Fiquei curioso em relação a «Mr. Robot» porque se diziam maravilhas sobre a forma realista como a série retratava o mundo dos «hackers» e dos computadores. E era verdade: finalmente, uma obra de ficção não provocava sentimentos de embaraço até para quem conhecia só os mínimos olímpicos daquela área.

O que me fez ficar completamente agarrado à série foi a personalidade e a situação do personagem principal, o «hacker» Elliot Alderson.

Rami Malek como Elliot Alderson

Rami Malek como Elliot Alderson

Elliot é metade cachorro, metade louva-a-deus. Quando tenta comunicar com aqueles que ama e não consegue, os enormes olhos do magnífico Rami Malek fazem-me lembrar os de um cãozinho que há muito perdeu o dono e já não sabe como confiar nos humanos, embora precise desesperadamente de fazer parte da nossa matilha.

Elliot não tem capacidades de socialização, esconde-se dentro do capuz, manda «foder» a sociedade, critica com dureza a forma inconsequente e inócua como usamos as redes sociais para comunicarmos uns com os outros, os nossos valores deturpados, as nossas mentiras, os nossos falsos heróis, mas tem ataques compulsivos de choro e usa drogas para mitigar os sentimentos de solidão e abandono que o deixam claustrofóbico na sua própria casa.

Sabemos disso porque somos o seu «amigo invisível», aquele em quem ele confia os seus segredos mais íntimos. Quando comunica connosco, o discurso de Elliot é sólido e fluente, as palavras não lhe faltam, a sua visão do mundo e das pessoas é partilhada sem timidez.

A série consegue estabelecer uma relação quase simbiótica entre nós e o seu personagem principal, mas essa associação nem sempre ajuda a compreender os acontecimentos: se Elliot é enganado, nós também somos enganados. Se Elliot se ilude, nós também nos iludimos. Se Elliot alucina, nós também alucinamos. Mas se estivermos com ele, estamos com a série.

Elliot é emocionalmente claustrofóbico, mas tem uma enorme janela sobre o mundo e as pessoas desse mundo: o ecrã do computador e as suas extraordinárias habilidades como «hacker».

Elliot é um criminoso porque invade a conta do Facebook da melhor amiga, Angela, vasculhando-lhe as mensagens privadas. Elliot não se sente um criminoso porque não o faz por perversidade ou curiosidade mórbida, mas por uma genuína preocupação com o bem-estar da amiga, pela necessidade de a acompanhar e estar psicologicamente incapacitado de o fazer no «mundo real».

Elliot no computador

Quando se senta diante do ecrã do computador e tenta restabelecer o equilíbrio perdido do Universo entre os desafortunados da sociedade e os que mais beneficiam desses infortúnios, os que violam a sua ética e os que são vítimas dessas violações, Elliot transfigura-se: o rosto sombrio escondido no capuz emerge. O rosto cinzento de quem carrega uma tempestade aos ombros parece então irradiar uma luz própria.

Já não é o cachorro abandonado, o tímido, o inadaptado, o homem que deseja ser invisível, mas um temível predador capaz de arruinar a vida de uma pessoa a partir de um computador: os braços e as mãos sobre o teclado lembram as garras de um louva-a-deus agarrando mais uma presa.

Mas as suas presas não são vítimas inocentes, como podemos ver logo no episódio de estreia, quando denuncia o dono de um café responsável por gerir um sítio de pornografia infantil.

O que poderá acontecer quando este homem duplo, este narrador em quem não podemos confiar, resolve planear um «hack» destinado a mudar o mundo, a torná-lo melhor? De que mundo se trata? O dele ou o nosso? E ficará melhor, esse mundo?

À boleia de um rico passado

Robert de Niro em «Taxi Driver»

Robert de Niro em «Taxi Driver»

O que também gostei em «Mr. Robot» foi a forma como assumiu as suas múltiplas referências — da mais óbvia, «The Fight Club», a outras mais subtis. Vi muita gente a torcer o nariz perante estas referências. Alguns acusaram o criador e argumentista Sam Esmail de falta de criatividade.

