Acabou-se o Thriller

Publicado por Marco Santos [26/Junho] | Categoria: Música | 190 comentários »

Relacionado (ou não): O Zappa não é um músico, é um pintor [23/Junho/2007]
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Mensagem no TwitterSobre a morte de Michael Jackson, o Rei da Pop que sucumbiu hoje a um ataque cardíaco, chamou-me a atenção o Twitter do Nuno F. e o seu respeitável avatar do Frank Zappa. Em primeiro lugar, porque o que há de comum neste momento entre Zappa e Jackson é que ambos se encontram na condição de mortos – tecnicamente, pelo menos, porque a música de Zappa continua viva e a de Jackson, para mim, nunca chegou a nascer.

Em segundo lugar, porque Zappa satirizou Jackson e as suas idiossincrasias sexuais na canção Why Don’t You Like Me?, lançada no disco de 1988 Broadway the Hard Way.

Em terceiro, porque se continuar a ouvir os disparates da CNN e não mudar para um canal de música a sério – o Mezzo, que nunca passará uma única canção de Jackson –, vou realmente começar a bocejar como no avatar do Nuno F.

As expressões elogiosas sucedem-se a um ritmo vertiginoso e este é um ritmo que conheço bem – daí o bocejo. Chamem-lhe um jornalístico bocejo, se quiserem. O pedófilo de ontem transformou-se no génio musical, no humanitário de hoje e dos próximos dias. Perante a morte do Rei do Pop, dizem os entrevistados, o melhor é esquecer as controvérsias do passado e recordá-lo como um ícone da cena musical – ó bocejo meu, haverá aborrecimento maior do que o meu? Onde é que deixei o raio do comando?

Aceito que Rei do Pop seja um título que lhe assenta bem, desde que não me peçam para acreditar que pop se refere a um estilo de música. Népia. Pop, no caso dele e de outros notáveis medíocres idolatrados por massas com orelhas mas sem ouvidos, significa simplesmente o som das rolhas de champanhe a saltar nos gabinetes dos mafiosos da Recording Industry Association of America (RIAA). Esse Pop é a celebração do lucro, não da arte. É o reinado do dinheiro, não da cultura. Génio da música? Onde é que deixei o raio do comando?

Vejo-o como um Peter Pan coberto de operações plásticas que o faziam parecer um Pinóquio grotesco esforçando-se por enganar a passagem do tempo. As plásticas tê-lo-ão ajudado a mentir a si próprio, e os modernos Gepetos que o operaram certificaram-se de que o seu nariz de Pinóquio encolheria em vez de aumentar. Assim o recordo e assim o esquecerei.

Com tantas pessoas a sofrer e morrer neste mundo, é quase imoral que o mundo fique nos próximos dias obcecado com o sofrimento e a morte de uma só. Passo.

Eric Dolphy: música furiosamente livre

Publicado por Marco Santos [6/Abril] | Categoria: Música | 4 comentários »

Relacionado (ou não): Sonny Sharrock [17/Abril/2007]
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Eric DolphyConheci a música de Eric Dolphy através das referências de Frank Zappa. É uma bela forma de conhecer música nova, explorar os caminhos trilhados pelos que já conhecemos e são os nossos preferidos.

Zappa e Dolphy são músicos muito diferentes, mas tinham em comum a mesma adoração pelo compositor Edgar Varèse. Zappa era ainda um adolescente quando pediu, como prenda de aniversário, autorização para fazer uma chamada de longa distância para a casa do ídolo com o objectivo de falar sobre música – não o encontrou, mas Varèse enviou-lhe uma carta que guardou religiosamente; Dolphy costumava tocar a peça Density 22.5 nos concertos.

Nas notas do seu disco de estreia com os Mothers of Invention (Freak Out, 1966), Zappa mencionou Dolphy como «um dos músicos que contribuiu para fazer da música dos Mothers aquilo que é». Zappa voltaria a prestar tributo a Eric Dolphy no álbum Weasels Ripped My Flesh, de 1970, com um belíssimo tema instrumental, The Eric Dolphy Memorial Barbecue.

Há quem veja no uso da palavra barbecue (churrasco) mais um dos habituais (e habitualmente certeiros) sarcasmos de Zappa, desta vez dirigido à quantidade industrial de tributos prestados a Eric Dolphy após a sua morte. Zappa nunca confirmou a intenção sarcástica do título, mas devia saber muito bem que este grande músico teve de lidar muitas vezes com a absoluta incompreensão dos críticos em relação à sua obra.

