A sé­rie American Gods po­dia ser um te­ma pa­ra um pro­gra­ma Prós & Contras. Havia de ser bo­ni­to vê-los a dis­cu­tir o se­xo dos deu­ses. Digo is­to por­que o que são os «prós» da sé­rie pa­ra uma pes­soa po­dem ser os «con­tras» pa­ra ou­tra e vice-versa, de­pen­den­do da for­ma­ção e per­so­na­li­da­de de ca­da um.

Ninguém po­de ti­rar um mé­ri­to a American Gods: é uma sé­rie ri­ca em me­mes. E nes­ta era do buzz e do hy­pe nas re­des so­ci­ais, a ca­pa­ci­da­de de cri­ar «acon­te­ci­men­tos» é im­por­tan­te pa­ra al­can­çar o su­ces­so.

Temos aí o fe­nó­me­no Game of Thrones que não me dei­xa men­tir, mas há exem­plos mais an­ti­gos. Imaginem o su­ru­ru que te­ria ge­ra­do a sé­rie Dallas e o fa­mo­so cliffhan­ger «Quem ma­tou J.R.» se a Internet e as re­des so­ci­ais exis­tis­sem na al­tu­ra.

O Game of Thrones é um in­con­tes­tá­vel cam­peão de au­di­ên­ci­as a ní­vel pla­ne­tá­rio gra­ças, em par­te, à ca­pa­ci­da­de de ge­rar acon­te­ci­men­tos que ex­tra­va­sam o que acon­te­ce no pe­que­no ecrã. Mesmo aque­les que não acom­pa­nham a sé­rie são atin­gi­dos pe­las on­das de cho­que.

A mor­te da­que­le que to­dos pen­sa­vam ser o per­so­na­gem prin­ci­pal da his­tó­ria foi um dos pri­mei­ros acon­te­ci­men­tos a trans­for­mar um epi­só­dio em no­tí­cia. O cé­le­bre Casamento Vermelho foi mais do que uma no­tí­cia: trans­for­mou o epi­só­dio num even­to glo­bal que até em te­le­jor­nais foi dis­cu­ti­do.

Uma salganhada de deuses

Ian McShane é o Sr. Quarta-Feira

O sem­pre mag­ní­fi­co Ian McShane é o Sr. Quarta-Feira

American Gods é um pro­du­to des­ta ne­ces­si­da­de de ser fa­la­do e dis­cu­ti­do. Ainda es­tou pa­ra per­ce­ber se é mui­to mais do que is­so, co­mo na ver­da­de é Game of Thrones. A sé­rie deixa-me in­de­ci­so e sem sa­ber se gos­to mui­to, gos­to pou­co ou se aca­ba­rei por me far­tar. Esta ir­re­so­lu­ção tem a ver com a pre­mis­sa e exe­cu­ção. Adoro a pre­mis­sa da sé­rie. Já não es­tou tão con­ven­ci­do quan­to à exe­cu­ção.

Isto não é sur­pre­en­den­te pa­ra mim. American Gods é uma adap­ta­ção do li­vro de Neil Gaiman, pu­bli­ca­do em Portugal sob o tí­tu­lo «Deuses Americanos». Eu li o li­vro e sen­ti o mes­mo: ex­ce­len­te pre­mis­sa, du­vi­do­sa exe­cu­ção, es­cri­ta pou­co apai­xo­nan­te.

American Gods é um olhar so­bre a América de­vo­ta do pas­sa­do e do fu­tu­ro. Neste mun­do, os deu­ses que es­cra­vos e emi­gran­tes trou­xe­ram con­si­go dos Velhos Mundos — do Ódin da mi­to­lo­gia nór­di­ca ao Anúbis da mi­to­lo­gia egíp­cia — são tão re­ais co­mo qual­quer ou­tra pes­soa. Vivem en­tre nós, dis­far­ça­dos, ain­da so­bre­na­tu­rais mas en­fra­que­ci­dos pe­los tem­pos mo­der­nos.

A exis­tên­cia des­tes deu­ses de­pen­de da ve­ne­ra­ção que lhes é de­di­ca­da. Do nú­me­ro de pes­so­as que ne­les acre­di­ta. Nesta era em que se voa por cau­sa das leis de Newton e não de­vi­do à fé, a exis­tên­cia de tais di­vin­da­des é clan­des­ti­na, de­ca­den­te, mar­gi­nal.

Os no­vos deu­ses que pro­li­fe­ram na América mo­der­na são de um ti­po di­fe­ren­te.

São os deu­ses dos me­dia, da Internet e tec­no­lo­gia, são os deu­ses do mun­do glo­bal em que vi­ve­mos, os deu­ses de Wall Street. Estes no­vos deu­ses — e em American Gods são mes­mo deu­ses, não me­tá­fo­ras — es­tão pres­tes a en­trar em guer­ra com os ve­lhos e qua­se es­que­ci­dos deu­ses da Antiguidade.

Uma guer­ra pe­la con­quis­ta da nos­sa de­vo­ção. Das nos­sas aten­ções. Dos nos­sos al­ta­res. E es­tão to­dos em fa­se de re­cru­ta­men­to.

