Cooper é um tipo porreiro. Numa das suas viagens de avião, repara numa criança com medo da turbulência. Convida-a a fingir que estão os dois na Montanha Russa, erguendo comicamente os braços sempre que o avião estremece. E a miúda ri-se.

Cooper também gosta de apostar no que a sorte lhe oferece. Usa uma aplicação no smartphone, oddJobs, para estabelecer uma ligação entre gente que oferece trabalho e pessoas à procura de conseguir dinheiro. E assim vai financiando as suas viagens, da Tailândia à Índia, de Espanha a Inglaterra.

Não se percebe muito bem o objetivo destas viagens. O que Cooper faz é tirar selfies em todos os sítios por onde passa, parecendo interessado apenas em colecionar cenários diferentes à volta do rosto.

(Uma curiosidade: Cooper é interpretado por Wyatt Russell, antigo jogador de hóquei e filho de um casal de atores, Kurt Russell e Goldie Hawn.)

O smartphone também o ajuda a encontrar companhia quando se sente sozinho, usando uma aplicação que liga pessoas à procura de ter um encontro. E é assim que conhece uma bonita londrina, com quem acaba por passar a noite.

O telemóvel que lhe possibilita todas estas ligações fortuitas e superficiais também o ajuda a isolar-se, pois recusa-se a atender as chamadas da mãe.

Cooper saiu de casa dos pais para viajar pelo mundo depois da morte do pai, que descreve como «o seu melhor amigo». Saiu à socapa e nunca mais comunicou.

Mesmo quando fica sem dinheiro, sozinho em Londres, não é capaz de pedir ajuda à mãe. Prefere procurar refúgio temporário na casa da bonita (e também simpática) londrina que conhecera através da aplicação dos encontros.

A solução que ambos encontram para arranjar dinheiro — ele tornar-se cobaia de um novo tipo de «videogame» — irá mudar a vida de Cooper. Os restantes 40 minutos do episódio transformam-se num exercício cinéfilo de puro terror psicológico.

Seria criminoso contar o que se segue para quem está a ler e ainda não viu, mas estejam preparados para uma viagem psicológica que fará com que turbulências em aviões ou correrias na Montanha Russa pareçam atividades infantis triviais.

O nível seguinte

Wyatt Russell

A intenção desta história é a de mostrar o que pode acontecer a um jogador nato que encara a vida como uma sucessão de apostas — conseguir dinheiro para visitar um país é, para alguém com a mentalidade de Cooper, como passar ao nível seguinte de um jogo.

Tendo vencido tantas etapas à custa desta maneira meio aleatória de estar na vida, tantas quantos os países que conseguiu visitar, Cooper é quase arrogante na forma leviana como encara cada nova aposta, mesmo uma completamente desconhecida. E potencialmente perigosa.

Tudo isto dá dimensão psicológica à personagem e ajuda a perceber por que razão Cooper se lança para um abismo psicológico como se tivesse asas, mas posso imaginar que tendo uma equipa tão criativa e talentosa, os criadores de Black Mirror tenham pensado em primeiro lugar no gozo que seria brincarem aos filmes de terror.

Se desde a primeira temporada a série ganhou a fama de ser um Twilight Zone dos tempos modernos, mais vale ter também o proveito.

E que proveito! Preparem-se. Putos YouTubers que gostam de partilhar os vídeos dos vossos jogos de terror e os gritinhos de pitas histéricas que dão quando dobram uma esquina na penumbra, vocês não sabem nada. São uns amadores. E uns mariquinhas.

Marco Santos

­ Marco Santos

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