Os anos em que tocou na banda de John Coltrane são agora preciosos momentos da história do jazz, mas John Tynan, editor da prestigiada revista Down Beat, não aceitava o tipo de improvisação da dupla Dolphy/Coltrane, considerando que na música do quinteto estava a ser seguido um «curso anarquista» que podia ser considerado «anti-jazz».

Coltrane, um homem reservado e cuidadoso nas palavras, pouco dado a entrevistas, recordou essas críticas numa conversa com Frank Kofsky, Professor de História, músico e autor de vários livros sobre Jazz: «Estavam a dizer que não sabíamos nada sobre música», afirmou. «E magoou-me vê-lo tão magoado com essas críticas».

Mesmo nos momentos em que a sua música foi bem recebida pelos críticos, Eric Dolphy teve de dar aulas particulares de música para ganhar dinheiro. Também conseguia uma vida financeira mais estável actuando como sideman de outros músicos, como era o caso de Coltrane, já mencionado, mas também de Charles Mingus, em cuja banda foi integrado para uma digressão pela Europa em 1964.

Eric Dolphy com John Coltrane

Concluindo que conseguia mais trabalho na Europa do que nos Estados Unidos a tocar a sua própria música, Dolphy deixou-se ficar pela Holanda, onde gravou uma notável sessão imortalizada no álbum Last Date – um título enganador, pois pouco tempo depois Dolphy viajou para Paris e gravou mais duas sessões para uma rádio.

Quando chegou a 27 de Junho a Berlim para actuar na inauguração de um novo clube de jazz, o Tangent, já se sentia tão doente que só foi capaz de tocar duas músicas. Dois dias depois, aos 36 anos, morria num hospital da capital alemã.

Dolphy sofria de diabetes e foram as complicações resultantes desta doença que o mataram. A primeira versão do que aconteceu afirma que o músico desmaiou a 28 de Junho no hotel onde estava hospedado, tendo sido internado em coma diabético. A injecção de insulina que lhe foi administrada pelos médicos era mais forte do que as que costumava receber nos Estados Unidos: o choque provocado pela administração deste tipo de insulina acabou por matá-lo.

Anos depois, um documentário refutou esta versão: Dolphy desmaiou em palco e foi conduzido ao hospital; partindo do princípio de que o problema era a habitual overdose de drogas dos músicos de jazz, não sabendo que sofria de diabetes, os médicos largaram-no numa cama de hospital à espera que passasse. Acontece que também neste aspecto Dolphy era diferente: rejeitava as drogas e nem sequer bebia álcool.

Talvez o sarcasmo de Zappa faça ainda mais sentido se considerarmos que a mesma revista Down Beat que o rotulou de «músico anti-jazz» haveria de o colocar na sua Hall of Fame no mesmo ano em que morreu.

Um tributo relevante foi prestado por quem lhe atribuiu valor em vida: «Diga o que eu disser seria sempre uma subavaliação», disse Coltrane. «Só posso afirmar que a minha vida se tornou muito melhor por conhecê-lo. Era uma das melhores pessoas que conheci, como homem, amigo e músico».

A mãe de Dolphy ofereceu a John Coltrane a flauta e o clarinete-baixo que o filho comprara na Europa. Coltrane usou-os nos discos e concertos até à data da sua própria morte, em Julho de 1967. A flauta que passou para as mãos de Coltrane voa numa esplendorosa interpretação de um standard de jazz, You Don’t Know What Love Is, retirado do álbum Last Date: aqui temos um músico impossível de esquecer, lírico, furiosamente livre, explosivo e imprevisível nos seus solos. Oiçam [Fontes: Eric Dolphy Biography | Wikipedia | ARF: The Eric Dolphy Memorial Barbecue]

Mix Tape (IV)

Publicado por Marco Santos [27/Fevereiro] | Categoria: Música | 6 comentários »

Relacionado (ou não): A banda doida [29/Dezembro/2008]
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Não vos aconselho a ouvir esta mix tape. A escolha das músicas, sobretudo ao princípio, é um bocadinho bizarra – eu cá adoro, claro!