Vejo as coisas de outra forma. Qualquer programador no mundo do código livre e aberto pode utilizar partes do código de outro programador, desde que respeite os termos da licença original e não se limite a copiar o «software» completo dando-lhe apenas outro nome.

Esmail usa parte do código de outros para construir o seu próprio «programa». Todos o fazem. Toda a gente se apropria do que outros já criaram. Assimilar faz parte do processo de criação. Bons exemplos? Zappa. O jazz. Qualquer artista.

Esmail assume essas apropriações sem complexos, na própria série ou em entrevistas. É como um músico de jazz que pega na composição de outro e a torna sua pelos arranjos ou pela expressão única da sua improvisação. «Mr. Robot» não é uma melodia original, mas tem uns arranjos e uns solos fantásticos!

Seguem-se declarações que o próprio Esmail foi dando ao longo dos meses em múltiplos sítios e ocasiões, explicando quais as principais influências em «Mr.Robot» e por que razão o influenciaram, como argumentista ou realizador de muitos dos episódios.

1 Fight Club

Rami Malek e Christian Slater

Rami Malek e Christian Slater

«Fight Club é excelente no seu espírito de anti-sistema. Quando se quer fazer uma série sobre hackers e a sua cultura, seria insensato não ser inspirado por um filme que é o rei nesse assunto. Quero provocar a mesma sensação que as pessoas tiveram ao ver esse filme.

Há algo de muito audaz, excitante e interessante em Fight Club, mesmo sendo, ao mesmo tempo, extremamente político. E mostra muito bem os prós e os contras desta nossa sociedade de consumo. Todos esses elementos foram influências.»

2 American Psycho

Martin Wallström como Tyrell Wellick

Martin Wallström como Tyrell Wellick

« Ao contar a história do mundo empresarial em «Mr. Robot», queria atingir um equilíbrio entre sátira e frontalidade. American Psycho é muito mais exagerado — e queríamos ser audaciosos, não exagerados.

Ainda assim, é um dos melhores filmes que conheço sobre política empresarial embora não seja, espero eu, uma representação realística.»

3 Taxi Driver

Rami Malek

«Ao rever Taxi Driver ou qualquer outro filme de Martin Scorsese passado em Nova Iorque, verifico como ele filmou a cidade exatamente da forma como a vejo: pouco polida. E nós queríamos filmar em locais como Coney Island, magnífica de se ver, bela na sua fealdade.

Taxi Driver é também um daqueles filmes inovadores na forma como permite ao expectador entrar dentro da cabeça de um personagem. Consegue-se estabelecer uma relação íntima com Travis Bickle que não seria possível sem a narração — se for bem executado, é um artifício capaz de prender uma pessoa ao ecrã.

Elliot é tão confrangedor e tem uma tal fobia social que a única forma de nos relacionarmos com ele é estando dentro da sua mente. Caso contrário, seria difícil envolvermo-nos com um personagem assim. E foi desta forma — inspirado pela relação entre Travis e os expectadores no filme de Scorsese — que me lembrei de colocar Elliot a narrar os acontecimentos com uma pessoa imaginária.»

4 Breaking Bad

Rami Malek

«O que para mim foi revolucionário em Breaking Bad — não conheço outra série que tenha feito o mesmo — é o compromisso assumido em contar uma única história. Contaram uma história do princípio ao fim, de forma coesa e coerente, sem nunca se desviar dela.

Isto foi inspirador porque inicialmente Mr. Robot era para ser um filme, um filme com uma história e um fim determinado — o final da primeira temporada é o final do primeiro ato (ou da primeira meia-hora) desse filme e a verdadeira história começa na segunda temporada.

Quando tomei a decisão de o transformar em uma série de televisão, pensei ‘Bem, o Breaking Bad conseguiu-o, contou a história do princípio ao fim e cingiu-se à jornada planeada’. E era isso que eu pretendia fazer, também.»

