«Mars» pas­sa to­dos os do­min­gos às dez e meia da noi­te no National Geographic. «Mars» é um do­cu­men­tá­rio so­bre um acon­te­ci­men­to ain­da não ocor­ri­do: a ex­plo­ra­ção hu­ma­na do pla­ne­ta Marte. Fãs da ex­plo­ra­ção es­pa­ci­al, da Ciência e da fic­ção ci­en­tí­fi­ca são ca­pa­zes de es­tar in­te­res­sa­dos em ver.

«Mars» é me­ta­de do­cu­men­tá­rio, me­ta­de dra­ma. Metade ci­ên­cia, me­ta­de fic­ção ci­en­tí­fi­ca. Metade pe­sa­de­lo, me­ta­de so­nho. Mas nem sem­pre o to­do é mai­or do que a so­ma das su­as du­as par­tes.

A tripulação da Daedalus

A tri­pu­la­ção da Daedalus

A tran­si­ção en­tre dra­ma e do­cu­men­tá­rio é abrup­ta. Tão sub­til co­mo uma te­sou­ra a cor­tar uma fo­lha ao meio. A fron­tei­ra en­tre du­as épo­cas dis­tin­tas é de­mar­ca­da por le­tras gar­ra­fais. Quando nos apa­re­ce no ecrã o nú­me­ro «2016», es­ta­mos na par­te do do­cu­men­tá­rio e das en­tre­vis­tas. Quando nos sur­ge «2033», é a vez da dra­ma­ti­za­ção de acon­te­ci­men­tos re­ais que ain­da não acon­te­ce­ram, por as­sim di­zer.

Em 2016, fa­lam os ci­en­tis­tas, os en­ge­nhei­ros. Gente que nos for­ne­ce o con­tex­to his­tó­ri­co de uma fu­tu­ra mis­são. Exemplos: o ad­mi­nis­tra­dor da NASA, Charles Bolden; o as­tro­nau­ta James Lovell, da mis­são Apollo 13; Elon Musk, da SpaceX; Andy Weir, au­tor do li­vro «O Marciano» adap­ta­do ao ci­ne­ma por Ridley Scott; Neil de­Gras­se Tyson, uma es­tre­la que es­tu­da es­tre­las.

Em 2033, o ano em que a pro­du­ção pre­vê que a mis­são ocor­ra, bri­lham os ato­res que re­pre­sen­tam a tri­pu­la­ção de seis ho­mens e mu­lhe­res da na­ve Daedalus. Três ho­mens e três mu­lhe­res, pa­ra não ha­ver fa­la­tó­rio so­bre des­cri­mi­na­ção.

Nas asas de Ícaro

Na mi­to­lo­gia gre­ga, Daedalus (Dédalo, em por­tu­guês) é um ar­qui­te­to e ar­tis­ta mui­to ta­len­to­so, des­cen­den­te di­re­to de Zeus. É ele o cons­tru­tor do la­bi­rin­to que apri­si­o­nou o mons­tro Minotauro.

O fi­lho, Ícaro, é re­cor­da­do por ter vo­a­do de­ma­si­a­do per­to do Sol. A sua am­bi­ção e ar­ro­gân­cia fizeram-no des­pre­zar os con­se­lhos do pai. Dédalo avisara-o pa­ra não se apro­xi­mar em de­ma­sia do Sol, pois a ce­ra das asas po­dia der­re­ter.

A sé­rie tem as am­bi­ções ar­tís­ti­cas de Dédalo e o de­se­jo de vo­ar de Ícaro. Não se des­pe­nha, mas tam­bém não voa mui­to al­to. É am­bi­ci­o­sa nos ce­ná­ri­os, nos fi­gu­ri­nos, no tra­ba­lho dos ato­res. É am­bi­ci­o­sa na for­ma co­mo pre­ten­de mos­trar uma fic­ção tão ci­en­ti­fi­ca­men­te ri­go­ro­sa quan­to pos­sí­vel.

