Os que têm ago­ra vin­te, trin­ta anos, pro­va­vel­men­te ou­vi­ram di­zer que na dé­ca­da de 80 do sé­cu­lo pas­sa­do se deu um fe­nó­me­no mar­can­te na mú­si­ca por­tu­gue­sa: o cha­ma­do «bo­om» do rock por­tu­guês. Isto não é bem ver­da­de, por­que já se fa­zia o «ié-ié» em Portugal há uns vin­te anos, mas o fe­nó­me­no é ines­que­cí­vel pa­ra quem o viveu.

Eu sou um bo­ca­di­nho mais ve­lho (mas só um bo­ca­di­nho) e a mi­nha pré-adolescência atra­ves­sou es­ses anos lou­cos do prin­cí­pio da dé­ca­da de 80, quan­do as ban­das por­tu­gue­sas do­mi­na­vam as play­lists dos pro­gra­mas de rá­dio e os tops de ven­das, eram apo­te­o­ti­ca­men­te re­ce­bi­das na te­le­vi­são e ab­so­lu­ta­men­te pri­o­ri­tá­ri­as pa­ra as edi­to­ras, que dei­ta­vam cá pa­ra fo­ra sin­gles que se ven­di­am aos mi­lha­res em pou­cas semanas.

Estes eram os tem­pos em que uma ban­da po­dia sur­gir do na­da, ven­der um ar­ma­zém de dis­cos de vi­nil e ao na­da re­gres­sar – os Grupo de Baile e o sin­gle «Patchouly», por exem­plo, ven­de­ram, em 1981, cer­ca de 99 mil có­pi­as, mas ra­pi­da­men­te per­de­ram a fa­ma e desapareceram.

Embora des­de a dé­ca­da de 70 exis­tis­sem mú­si­cos a fa­zer uma «mú­si­ca mo­der­na por­tu­gue­sa» – um bom exem­plo dis­to são os Tantra –, foi no prin­cí­pio da dé­ca­da de 80, com o su­ces­so do dis­co de es­treia de Rui Veloso, «Ar de Rock», que os me­dia ca­ta­lo­ga­ram es­tes tra­ba­lhos com a so­nan­te e con­ve­ni­en­te­men­te abran­gen­te de­sig­na­ção de «rock português».

A can­ção de mai­or su­ces­so des­se dis­co, «Chico Fininho», aju­da a per­ce­ber o que ha­via de no­vo que tan­to ca­ti­va­va as pes­so­as: mú­si­cas bem es­ga­lha­das (no ca­so de «Chico Fininho», um blues/rock ace­le­ra­do), com le­tras que ca­ri­ca­tu­ra­vam cro­mos com que nos de­pa­rá­va­mos no dia-a-dia.

Isto não é no­vi­da­de pa­ra quem é da mi­nha ge­ra­ção, mas na­que­les tem­pos ain­da se vi­via um pou­co a res­sa­ca do pe­río­do re­vo­lu­ci­o­ná­rio do 25 de Abril. A mú­si­ca por­tu­gue­sa des­sa al­tu­ra era do­mi­na­da pe­las can­ções re­vo­lu­ci­o­ná­ri­as e de ca­riz po­lí­ti­co que tí­nha­mos si­do im­pe­di­dos de ou­vir du­ran­te a ditadura.

Estávamos em ple­na ca­tar­se, com­pen­san­do o tem­po per­di­do, li­ber­tos da obs­cu­ri­da­de da di­ta­du­ra do Estado Novo so­bre a qual a Primavera de Caetano lan­ça­ra ape­nas uma luz ba­ça, mas aque­les que eram ain­da uns miú­dos quan­do se deu a Revolução não ti­nham des­ta as mes­mas me­mó­ri­as (ou op­ta­ram por es­que­cer), e já es­ta­vam noutra.

À me­di­da que fo­mos cres­cen­do, tí­nha­mos de des­co­brir em gru­pos es­tran­gei­ros as vi­vên­ci­as e os sons com que mais nos iden­ti­fi­cá­va­mos. A mi­nha ge­ra­ção não que­ria pas­sar a vi­da a olhar pa­ra trás, pre­ci­sá­va­mos de can­tar o nos­so dia-a-dia, ou­vir le­tras que des­cre­ves­sem a nos­sa re­a­li­da­de – e en­tão sur­giu um ti­po ta­len­to­so, Rui Veloso, ali­a­do a um gran­de le­tris­ta, Carlos Tê: jun­tos, fa­la­vam di­re­ta­men­te con­nos­co sem dar li­ções de ci­da­da­nia política.