5 Stanley Kubrick

Carly Chaikin

Carly Chaikin como Darlene

«Laranja Mecânica usa a narração, tal como Taxi Driver, mas evoco esse filme pelo uso dos intertítulos, que inspiraram os nossos. Seja como for, uma das maiores influências em Mr. Robot é Stanley Kubrick em geral.

Os óculos escuros que a Darlene usa são uma alusão ao Lolita. No final da primeira temporada, há uma outra alusão ao Dr. Strangelove. E há um «feeling» de Eyes Wide Shut no facto de os elementos do grupo hacker fsociety usarem máscaras.

Numa dessas viagens de avião em que andei de um lado para o outro enquanto filmava a série, passou o The Shining. Adoro esse filme. Reparei como o Kubrick enquadra os personagens com muito espaço à volta, provocando uma resposta perturbadora do ponto de vista emocional.

Outra grande influência de Kubrick é o uso de ângulos muito abertos. Tenho uma afinidade com ângulos abertos. Quando realizei o segundo episódio, comecei com um plano panorâmico e o Elliot de pé, mortificado, visto de costas, à entrada de uma porta — pouco habitual numa série de televisão.

Não se pode contar aquela história com uma lente que não seja tão poderosa. Kubrick também gostava da lente grande angular. Consegue-se suster um certo tom, quando persistimos em usá-la. O plano é estranho e deslocado, mas atraente. Obriga-nos a prestar mais atenção ao quadro.

Não sei se ainda fizemos o 2001, mas a certo ponto vamos trazê-lo emprestado. O Elliot vai para o Espaço!»

6 Blade Runner

Stephanie Corneliussen é Joanna Wellick

Stephanie Corneliussen é Joanna Wellick

«A moralidade de Blade Runner influenciou a narrativa de Mr. Robot. É fascinante. A cena final entre Rutger Hauer e Harrison Ford é tão bela. Embora Hauer seja o vilão, no fim já não o odeias. E ele podia ter matado o Ford, mas não o fez!

Não há um cenário ‘o bom contra o mau’, há uma área cinzenta muito ambígua. E o mesmo se passa com Tyrell. Mesmo que o detestes, adoras vê-lo no ecrã.»

7 Sam e os amigos de Sam

Sam Esmail

Sam Esmail

«As pessoas que sofrem de perturbações mentais — como o Elliot — tendem a gerir as suas angústias emocionais através da auto-medicamentação, fechando-se às pessoas ou criando uma ‘personalidade’ para disfarçar os sintomas.

Eu sofri de fobia social e de perturbações obsessivo-compulsivas. Sei como é importante escondê-las e o que se pode fazer para o conseguir. Isto inclui também o uso de drogas. Tal como o Elliot, eu usei morfina.

Tive alguns amigos que sofriam de esquizofrenia e transtorno dissociativo de identidade, além de casos mais extremos de fobia social. Usei muito desses conhecimentos e a experiência em lidar com eles na série, mas também trabalhei com um psicólogo durante o trabalho de investigação para o personagem de Elliot.»

8 A Primavera Árabe

 Michael Drayer como Cisco

Michael Drayer como Cisco

«A experiência com hackers e pessoas da área da Tecnologia mostrou-me que existe neles muita ansiedade. Fui para o Egipto nove meses antes de acontecer a Primavera Árabe. Tenho muitos primos lá que ainda são jovens. Sentiam essa ansiedade e estavam todos envolvidos na revolução.

O excelente para mim foi ter-me permitido reformular a visão exclusivamente negativa que tinha da ansiedade. A partir de um sentimento de ansiedade, conseguiu-se algo de bom.

Compreendi então que a ansiedade pode ser positiva. Pode ser o combustível que conduz a mudanças. Pode servir para juntar uma comunidade a deitar algo abaixo ou superar obstáculos. Pode ser aquilo que inspira as pessoas a marcarem a diferença.

Ver um lado positivo na ansiedade deixou-me entusiasmado e, em última análise, foi o último clique que precisei para escrever a série. Vi a ansiedade do Elliot ao serviço de um propósito positivo.»

Marco Santos

­ Marco Santos

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