Os amigos e familiares são muito importantes para educar os nossos gostos musicais, mas sempre acreditei – pelo menos no meu caso é assim – que os grandes educadores são os músicos que ouvimos. Vejam os Radiohead e as influências que se notam nos seus discos: Jeff Buckley, Charles Mingus, Pink Floyd, só para mencionar os mais evidentes para mim. Há muito mais, com certeza. Os grandes músicos bebem sempre de muitas fontes.

Os meus grandes educadores musicais foram os Floyd, sobretudo Roger Waters; depois, com muitíssima amplitude, como já estão fartos de saber, obrigado pela paciência, Frank Zappa.

Dado que Frank Zappa é capaz de misturar vários géneros musicais num único tema, foi graças sobretudo a ele que me interessei por jazz e música clássica mais contemporânea.

Gravar uma sequência de temas que passam de ritmos africanos para a opereta de Gershwin até ao rock histriónico dos X-Legged Sally é a coisa mais natural do mundo para um zappanóico como eu – outras pessoas poderão achar completamente idiota. Seja como for…

Amadinda Percussion Group – Traditional African Music | George Gershwin – Intro (from Porgy and Bess) | George Gershwin – Summertime (from Porgy and Bess) | X-Legged Sally – Eddies | X-Legged Sally – Dum Dum | Belle Chase Hotel – La Toilette Des Etoiles | Kiss My Jazz – Lost Souls Convention | Ani Difranco – Crudle and All | Uri Caine – I Went Out This Morning Over The Countryside | Keith Jarrett – All of You | Herbie Hancock – New York Minute | Juan Manuel Ceruto – Danza para Cuatro ()

Mix Tape: Thus Spoke Zappathustra (A)

Publicado por Marco Santos [18/Fevereiro] | Categoria: Reedições | 9 comentários »

Relacionado (ou não): Assim Falou Zappathustra [26/Janeiro/2006]
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Chateado com o rumo musical do planeta MTV? Fã de Frank Zappa e incompreendido pelos teus amigos adoradores de mariquices hiper-valorizadas? Não te preocupes, pá, vieste parar ao sítio certo… (Esta é uma posta de pescada originalmente publicada em Janeiro de 2006 mas agora repescada porque o formato FLAC substituiu a aberração MP3 do post original.)

Devo dizer que sou um chato do caraças quando gosto de alguma música (ou filme). E vocês têm sorte porque basta um clique para se livrarem do blogue. Imaginem se têm a infelicidade de se ver apanhados entre mim, a parede da sala de estar e as colunas da aparelhagem. O cerco inicia-se com as palavras de ordem: Pá, senta-te, tens de ouvir isto…

Olhem que nem sempre é um tormento para o pobre desgraçado. Já consegui fazer algumas conversões valentes a Frank Zappa – e nem todas foram por exaustão.

Frank ZappaAdmito que aborreci muita gente. Talvez tenha contribuído para um aumento do número de bocejos ou depressões psicóticas na área onde vivo. Mas deixemos as estatísticas para as máquinas. É de música que estamos a falar!

Eu enfiava-lhes Zappa pelas orelhas abaixo e eles pareciam putos a quem a mãe lhes quer fazer engolir a sopa até ao fim. Mas engoliam-na toda, sim senhor, que a boa música também não é para se desperdiçar!

Estejam descansados que agora estou melhor: se depois de uns 15 ou 20 temas seguidos aquilo não pega, então pronto, tudo bem, fico com pena do gajo, começo a falar mais alto porque o julgo surdo, mas deixo cair o assunto – deixo cair com estrondo e a ajuda da bateria do grande Terry Bozzio, mas deixo cair.

Outras vezes é diferente: não só consigo injectar-lhes Zappa no sangue como também os sujeitos (agora convertidos), desejosos de continuar a ser tocados pela Luz da guitarra e composições do mestre, me pedem uma compilação com essas cenas tão fixes que me mostraste.

As más-línguas dizem que só me pedem cenas do Zappa na derradeira tentativa de me fazer calar. Enquanto eu estou entretido a gravar aquela merda não chateio ninguém. Depois é só levarem para casa e ouvirem no dia de são nunca à tarde. Mas isso são mentiras maliciosas, meus amigos, porque eu sei que aí desse lado ainda há muita gente com as orelhas no sítio onde devem estar, ou seja, coladinhas ao cérebro.

