos clichés do género, como se estivesse ainda indecisa em relação ao que queria ser. O final foi demasiado apressado para o meu gosto.

Sem as qualidades do diálogo e dos atores, da fotografia e dos valores de produção, não teria tido interesse em continuar a ver: quem viu um vampiro genérico viu todos e já me bastou ter perdido tempo com o monótono «The Strain».

A segunda temporada foi quase perfeita, à exceção da dificuldade em encaixar o personagem Dorian Gray neste mundo — mas até esse problema acaba por ser bem resolvido. O mais experiente Logan já conta a história sem oscilações: o adversário não é mais uma ameaça vaga e incorpórea, mas uma personalidade formidável.

E já vos disse que é com a Eva Green, certo?

Eva Green em versão red.

Eva Green em versão red.

A terceira temporada estreia a 1 de maio.

É bem capaz de ser a última. Que uma série com elevados custos de produção e grandes atores tenha conseguido sobreviver tanto tempo com pouco mais de 800 mil espectadores por episódio já é um feito assinalável, por isso nem vou queixar-me muito se a Showtime a cancelar. Até lá, aproveitarei cada segundo dos nove episódios que restam, à espera do milagre de uma quarta temporada.

Eva Green e Patti LuPone

Eva Green e Patti LuPone numa foto promocional da terceira temporada.

Marco Santos

­ Marco Santos

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