Imaginem um mun­do onde todos os sis­te­mas atra­vés dos quais nos ava­li­a­mos uns aos outros nas redes soci­ais — os likes, as estre­li­nhas, as men­ções — são usa­dos para esta­be­le­cer uma posi­ção soci­al.

Esta soci­e­da­de de futu­ro que Black Mirror ima­gi­na nes­te pri­mei­ro epi­só­dio é um sis­te­ma de apartheid. As pes­so­as não são divi­di­das e clas­si­fi­ca­das de acor­do com a raça, mas com o ran­king nas redes soci­ais. Quanto mai­or a pon­tu­a­ção, mai­or é o esta­tu­to e os pri­vi­lé­gi­os de que usu­fru­em.

Existem ser­vi­ços que só podem ser adqui­ri­dos por quem tem uma média supe­ri­or a 4.2. Os que têm a pon­tu­a­ção máxi­ma de cin­co ou estão mui­to per­to dis­so, são a eli­te, a ver­são onli­ne dos «um por cen­to» que os ocu­pas denun­ci­a­ram às por­tas de Wall Street. As pes­so­as de ran­king mais bai­xo sujei­tam-se a ser­vi­ços de infe­ri­or qua­li­da­de. Os que se revol­tam con­tra esta for­ma de orga­ni­za­ção são os mar­gi­na­li­za­dos, os ina­dap­ta­dos, gen­te a evi­tar.

Todos se ava­li­am com os seus smartpho­nes per­ma­nen­te­men­te liga­dos à rede. Todas as inte­ra­ções entre as pes­so­as são deter­mi­na­das por esta neces­si­da­de de subir a média da pon­tu­a­ção. Nada é autên­ti­co, espon­tâ­neo. Os sor­ri­sos são de plás­ti­co. Um ges­to de bon­da­de ou de cor­te­sia só exis­te para aumen­tar a pos­si­bi­li­da­de de se obter uma recom­pen­sa de cin­co estre­li­nhas.

O futu­ro de Black Mirror é um Instagram, o pal­co onde pes­so­as repre­sen­tam ver­sões poli­das de si pró­pri­as, sem­pre à pro­cu­ra da satis­fa­ção ime­di­a­ta mas inca­pa­zes de encon­trar a feli­ci­da­de.

Tudo isto pare­ce fami­li­ar, cer­to? É por­que já somos assim, em gran­de par­te. Há pes­so­as «tão encer­ra­das den­tro da sua pró­pria cabe­ça», como diz a per­so­na­gem de Bryce Dallas Howard, que já só que­rem ver o que podem foto­gra­far e par­ti­lhar. Fotografam dedos dos pés em pai­sa­gens para­di­sía­cas. Fotografam o que comem, o que ves­tem ou o que des­pem. Fotografam-se dian­te do espe­lho. Fazem poses com o cor­po e as pala­vras. São ava­ta­res. Gadgets huma­nos.

Black Mirror cria um futu­ro onde aqui­lo que se obser­va todos os dias no Instagram ou no Facebook é recri­a­do lite­ral­men­te, tor­nan­do-se a base de uma soci­e­da­de alta­men­te tec­no­ló­gi­ca, mas tão assép­ti­ca como um labo­ra­tó­rio. A pre­mis­sa não pare­ce absur­da por ser impro­vá­vel, mas pre­ci­sa­men­te por­que as bases para um mun­do assim já estão lan­ça­das.

Não estou a dizer que este vai ser o futu­ro, mas bas­ta trans­por este sis­te­ma de clas­si­fi­ca­ções para a vida real para mos­trar o quão ridí­cu­lo é dar-se tan­ta impor­tân­cia à for­ma como somos ava­li­a­dos por quem real­men­te não nos conhe­ce.

Que pode acon­te­cer a uma mulher (a mag­ní­fi­ca Bryce Dallas Howard, por quem tenho um fra­qui­nho des­de que a vi no fil­me «A Vila») obce­ca­da em cole­ci­o­nar as estre­li­nhas de apro­va­ção? E o que suce­de quan­do é obri­ga­da a per­gun­tar ‘Onde estou eu, quem sou eu no meio dis­to tudo?’

Este pri­mei­ro epi­só­dio tem tudo o que me habi­tu­ei a espe­rar de Black Mirror. É vis­ce­ral na crí­ti­ca à vacui­da­de des­sas vidas da soci­a­li­te Kardashian, mas tam­bém hila­ri­an­te e ines­pe­ra­do na for­ma como expõe a nos­sa per­so­na­gem prin­ci­pal, for­çan­do-a, em últi­ma aná­li­se, a reen­con­trar-se.

Sim, à ter­cei­ra tem­po­ra­da Black Mirror con­ti­nua a ser uma das gran­des séri­es do momen­to. Vejam-na. É tão boa, tão boa, que nos faz sen­tir des­con­for­tá­veis.

Marco Santos

­ Marco Santos

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