Um certo dia, alguém com quem costumo conversar no café pediu-me que lhe escolhesse e gravasse, num CD, as melhores músicas do Frank Zappa. Eu faria a selecção que entendesse, tendo em conta, porém, que aquilo devia funcionar como introdução à música do Mestre.

Percebi logo que me tinha metido numa alhada: como guardar num simples CD o melhor de um músico que deitou cá para fora mais de 80 CD’s – muitos deles duplos e triplos – e quase todos excelentes? E qual seria a música escolhida para iniciar o desfile?

Esta última questão foi fácil de resolver: não usei Zappa. Fui buscar algo igualmente grandioso: a Introdução ao Assim Falava Zarathustra, de Richard Strauss (Kubrick, outro mestre no panteão de mestres das minhas prateleiras, escolheu-a para a abertura e final de 2001: Odisseia no Espaço). Depois foi só usar o Wavelab para a misturar com um diálogo retirado de um CD do Zappa (Lumpy Gravy) em que se falava que o Universo é constituído por uma BIG NOTE.

Pronto, no princípio era a música. Problema existencial resolvido.

A tal questão de seleccionar os temas foi, como previa, muito mais difícil de solucionar. Acabei então por gravar cinco CD’s – em vez de apenas um – aos quais dei o óbvio título de «Assim Falava Zappathustra: as 150 melhores músicas».

Mas naturalmente não posso partilhar o conteúdo de todos estes CD’s no blogue. Não quero ser acusado de pirataria. Portanto, perdi um bocadinho de tempo e criei cassetes virtuais com pouco mais de 45 minutos de duração em cada lado. Estas cassetes possuem um mecanismo auto-destrutivo e explodem ao final da primeira audição enquanto gritam Heil RIAA!

O Lado A desta k7 chama-se – eu sei que vou surpreender-vos – Thus Spoke Zappathustra (Side A). Optei por mudar o título para inglês porque obviamente tem muito mais pinta. A mistura foi feita com uma utilização extensiva do Wavelab – quatro pistas, às vezes mais – e é toda non-stop, ou seja, com passagens. Usem o ficheiro .CUE incluído para poderem ver o alinhamento dos temas no vosso player, um player a sério como o Foobar2000 (em Windows) ou o Foobar2000 (em Linux, via Wine). No Mac não sei, só uso o Mac para me pentear. Pronto, meninos e meninas. Resta-me terminar este post com o habitual ponto final parágrafo. Actualização (19/Fev) Disponível no PTDown

A banda doida

Publicado por Marco Santos [29/Dezembro] | Categoria: Música | 4 comentários »

Relacionado (ou não): Ping, Ping [27/Março/2008]
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Kids Eat Crayons

Já não é a primeira vez que o nome de Frank Zappa é usado para promover a música de uma banda. O Mestre morreu há quase 16 anos e, dada a complexa originalidade da sua música, os hardcore fanatics sentiram-se órfãos de um estilo onde as barreiras musicais eram quebradas de forma despreconceituosa e arrebatadora.

Ao longo destes anos tenho conhecido bandas herdeiras que abordam a música com uma atitude semelhante: o melhor exemplo deste ecletismo vem de um músico de jazz mais influenciado por John Zorn do que por Zappa, Uri Caine, mas à conta desta busca por coisas zappianas descobri três bandas belgas formidáveis: dEUS, X-Legged Sally e Fukkeduk.

A descoberta mais recente é um grupo oriundo de Montreal, os Kid Eat Crayons. Sete músicos juntaram-se com uma identidade comum: o gosto pelo jazz e o «thrash metal», e a vontade de misturar todas estas influências numa voz consistente e original. O crítico Johnson Cummins, outro maluco que escreve para o Montreal Mirror, acabou por descobrir-lhes a verdadeira identidade: «Todos os zappanáticos que não se importam de levar com uns arranjos exagerados à Steely Dan misturados com o sabor da demência de um Mike Patton, levantem o cu e oiçam os Kids Eat Crayons.»