Infelizmente, so­fre dos mes­mos ma­les de sé­ri­es com uma du­pla es­tru­tu­ra se­me­lhan­te. Quer ser du­as for­mas ao mes­mo tem­po e não con­se­gue realizar-se em ple­no nu­ma ou nou­tra. Não é sa­tis­fa­tó­ria co­mo do­cu­men­tá­rio nem es­pe­ci­al­men­te em­pol­gan­te co­mo fic­ção.

Sistema de transporte interplanetário

Daedalus

A na­ve Daedalus

Daedalus é tam­bém o no­me de um pro­je­to me­nos co­nhe­ci­do da Sociedade Interplanetária Britânica. Entre 1973 e 1978, foi fei­to um es­tu­do, uma pro­je­ção de uma na­ve in­te­res­te­lar não tri­pu­la­da ca­paz de al­can­çar o seu des­ti­no no tem­po de uma ge­ra­ção hu­ma­na. O pla­no pre­via uma mis­são de cin­quen­ta anos.

O Projeto Dédalo de­se­ja­va al­can­çar a es­tre­la de Barnard, a 5.9 anos-luz. Escolheu-se es­ta es­tre­la por­que se pen­sa­va que con­ti­nha um pla­ne­ta a orbitá-la. Hoje em dia, a des­co­ber­ta de can­di­da­tos a exo­pla­ne­tas é qua­se tri­vi­al. Muitos são ro­cho­sos. Alguns po­de­rão ter água em es­ta­do lí­qui­do. Outros… Bem, já es­ta­mos far­tos de sa­ber qual é o Santo Graal da Exobiologia.

Na dé­ca­da de 70, a po­ten­ci­al exis­tên­cia de um exo­pla­ne­ta era uma hi­pó­te­se ex­tra­or­di­ná­ria que pre­ci­sa­va de uma pro­va à al­tu­ra. Sabe-se ago­ra que a es­tre­la de Barnard não de­ve con­ter qual­quer pla­ne­ta, mas qual­quer pro­je­to se­me­lhan­te ao Dédalo já não pre­ci­sa de­la. O Universo es­tá cheio de pla­ne­tas.

Não te­mos um pro­je­to in­te­res­te­lar em an­da­men­to, mas te­mos um sis­te­ma de trans­por­te in­ter­pla­ne­tá­rio em pre­pa­ra­ção, fei­to pe­la SpaceX.

A SpaceX tem uma pre­sen­ça do­mi­nan­te no pri­mei­ro epi­só­dio da sé­rie, da­do que es­se sis­te­ma em que es­tá a tra­ba­lhar po­de­rá ser usa­do pa­ra le­var se­res hu­ma­nos a Marte.

A SpaceX tem to­do o in­te­res­se em pro­mo­ver os seus es­for­ços de co­lo­ni­za­ção de Marte, pe­lo que foi da­do aos pro­du­to­res da sé­rie um aces­so sem pre­ce­den­tes à em­pre­sa e à sua equi­pa de ci­en­tis­tas. Há mui­to da SpaceX nes­te do­cu­men­tá­rio.

Explorar Marte é difícil. Fazer bons documentários também.

Mars

«Mars» vê-se mui­to bem por quem já é um apai­xo­na­do por es­tes as­sun­tos, mas não é o «acon­te­ci­men­to mun­di­al» que o National Geographic quis pro­mo­ver. Também não é ne­nhu­ma por­ca­ria, lon­ge dis­so.

Eu vou ver to­dos os seis epi­só­di­os e vo­cês não per­dem na­da em fa­zer o mes­mo. «Mars» esforça-se por nos ex­pli­car por que ra­zão uma vi­a­gem tri­pu­la­da a Marte é tão di­fí­cil, e consegue-o.

Tanto quan­to pu­de ver, os ato­res fa­zem um bom tra­ba­lho com o es­cas­so ma­te­ri­al hu­ma­no que têm.

A pro­du­ção con­tra­tou a an­ti­ga as­tro­nau­ta Mae Jemison pa­ra dar aos ato­res um cur­so in­ten­si­vo. Mae Jemison é a pri­mei­ra as­tro­nau­ta afro-americana da his­tó­ria.