Memória curta ou memória longa?

Bilquis (Yetide Badaki)

Bilquis (Yetide Badaki)

American Gods tem já al­gu­mas ce­nas me­mo­rá­veis, mas o mai­or pro­ble­ma pa­ra mim é não con­se­guir ain­da enquadrá-las na his­tó­ria. Parecem caí­das do céu. Por um la­do faz sen­ti­do, uma vez que en­vol­vem deu­ses; por ou­tro, deixa-me a pen­sar se o que es­tou a ver é ape­nas o que es­tou a ver — e na­da mais. Seguem-se al­guns exem­plos. E spoi­lers.

Biliquis, Rainha de Sabá, é a deu­sa do amor que se ali­men­ta dos aman­tes, sugando-os pe­la va­gi­na, o que dei­xou mui­tos te­les­pec­ta­do­res do se­xo mas­cu­li­no com a sen­sa­ção de que as res­pe­ti­vas pi­las ti­nham fi­ca­do pre­sas den­tro de cu­bos de ge­lo.

Uma ce­na de se­xo mui­to ex­plí­ci­ta en­tre dois gays mu­çul­ma­nos dei­xou mui­tos ho­mo­fó­bi­cos a co­çar a ca­be­ça, ten­tan­do ima­gi­nar uma for­ma de cri­ti­car a ce­na odi­o­sa sem dar mui­to nas vis­tas.

Um dis­cur­so de um deus ma­nho­so a um gru­po de es­cra­vos pa­re­ce de­cal­ca­do do mo­vi­men­to «Black Lives Matter». E é.

O que têm es­tas ce­nas em co­mum? A ca­pa­ci­da­de de cri­ar buzz. Que im­pac­to têm na his­tó­ria? Ainda não per­ce­bi.

American Gods brin­ca com coi­sas sé­ri­as — ra­cis­mo, re­li­gião e ho­mo­fo­bia, so­bre­tu­do —, mas as ce­nas che­gam e pas­sam de for­ma des­co­ne­xa.

Os ac­to­res são ex­ce­len­tes. A mú­si­ca é om­ni­pre­sen­te, mas co­nhe­ce os mé­ri­tos do pi­a­nís­si­mo. Os efei­tos vi­su­ais são bons. Os diá­lo­gos têm os seus mo­men­tos.

Ao fim de qua­tro epi­só­di­os, po­rém, ain­da não con­se­gui per­ce­ber se as «ce­nas me­mo­rá­veis» são par­te in­trín­se­ca da nar­ra­ti­va e dos per­so­na­gens. Ainda não per­ce­bi o que é fo­to­gra­fia e o que é car­taz. O que é mo­vi­men­to e o que é po­se. Estão lá só pa­ra cri­ar um es­cân­da­lo e ali­men­tar a má­qui­na dos me­mes e das par­ti­lhas? Ou os pró­xi­mos epi­só­di­os vão desmentir-me?

O génio da lâmpada precisa que American Gods seja um êxito

Bryan Fuller, Neil Gaiman e Michael Green

Bryan Fuller, Neil Gaiman e Michael Green, co-criador da sé­rie.

Um dos cri­a­do­res de American Gods é Bryan Fuller, o mes­mo de Hannibal. Entre os fãs, Fuller é vis­to co­mo um gé­nio da lâm­pa­da amal­di­ço­a­do. Um cri­a­dor de gran­des obras que ain­da não foi ca­paz de es­fre­gar um su­ces­so es­tron­do­so de au­di­ên­ci­as. Hannibal, por exem­plo, era uma sé­rie de cul­to, mas foi can­ce­la­da pe­la NBC ao fim da ter­cei­ra tem­po­ra­da.

Com American Gods, os fãs de Fuller es­pe­ram que ele con­si­ga, por fim, o su­ces­so que me­re­ce.

Talvez se­ja des­ta. Ou tal­vez a mal­di­ção Fuller se man­te­nha.

Fuller foi bus­car uma his­tó­ria de deu­ses, an­ti­gos e mo­der­nos, e tornou-a sua. Deu-lhe vís­ce­ras, san­gue, se­xo, es­cân­da­lo e ce­nas em câ­ma­ra len­ta. No seu me­lhor, a vi­o­lên­cia em American Gods é ex­tra­va­gan­te e his­trió­ni­ca, mas vi­su­al­men­te es­pe­ta­cu­lar; no seu pi­or, pa­re­ce uma ca­ri­ca­tu­ra de Sam Peckinpah que se le­va de­ma­si­a­do a sé­rio.

Mas na­da dis­to in­te­res­sa. Uma sé­rie des­tas cus­ta mui­to di­nhei­ro e só so­bre­vi­ve­rá se ti­ver su­ces­so. Tal co­mo to­dos os ou­tros sho­wrun­ners, Bryan Fuller con­ti­nua su­jei­to ao jul­ga­men­to do mai­or e mais po­de­ro­so de to­dos os deu­ses ame­ri­ca­nos: o deus da au­di­ên­cia.

Marco Santos

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