Carregar a herança de Zappa é um fardo pesado – e os Kids Eat Crayons não têm arcaboiço suficiente. Se a meia-dúzia de fãs do mestre que frequenta o blogue (estimativa optimista) espera encontrar um grupo genial vai ficar desiludida: é interessante, não arrebatador. Mas a música destes tipos é bizarra, ecléctica, divertida, bem tocada, sobretudo as faixas retiradas do disco de estreia Is For Lovers, de 2007 – Masturbation Day Parade, Fish Don’t Swim e Best Friend Clio (*) -, ressoando nestes temas ecos dos arranjos vocais feitos para Flo & Eddie, cúmplices de Zappa na década de 70, as explosões controladas das canções, System of a Down, John Zorn, X-Legged Sally, metal, jazz e o indispensável sentido de humor.

Jimmy Carl Black (1938-2008)

Publicado por Marco Santos [19/Novembro] | Categoria: Música | 2 comentários »

Relacionado (ou não): Led Zeppelin secret chord progression [21/Fevereiro/2006]
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Jimmy Carl Black em 1970Para os «hardcore fanatics» de Frank Zappa, o baterista Jimmy Carl Black é um nome memorável por ter pertencido ao primeiro line-up dos Mothers of Invention, o grupo que Zappa criou a partir dos Soul Giants e que haveria de ser a sua banda de suporte nos anos que se seguiram – no caso do sempre perfeccionista e complexo compositor, fazer parte da sua banda de suporte não era uma tarefa ao alcance de todos.
É a voz de Jimmy que se ouve na primeira faixa de We’re Only In It for the MoneyAre You Hung Up -, quando se apresenta, numa entoação perfeita para a jocosidade do big boss, «Hi, boys and girls, I’m Jimmy Carl Black and I’m the Indian of the group». A fala tornar-se-ia uma assinatura que o próprio usaria até ao fim: o sítio oficial chama-se Jimmy Carl Black, The Indian of the Group.


Só hoje soube que Jimmy Carl Black tinha morrido. Partiu dia 1 deste mês, aos 70 anos, poucos meses depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro nos pulmões. A mensagem final no seu site é a seguinte: «Jimmy diz olá a todos e não quer que ninguém fique triste».

Venha a música, então! Depois de Zappa acabar com os Mothers of Invention, em 1970, Jimmy Carl Black juntou-se a outro ex-Mother, Bunk Gardner, para formar os Geronimo Black. O mundo dos bons músicos é pequeno, como se sabe, e dessa banda fazia parte o guitarrista e vocalista Denny Walley, que em breve haveria de pertencer à trupe de artistas que acompanhou Zappa nessa década e no princípio da década seguinte.
Eis a faixa Bullwhip, uma das melhores de um disco que recebeu o mesmo nome – Geronimo Black – e passou despercebido do grande público e da crítica. A banda só voltaria a reunir-se para gravar um segundo álbum em 1980, oito anos após o disco de estreia. Obituário no The New York Times | Obituário no Los Angeles Times | Sítio oficial de Jimmy Carl Black

O desafio das sete canções (mais ou menos)

Publicado por Marco Santos [11/Novembro] | Categoria: Música | 9 comentários »

Relacionado (ou não): Senhora Duke Ellington [29/Abril/2008]
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Nunca alinhei em memes, mas abri uma excepção para este. A ideia é dizermos quais as sete canções que nos marcaram e porquê, portanto não é necessário responder se fosse uma flor gostaria de ser um eucalipto ou merdas do género. Além disso, gosto do blogue que me desafiou. Obrigado pela referência, Felipe Marques.

Sete canções não escolho, prefiro escolher sete momentos musicais que foram e continuam a ser importantes para mim por diversas razões: coincidem na perfeição com os meus gostos eclécticos (Uri Caine), coincidem na perfeição com os meus gostos eclécticos e fizeram-me descobrir novas músicas (Zappa), fizeram-me amar o jazz tanto quanto odeio a música que passa na MTV (John Coltrane, Keith Jarrett, Carla Bley, Miles Davis) e porque, finalmente, me deixaram emocionado por terem surgido numa época tão musicalmente medíocre (Radiohead).