Ela ensinou-os a ca­mi­nhar, a fa­lar e a comportar-se co­mo as­tro­nau­tas. Também deu umas di­cas nos diá­lo­gos. Mostrou aos ar­gu­men­tis­tas co­mo fa­lam os ver­da­dei­ros as­tro­nau­tas, co­mo in­te­ra­gem uns com os ou­tros, de que for­ma e em que cir­cuns­tân­ci­as mos­tram as su­as emo­ções.

Resulta bem, em­bo­ra o diá­lo­go con­te­nha às ve­zes ex­po­si­ção a mais, com as­tro­nau­tas co­mu­ni­can­do a ou­tros as­tro­nau­tas in­for­ma­ções bá­si­cas que ja­mais da­ri­am nu­ma si­tu­a­ção re­al.

Isto nem é uma quei­xa. É nor­mal que is­so acon­te­ça nu­ma sé­rie pa­ra o gran­de pú­bli­co. Naquela na­ve, nós so­mos o sé­ti­mo tri­pu­lan­te. Precisamos de sa­ber tu­do o que se es­tá a pas­sar.

Made in USA, claro

Como acon­te­ce em to­das as sé­ri­es pro­du­zi­das nos EUA, há um em­po­la­men­to ex­ces­si­vo das pro­e­zas do as­tro­nau­ta ame­ri­ca­no. Bem, eles fo­ram de fac­to à Lua e fo­ram os úni­cos a consegui-lo, por­tan­to têm di­rei­to a umas pal­ma­di­nhas nas cos­tas nos pró­xi­mos du­zen­tos anos.

«Mars» tam­bém nos mos­tra o ha­bi­tu­al ex­cer­to do dis­cur­so do pre­si­den­te Kennedy anun­ci­an­do a mis­são de le­var as­tro­nau­tas à Lua. Isto é ca­paz de ser re­dun­dan­te pa­ra quem já viu inú­me­ros do­cu­men­tá­ri­os do gé­ne­ro, mas é pre­ci­so ver que um dos ob­je­ti­vos da sé­rie é pro­mo­ver a ex­plo­ra­ção de Marte. Empolgar o gran­de pú­bli­co. Influenciar de­ci­sões po­lí­ti­cas. Capitalizar fu­tu­ros or­ça­men­tos.

O ca­so de Marte é mais com­pli­ca­do do que o da Lua. Não exis­te um ri­val ide­o­ló­gi­co a aba­ter. E a co­o­pe­ra­ção não dá a mes­ma pi­ca po­lí­ti­ca do que a com­pe­ti­ção.

Muitos po­lí­ti­cos po­dem não que­rer sa­ber de Ciência pa­ra na­da, mas ne­nhum des­de­nha­ria pro­ta­go­ni­zar um mo­men­to pa­ra a pos­te­ri­da­de li­ga­do à in­tré­pi­da ex­plo­ra­ção es­pa­ci­al.  Se es­tes seg­men­tos ser­vi­rem pa­ra lhes lem­brar que uma vi­a­gem a Marte tam­bém po­de ser re­com­pen­sa­do­ra pa­ra eles, for­ça, usem e abu­sem do bota-discurso. A gen­te su­por­ta bem es­tas re­dun­dân­ci­as.

A na­ve da sé­rie chama-se Daedalus. O Daedalus mi­to­ló­gi­co cri­ou um la­bi­rin­to pa­ra apri­si­o­nar o Minotauro. O Minotauro é o mons­tro da ig­no­rân­cia. As elei­ções nos EUA deixaram-no à por­ta. Não o dei­xem sair.

Por fa­lar nis­so: em no­me da Ciência e do que o ser hu­ma­no tem de mais cons­tru­ti­vo e ins­pi­ra­dor, si­gam o con­se­lho de Buzz Aldrin e mexam-me es­ses ra­bos.

Buzz Aldrin

Marco Santos

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