Rui Veloso

Rui Veloso em con­cer­to co­me­mo­ra­ti­vo dos seus 25 anos de car­rei­ra, a 3 de no­vem­bro de 2006, no Coliseu do Porto. | Foto: João Abreu Miranda

Do nos­so dia-a-dia de pu­tos fa­zi­am par­te não o no­bre com­ba­ten­te an­ti­fas­cis­ta que já es­tá­va­mos can­sa­dos de ver ce­le­bra­do, mas os Chicos Fininhos, Gingando pe­la rua ao som do Lou Reed, sem­pre na sua, sem­pre cheio de spe­ed, se­guin­do o seu ca­mi­nho com mer­da na al­gi­bei­ra, o Chico Fininho, o fre­ak da cantareira.

(Nesses tem­pos, di­zer «mer­da» nu­ma can­ção era escandaloso)

Também se­ría­mos ca­pa­zes de iden­ti­fi­car, sem abu­sar mui­to da ima­gi­na­ção, a tí­pi­ca ra­pa­ri­gui­nha do shop­ping, bem ves­ti­da e pe­tu­lan­te, des­cen­do pe­la es­ca­da ro­lan­te com uma re­vis­ta de bor­da­dos com um olhar ru­ti­lan­te e os so­va­cos perfumados.

Mastiga e deita fora

Findo o pe­río­do re­vo­lu­ci­o­ná­rio, es­tá­va­mos fi­nal­men­te a con­so­li­dar a nos­sa Democracia, co­mo di­zi­am os po­lí­ti­cos – o que sig­ni­fi­cou, tam­bém, o triun­fo do con­su­mo de­sen­fre­a­do, dos pas­sei­os aos shop­pings can­ta­dos pe­lo Rui Veloso.

Tendo em con­ta a ra­pi­dez com que as edi­to­ras se pre­o­cu­pa­ram em ex­plo­rar o fi­lão do «rock por­tu­guês», gra­van­do ban­das atrás de ban­das só por­que aqui­lo es­ta­va na mo­da e ven­dia, abandonando-as de­pois, por já não ven­de­rem, não con­si­go olhar pa­ra trás sem ver no es­pí­ri­to des­ses tem­pos o que, em 1982, e com enor­me su­ces­so, uma ou­tra ban­da de as­cen­são me­teó­ri­ca nos tops cantou:

E co­mo tu­do o que é coi­sa que promete/A gen­te vê co­mo uma chiclete/ Que se pro­va, mas­ti­ga e dei­ta fo­ra, sem demora/Como es­ta mú­si­ca é pro­du­to acabado/Da so­ci­e­da­de de con­su­mo imediato/Como tu­do o que se pro­me­te nes­ta vi­da, Chiclete.

Os Táxi eram a mi­nha ban­da pre­fe­ri­da des­ses tem­pos, so­bre­tu­do por cau­sa das le­tras. Com es­te te­ma, «Chiclete», fi­ze­ram o de­vi­do pon­to da si­tu­a­ção, um ano de­pois de Rui Veloso ter ex­plo­di­do no mer­ca­do. O seu LP de es­treia ven­deu mais de 70 mil exem­pla­res e pas­sou à his­tó­ria co­mo o pri­mei­ro dis­co de ou­ro do rock português.

Só mui­tos anos de­pois se as­sis­ti­ria a um fe­nó­me­no de po­pu­la­ri­da­de se­me­lhan­te as­so­ci­a­do a um dis­co de es­treia, quan­do Pedro Abrunhosa apa­re­ceu, no au­ge do Cavaquistão. Nem o pri­mei­ro de Rui Veloso, «Ar de Rock», ti­nha con­se­gui­do tanto.

Mas o rock fei­to por por­tu­gue­ses não nas­ceu na dé­ca­da de 80, já ha­via gen­te a aba­nar o ca­pa­ce­te em Portugal na dé­ca­da de 60. E to­da es­ta pro­sa ser­ve pa­ra aler­tar a mal­ta in­te­res­sa­da nes­tas coi­sas que ho­je, na RTP1, é emi­ti­do o pri­mei­ro de um to­tal de seis epi­só­di­os de­di­ca­dos às es­tó­ri­as do rock tu­ga: o do­cu­men­tá­rio «A Arte Elétrica em Portugal», uma ideia avan­ça­da pe­lo re­a­li­za­dor António Pedro Vasconcelos, abar­ca to­dos es­ses lou­cos anos, co­me­ça às 23 ho­ras e é trans­mi­ti­do to­das as quartas-feiras.

Marco Santos

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