De fora desta selecção ficaram os Pink Floyd e as nuvens distantes fumegando nos horizontes de Roger Waters, os Queen do disco A Night at the Opera, os músicos clássicos contemporâneos que Zappa e os filmes do Kubrick me fizeram descobrir (Varèse, Bartók, Ligeti, Debussy); o grande saxofonista Wayne Shorter; o bar de sombras e copos cintilantes de Tom Waits; os violinos do Wagner; a voz de Lene Lovich; bandas como os Morphine ou os Soul Coughing; os solos de guitarra do Mark Knopfler dos Dire Straits, porque no meu processo de aprendizagem o Knopfler foi para a guitarra o que Jack Nicholson foi para a representação; os novos mothers of invention, filhos bastardos de Zappa (X-Legged Sally, Fukkeduk, dEUS, bandas originárias da Bélgica); enfim, talvez numa segunda série mencione toda esta malta. O meme dá pano para mangas – e é por isso que gosto dele.

As regras do meme determinam que devo passar o desafio a outros sete bloggers – não estou para isso. Passo a batatinha quente a três: Pedro Marques, do Fora de Cena; Seven e Júnior, do Obvious; Nelson Moraes, do Ao Mirante, Nelson. E pronto, fica assim.

Seguem-se os sete momentos, devidamente documentados.

 

Uri CaineUri Caine Este grandioso disco – Ulricht/Primal Light – é tudo ao molho e fé nos arranjos, e resulta maravilhosamente. Explico: Uri Caine, músico de jazz, pianista, judeu nascido na Filadélfia em 1956, pegou em trabalhos do grande compositor erudito Gustav Mahler, reuniu um grupo de músicos da vanguarda nova-iorquina (Don Byron, Dave Douglas, Mark Feldman, Michael Formanek, Larry Gold, Arto Lindsay) e criou as suas próprias e blasfemas versões das belas composições do mestre austríaco.

O resultado é um quebrar de barreiras entre géneros musicais que eu não ouvia desde Frank Zappa – daí o meu grande entusiasmo quando descobri o disco. A fusão entre sagrado e profano, passado e presente, resulta maravilhosamente bem, ao contrário do que sucedeu com Charlie Parker ou Bill Evans que gravaram com orquestras – vou usar as palavras do próprio Parker no filme do Clint Eastwood – «músicas tão bonitas como margarina no rabo da irmã».

Uri Caine apropria-se do jazz, da música kelzmer, dos blues, do rock, do funk, da música electrónica, do que lhe soar bem; chega a colocar DJ Olive, outro dos membros da banda, a samplar discos em vinil de Mahler, integrando-os nos arranjos, picos e tudo, misturando-os e colocando-os em confronto com os nossos próprios preconceitos musicais. Não é fácil de ouvir, mas é inspirador. Documentação que talvez queiram consultar: I Went Out This Morning Over the Countryside/Symphony No.5: Adagietto


RadioheadRadiohead Foi Paranoid Android que me fez conhecer Radiohead. No meu local de trabalho ouvia-se a saudosa XFM e o tema passava todos os dias, às vezes mais do que uma vez. Devia ser também uma paixão assolapada de muitos dos que trabalhavam naquela estação de rádio. Ouvi-los era como regressar aos bons velhos tempos em que passava noites a ouvir o The Wall dos Pink Floyd até decorar todas as letras e cantar o disco de uma ponta à outra.

Para mim foi uma revelação – não é todos os dias que a música de uma banda me consegue fazer arrepiar até à raiz dos cabelos, bater o pé com vontade de dançar e ficar em silêncio deslumbrado – e tudo na mesma canção. Não descansei enquanto não comprei o disco. Depois, como é costume comigo – e vocês que acompanham este blogue não me deixariam mentir! – chateei toda a gente até à exaustão para que conhecessem a nova maravilha do mundo. Os discos que se seguiram – Kid A e Amnesiac – são obras-primas: mostram os Radiohead no seu mais absoluto estado de graça musical. Em vez de seguir a linha de OK Computer, a banda arriscou e seguiu em frente, tornou-se mais experimental, mais arrojada nos arranjos, em suma, magnífica. Os Radiohead são actualmente a maior banda do mundo e arredores – sem espinhas. Este documento poderá demonstrar a veracidade desta afirmação: Paranoid Android/Pyramid Song/How To Disappear Completely

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Fusões

Publicado por Marco Santos [25/Outubro] | Categoria: Instantes | 1 comentário »

Relacionado (ou não): Este é só para quem gosta de Zappa [23/Julho/2007]
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Frank ZappaJohn Coltrane

Uma experiência de fusão em vinil que pode ser acompanhada nesta página…



Ainda mexe